'a médica' reflete sobre ódio que extrapola mundo virtual

‘A Médica’ reflete sobre ódio que extrapola mundo virtual – 25/06/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Protagonizado pela atriz Clara Roble, o espetáculo “A Médica” —uma releitura contemporânea do britânico Robert Icke para “Professor Bernhardi”, uma das peças mais conhecidas de Arthur Schnitzler—, é um passo ousado da parceria entre o Círculo de Atores e a pesquisadora e mecenas Rosalie Rahal Haddad, idealizadora e produtora do projeto.

Na trama, a médica Ruth Wolff, de origem judaica, dirige um hospital especializado em pesquisas sobre o Alzheimer e socorre, na instituição, uma jovem à ourela da morte depois um monstro mal realizado. Wolff impede a ingressão de um padre católico no quarto, alegando que a presença dele causaria impaciência nos momentos finais da jovem, vítima de uma infecção generalizada.

A decisão, com o embate gravado e postado na internet, desencadeia uma vaga de perseguição, ataques violentos e desinformação que desestrutura a vida da profissional.

A encenação entrelaça questões de identidade, etnia e gênero e reflete sobre julgamentos e cancelamentos públicos em tempos de pós-verdade no envolvente virtual.

As primeiras peças montadas por meio da parceria do grupo de artistas com a investidora e estudiosa de teatro foram adaptações mais clássicas —”A Profissão da Sra. Warren” (2018) e “O Dilema do Médico” (2023), de Bernard Shaw, e “Hedda Gabler” (2024), de Henrik Ibsen.

A quarta peça da sociedade, ao contrário, inova ao ponto de apresentar personagens dissonantes em relação ao gênero, raça e idade vistos no palco, uma exigência de Icke que o público percebe ao longo da encenação, de forma surpreendente e sem muitas explicações.

Na apresentação para convidados, no auditório do Masp, onde “A Médica” está em edital, Haddad brincou que entendeu, na prática, porque alguns encenadores dizem que “dramaturgo bom é dramaturgo morto”.

A pesquisadora, que atua na extensão de estudos irlandeses da USP, cita porquê exemplo questionamentos de Icke em relação às idades das atrizes da peça que, segundo ela, não fazem sentido.

Brincadeiras provocantes à secção, o responsável britânico, de 38 anos, é um dos nomes mais celebrados da novidade geração de dramaturgos, com uma trajetória marcada por releituras ousadas, porquê uma versão de “Édipo” protagonizada por Mark Strong e Lesley Manville no West End, em Londres.

Ao contrário do que acontecia em “Professor Bernhardi”, encenada pela primeira vez em Berlim, em 1912, em “A Médica” a protagonista é uma mulher. Além do antissemitismo, ela enfrenta a crueldade de uma sociedade misógina, que questiona o tempo todo o comportamento e as decisões das mulheres, inclusive as bem-sucedidas.

Na história, o compartilhamento da polêmica com o padre nas redes sociais faz com que o ódio à médica escale rapidamente e de forma absurda. O caso chega a um programa sensacionalista na TV e prenúncio o financiamento de uma obra do hospital.

A montagem é dirigida por Nelson Baskerville e tem no elenco nomes porquê Adriana Lessa, Anderson Muller, Chris Couto, Kiko Marques e Sergio Mastropasqua, o fundador do Círculo de Atores.

Com cenário de Marisa Bentivegna, figurinos de Marichilene Artisevskis e iluminação de Wagner Freire, a encenação incorpora a técnica de videomapping e conta com trilha sonora original, de Gregory Slivar, executada ao vivo.

“A Médica” estreou na Inglaterra e já foi encenada em países porquê Alemanha, China, Estados Unidos, Grécia, Holanda, Índia e Peru. “Ela mantém a espinha dorsal do responsável original, porém, adiciona elementos mais atuais”, diz Baskerville.

A peça começa com a abordagem do monstro porquê uma questão polêmica, mas muda à medida que é contada e aí entram elementos do comportamento social contemporâneo.

“Vira uma outra história. Em cinco dias, vira um escândalo”, afirma a atriz protagonista. A médica, antes respeitada, passa a ser demonizada. Qualquer semelhança com personagens do mundo atual não é mera coincidência.

“Ela é muito agredida. E também não é uma heroína, é muito incoerente, também tem preconceito, é arrogante. É uma mulher repugnante”, diz Clara Roble.

Integrante do Grupo Tapa e também diretora e tradutora, a atriz tem uma trajetória de mergulho profundo em dramaturgias clássicas e destaca o fascínio provocado por histórias muito contadas.

“É o que salva a gente”, diz. “É transformador. Entramos no teatro de um jeito e saímos de outro. O ser humano precisa disso. O real é muito inconsequente, muito referto de abismos, absurdos, solidão. Se não fossem as histórias, o que seria de nós?”

Folha

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