O Sport Club do Recife, o único time pernambucano na primeira subdivisão do futebol pátrio, vem fazendo uma campanha sofrível no Campeonato Brasiliano, em último na tábua. Tudo muito, por fim lucrar e perder é do jogo. É outra rota, a extracampo, que custa mais dispendioso ao povo pernambucano.
Diferentemente do que o hypado cineasta pernambucano Kleber Mendonça Rebento costuma tutorar em seus filmes e falas, oriente dano não é causado pelos “malvados sudestinos”. O torcedor pernambucano padece da totalidade displicência das autoridades locais mesmo.
Depois de dez anos morando em Recife, resolvi ir à Redondel Pernambuco presenciar a Sport x Flamengo. Tenho vários amigos pernambucanos que nunca foram lá. Sagazes, deixaram o mico pro “gringo” cá. A experiência dificilmente seria pior. Não pelo jogo em si, que até teve seus momentos interessantes, apesar do placar alargado de 5 a 1 para o time carioca. Mas pelo desrespeito totalidade com o torcedor.
A Redondel Pernambuco fica no município de São Lourenço da Mata, às margens do rio Capibaribe, na lema entre os municípios de Recife, Jaboatão dos Guararapes e Camaragibe.
No entorno do estádio não há sequer uma residência ou negócio. As matas densas e a falta de iluminação deixam o envolvente tenso para qualquer brasílico, mesmo os acostumados à violência urbana cotidiana. Quando foi construído para a Despensa do Mundo de 2014, havia planos de se estruturar uma cidade planejada em seu entorno, promessa nunca cumprida pelos governantes. E se criou um gigante ineficaz, que não atende a sociedade pernambucana e é negligenciado pelo Estado, proprietário da obra.
A Redondel Pernambuco está tão isolada que até a internet do celular pega muito mal. Em pleno 2025, um contra-senso completo. Mesmo os fiscais de portão das entradas, que precisavam conferir a biometria de cada torcedor, padeciam da queda de sinal. Dentro do estádio, os telões não funcionaram em nenhum momento, e ficamos à deriva para seguir a goleada. Essa displicência não saiu barato. Meu ingresso custou R$ 120.
Mas o pior aconteceu fora do estádio. Não há qualquer transporte público para os torcedores. Todos têm que ir de coche, o que é a rota para o caos. A Redondel Pernambuco tem capacidade para 44.300 pessoas e 4.700 vagas de estacionamento. Ou seja, a conta não fecha sem transporte público. Vários motoristas paravam os carros no meio da mata, em estacionamentos irregulares.
A polícia lá presente nem tentava organizar o trânsito. Não havia corredores para carros de aplicativo. Não havia ônibus, metrô ou trem no entorno. Cada um que se salvasse porquê podia.
Quem não foi de veículo próprio, porquê eu, porquê fazer para invocar coche de aplicativo num lugar onde a internet não pega recta? Depois a partida, centenas de torcedores padeciam em volta da Redondel. Eu demorei uma hora para conseguir trespassar da temida região.
Do público totalidade de 19.706 torcedores presentes na Redondel, quase 66% eram flamenguistas. O torcedor do Sport pouco compareceu, desiludido com o time e com a diretoria, que vendeu a partida por R$ 3 milhões a uma empresa que levou o jogo da tradicional Ilhota do Retiro para a distante Redondel. A empresa, das quais nome não foi divulgado, acabou tendo prejuízo, pois a renda da partida foi de R$ 2,1 milhões líquidos.
Diante de tamanha incompetência, todos saíram perdendo. Empresas, torcedores, equipes, cidades. Quando ninguém assume a responsabilidade de organizar o fluxo das multidões, tudo vira uma confusão completa. O que espanta no caso pernambucano é que não dá nem pra proferir que houve falta de planejamento. Não houve sequer tentativa de se planejar qualquer coisa.
Talvez seja por isso que a Redondel Pernambuco é subutilizada. Ninguém quer ir lá. A agonia do futebol pernambucano é um emblema do pior legado da Despensa de 2014, com seus “elefantes brancos” e governantes megalômanos em Brasília, nas cidades e Estados.
Passados dez anos da Despensa, seguimos a sina de governos ineficientes e incompetentes de diversas correntes ideológicas, unidos em sabotar o futebol e as cidades brasileiras. Culpar os “sudestinos malvados” dessa vez não vai grudar.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul aquém.
