A guerra contra as mulheres continua 05/03/2026 Djamila

A guerra contra as mulheres continua – 05/03/2026 – Djamila Ribeiro

Celebridades Cultura

Cibelle Monteiro Alves foi assassinada pelo ex-namorado dentro da joalheria em que trabalhava, no Golden Square Shopping, em São Bernardo do Campo (SP). A jovem, de 22 anos, foi esfaqueada no próprio envolvente profissional. Munido de uma arma falsa, o atacante ainda fez reféns no interno da loja. Depois os crimes, veio a público que ela havia registrado três ocorrências contra ele, que havia medida protetiva de urgência em vigor e que ele utilizou transferência via Pix para enviar ameaças.

Quando uma mulher sob medida protetiva é assassinada dentro do próprio lugar de trabalho, a irregularidade sistêmica é evidente. Uma vez que feministas alertam há anos, o feminicídio é resultado de uma engrenagem que envolve o atacante, as ações e omissões do Estado e demais instituições da sociedade social.

Pela iniciativa privada, razão espanto o tímido pronunciamento da Vivara, loja onde o delito ocorreu. Acompanhei a reação institucional e soou uma vez que se a morte de uma trabalhadora fosse lateral na rotina corporativa. Não foram informadas quais medidas preventivas estavam em vigor e quais serão implementadas.

Vale expor que, quando corporações assumem compromissos de proteção e valorização de suas trabalhadoras, sinalizam prioridade, estruturam protocolos e contribuem para ambientes seguros. A postura pode valer a diferença entre vida e morte.

Nesse sentido, a Magazine Luiza tem muito a contribuir ao debate. Em 2017, Denise Alves dos Anjos, uma de suas gerentes, foi assassinada. Teve seus pés e mãos amarrados e, assim uma vez que Cibelle, teve o pescoço retalhado. A diferença é que o delito ocorreu no interno de sua residência —o que torna a confrontação ainda mais grave para a Vivara, já que o feminicídio ocorreu dentro da empresa. Uma vez que resposta, sob liderança de Luiza Trajano, a loja implementou uma política ampla de proteção às mulheres e colheu excelentes resultados para a empresa e para toda a sociedade.

No campo bancário, a pergunta é inevitável: uma vez que transferências financeiras podem ser instrumentalizadas uma vez que meato de ameaço? O recente debate sobre a fiscalização do Pix limitou-se a questões tributárias. Porém, ignorar que a instrumento tem se tornado instrumento de misoginia é um fracasso de diagnóstico.

Não se trata de “caso solitário”. Uma rápida pesquisa na internet revela dezenas de episódios em que o atacante fazia transferências via Pix para ameaçar. As mulheres vêm sendo aviltadas por esse expediente, e urge discutir responsabilidades de natureza difusa, questão que deve ser enfrentada pelo Banco Mediano, Ministério Público, Defensoria e demais instituições competentes.

Por sua vez, o até agora pífio Pacto Vernáculo de Enfrentamento ao Feminicídio, anunciado pelos três Poderes em meio a discursos eleitoreiros, precisa mostrar a que veio. A organização de mutirão pátrio entre órgãos da Justiça e da polícia para visitar todos os investigados, acusados e condenados por violência doméstica é bem-vinda. Averiguar uma vez que estão, se estão ameaçando, importunando. E visitar de novo e de novo.

Fora o investimento em tornozeleiras para monitorar acusados e alertar a vítima sobre aproximações, é preciso provisório para vistoriar medidas protetivas e o sistema prisional. Por isso, estamos há anos defendendo a reorganização das prioridades da segurança pública (guerra às drogas falida versus guerra contra as mulheres em curso, por exemplo). Somente no estado de São Paulo, dados oficiais apontam que uma mulher é assassinada a cada 32 horas, e não vemos o governo estadual e federalista articulados.

A população, que não tem a quem recorrer, espera uma eficiente resposta estatal. Segundo levantamento da TV Mundo, pedidos de medidas protetivas cresceram quase 1.000% em dez anos. Mas, quando o Judiciário concede essas medidas e não assegura sua realização, a vítima acaba mais exposta e é “traída” por quem deveria protegê-la, uma vez que decisões sem monitoramento, na prática, agravam o risco. O atacante pode se sentir desafiado, radicalizar a conduta e agir sob lógica de retaliação, disposto a compelir consigo vidas inteiras.

Consumada a violência, é responsabilidade do Estado reconhecer sua responsabilidade, agravada quando a morte ocorre sob proteção concedida. Se a medida protetiva falhou, a indenização à família é obrigatória e expressiva. No caso, caberá à Justiça determinar, porém, quem sabe a partir dessa lógica, doendo no bolso, as coisas mudariam um pouco para todas nós.

Resta-me solidarizar-me com a família de Cibelle Monteiro Alves e reiterar: a guerra contra as mulheres no Brasil continuará sendo um massacre enquanto o enfrentamento à violência não for tratado uma vez que prioridade absoluta.

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Folha

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