O Recife dos anos 1970 voltou aos cinemas em 2025 com “O Agente Secreto”, um dos filmes brasileiros pré-selecionados para concorrer ao Oscar 2026.
No ano que termina, o recifense Kleber Mendonça Fruto, diretor do filme, também conquistou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes, na França.
Foi também em 2025 que a voz e o sotaque pernambucano de João Gomes triunfaram em Las Vegas, cidade americana onde o cantor recebeu, ao lado dos músicos Mestrinho e Jotapê, o Grammy Latino de melhor álbum de música de raízes em língua portuguesa (Dominguinho).
Jovem de 23 anos nascido em Serrita (PE), Gomes arrebatou ainda cinco categorias do Prêmio Multishow 2025 e encerrou o ano dividindo o palco com Roberto Carlos no peculiar de final de ano da TV Orbe.
A galeria de conquistas pernambucanas não estaria completa sem Jhon Xavier, que em 2025 se tornou o primeiro brasiliano a ocupar medalha em um Mundial de Base no pentatlo moderno e foi reconhecido porquê melhor da modalidade no Prêmio Brasil Olímpico 2025, conferido pelo Comitê Olímpico Brasílico (COB).
Embora entrevistados pela BBC News Brasil digam que a influência de Pernambuco não vem de hoje, eles reconhecem que 2025 foi uma ótima “safra” para o estado. Por fim, o que é que Pernambuco tem?
Janela para a Europa e para o mundo
Vistas à luz da história pernambucana, essas realizações podem parecer modestas. O Leão do Setentrião —sobrenome de Pernambuco— foi uma das regiões mais ricas do mundo nos séculos 16 e 17, rivalizando com colônias inteiras do Caribe na produção açucareira.
O estado é causa de luminares porquê o poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999), a escritora Clarice Lispector (1920-1977) e o músico Luiz Gonzaga (1912-1989).
Durval Muniz de Albuquerque, professor visitante de história da Universidade Federalista do Rio Grande do Setentrião (UFRN) no Campus de Caicó, destaca a valia histórica da capital pernambucana, Recife —uma cidade portuária.
“É uma grande metrópole brasileira desde o prelúdios do século 20. Sempre foi um grande meio cultural”, afirma o historiador paraibano, responsável de “A invenção do Nordeste e Outras Artes” (Cortez/Massangana, 1999).
“É o porto [brasileiro] mais próximo da Europa em relação a Rio de Janeiro e São Paulo. É onde chegam todas as grandes novidades europeias, as companhias teatrais e de ballet.”
Aliás, ele destaca que Recife foi um dos pontos de ingresso de escravizados africanos no Brasil —a cidade tinha em 2022 mais de 60% de pretos e pardos em sua população, segundo o Instituto Brasílico de Geografia e Estatística (IBGE)— e sorte de migrantes de origens variadas, mormente do campo.
Recife foi também base para a elaboração de uma imagem do Nordeste marcada pela idealização da cultura açucareira e pela estigmatização do sertão semiárido porquê uma região marcada por atrasos, acrescenta Albuquerque.
Contribuíram para a construção dessa visão intelectuais porquê Gilberto Freyre (1900-1987) e os paraibanos radicados no Recife José Lins do Rego (1901-1957) e Ariano Suassuna (1927-2014).
Para além desse imaginário, a cidade gerou muitas outras novidades culturais. Albuquerque cita o frevo do início do século 20 (“música completamente urbana e negra”), o Manifesto Tropicalista de 1968 (“o primeiro manifesto tropicalista do Brasil”) e os movimentos musicais batizados de manguebeat e psicodelia nordestina.
“Recife teve a Rozenblit, fábrica de discos que, durante quatro décadas, manteve uma produção fonográfica tão importante quanto a Copacabana, do Rio de Janeiro, e trouxe para o mercado gravações de frevo, maracatu e caboclinhos”, afirma o historiador, falando à BBC News Brasil por telefone, de Caicó (RN).
“O que está acontecendo agora é que esse grande caldeirão cultural que sempre foi Recife está produzindo mais uma grande safra de criações invejáveis.”
Há quatro anos adiante do projeto “Os Nordestinos pelo Mundo”, que inclui um podcast e perfis em redes sociais, o participador Leo Paiva diz que a novidade safra da cultura pernambucana é resultado de um cultivo pormenorizado.
“O pernambucano governanta a sua própria cultura e tem um prazer imenso em valorizar os seus. Isso é uma escola, é uma lição sobre porquê amar a própria cultura é importante”, afirma o cearense, falando à BBC News Brasil por telefone de Fortaleza.
Agora, o estado se prepara para mais um de seus grandes momentos, o Carnaval com seus frevos e o maracatu. Em 2025, a sarau atraiu mais de 2,3 milhões de turistas para Pernambuco, mormente em Recife e Olinda, de entendimento com dados do Ministério do Turismo.
É um período importante para a economia lugar —que, aliás, é uma das maiores do Nordeste, com Resultado Interno Bruto (PIB) detrás unicamente da Bahia, segundo dados publicados recentemente pelo IBGE, referentes a 2023. No Brasil, foi o estado com 11º maior PIB naquele ano.
No terceiro trimestre de 2025, o PIB de Pernambuco cresceu 2% na verificação com o mesmo período de 2024 —supra da média vernáculo (1,8%), de entendimento com dados preliminares do Instituto de Gestão Pública de Pernambuco (IGPE).
O prolongamento no trimestre foi puxado principalmente pela indústria, com destaque para a indústria da transformação (que altera uma matéria-prima até torná-la um muito intermediário ou final) —no Estado representada pela refinaria Abreu e Lima (Rnest) e pela produção de automóveis e bebidas, entre outros itens.
Mas o estado segue lutando contra antigas mazelas porquê o superior desemprego —no primeiro e segundo trimestre desse ano, teve a maior taxa de desocupação do Brasil, de entendimento com os dados mais atualizados divulgados pelo IBGE.
Foi também o quarto estado brasiliano com a maior taxa de mortes violentas intencionais (36,2 por 100 milénio), detrás unicamente de Amapá (45,1 por 100 milénio), Bahia (40,6 por 100 milénio) e Ceará (37,5 por 100 milénio), segundo o Anuário Brasílico de Segurança Pública 2025 (com dados referentes a 2024).
Novas versões pernambucanas
No início de dezembro, a multicampeã do skate Rayssa Leal revelou que estava ouvindo “Arriadim por Tu”, de João Gomes, ao vencer pela quarta vez consecutiva a competição Street League Skateboarding (SLS) Super Crown.
Na antevéspera de Natal, foi a vez de Roberto Carlos declarar sua surpresa pelo cantor, um dos convidados de seu peculiar na TV Orbe.
Um dia antes de dividir o palco com o Rei, João Gomes revelou no programa Roda Viva, da TV Cultura, que não queria fazer de 2025 um “ano pacato”.
“Eu queria estar num ritmo depressa, assim porquê a cidade [Recife] em que eu estava morando”, afirmou o jovem artista.
Para Durval Muniz de Albuquerque, que se diz “particularmente fascinado” pelo fenômeno João Gomes, o cantor deu “novos sentidos” a símbolos do Nordeste.
“Ele [João Gomes] pega o chapéu de pele e transforma-o em um boné todo estilizado. A roupa que ele estava usando no Grammy, toda feita de renda, era um terno totalmente estilizado, chique, que poderia estar em qualquer passarela do mundo”, analisa o historiador.
Embora sua trama seja ambientada no pretérito, “O Agente Secreto” inova ao retratar a repressão fora do eixo Rio-São Paulo, cenário recorrente de filmes sobre a ditadura militar (1964-1985).
Com meticulosa remontagem de quadra, o longa de Kleber Mendonça Fruto encara a metrópole de forma nostálgica, mas não idealizada. A violência que perpassa a história de Pernambuco e do país está presente desde a primeira sequência de “O Agente Secreto”.
“Muita gente esquece que Recife foi uma das cidades em que a repressão política foi mais intensa no pós-1964”, afirma Albuquerque.
“O Agente Secreto” foi pré-selecionado para as categorias de “melhor filme internacional” e “melhor direção de elenco” do Oscar 2026, cujos concorrentes definitivos serão divulgados em 22 de janeiro.
Aliás, o filme já está concorrendo ao Orbe de Ouro 2026 —é a primeira vez que um filme brasiliano tem três indicações ao prêmio.
Para os conterrâneos de Kleber Mendonça Fruto, a experiência de ver o próprio entorno reconstruído na tela grande invoca um sentimento mais afetivo: o de pertencimento.
“Ser pernambucano está na voga, e acho que a gente está surfando muito essa vaga”, brinca a criadora de teor Amanda Menelau, pernambucana de 39 anos.
Em maio de 2024, um vídeo produzido por Amanda, sobre as peculiaridades do plural no português de Recife, viralizou.
Desde logo, ela produziu dezenas de vídeos explicando, de forma bem-humorada, particularidades da cultura e do vocabulário pernambucano.
Definindo-se porquê “a moça dazaula e durvídio”, Amanda tem mais de 60 milénio seguidores no Instagram.
Para o observador político Túlio Barreto Velho, diretor de Memória, Ensino, Cultura e Arte da Instalação Joaquim Nabuco, sediada em Recife, as redes sociais propiciam a circulação do que é produzido fora do eixo Sudeste-Sul.
“Se a pessoa for sabida e esperta poderá aproveitar esse chegada praticamente intérmino às manifestações artísticas e culturais que as tecnologias e redes sociais hoje permitem”, afirma.
Esse texto foi originalmente publicado cá.
