Antes de produzir festivais de música popular brasileira nos anos 1960, o paulistano Solano Ribeiro, 86, aprendeu a interpretar vários papéis no teatro, cursando a Escola de Arte Dramática de São Paulo (EAD).
Fruto único da poeta da Geração de 45, Idelma Ribeiro de Faria (1914-2002), Solano foi ator da companhia Teatro Cacilda Becker (TCB), onde, na sala Vermelha do Teatro Natal, na avenida São João, em São Paulo, participou de “Morte e Vida Severina”. Na sala Azul, do mesmo teatro, atuou em “Tem Bububu no Bobobó”.
Trocou a companhia Teatro Cacilda Becker pelo Teatro de Redondel e integrou os elencos de “Revolução na América do Sul”, de Augusto Boal (1931-2009); “Eles não usam Black Tie”, de Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006); e “O Testamento do Cangaceiro”, de Chico de Assis (1933-2015).
A invitação de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, Solano Ribeiro foi trabalhar na extinta TV Excelsior, na capital paulista, realizando, depois vários especiais de música, o primeiro Festival Pátrio da Música Popular Brasileira, em 1965, que deu origem à {sigla} MPB. O evento registra o lançamento de Elis Regina (1945-1982) cantando “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes (1913-1980).
Saiu da TV Excelsior para trabalhar na TV Record, onde realizou o segundo Festival da MPB, em 1966, no qual dividiram a primeira colocação as músicas “A Margem”, de Chico Buarque, e “Disparada”, de Geraldo Vandré e Théo de Barros.
No terceiro festival, foi Solano Ribeiro quem incentivou a inserção de guitarras elétricas na música popular, o que era uma heresia na quadra. Venceu a formação de Edu Lobo e Capinan, “Ponteio”. Foi leste festival que deu origem ao documentário “Uma noite em 67”, dirigido por Renato Terreno e Ricardo Calil, de 2010.
Ainda na TV Record, Solano Ribeiro produziu e dirigiu a Primeira Bienal do Samba, vencida por Elis Regina com “Lapinha”, de Baden Powel (1937-2000) e Paulo César Pinho.
Solano Ribeiro foi também sócio-fundador da Rádio Antena 1, em São Paulo, e quando contratado da extinta TV Tupi, em 1976, realizou o Festival Tupi, no qual o cantor e compositor cearense Fagner abocanhou o primeiro prêmio com a música “Quem me levará sou eu”, de Dominguinhos (1941-2013). Logo depois do festival, Ribeiro tornou-se diretor de produção e programação da emissora.
No exterior, ao deixar o Brasil por conta da ditadura militar, Ribeiro esteve na Alemanha e atuou na emissora Südwestfunk, dirigindo vários documentários, entre eles obras sobre o compositor Gilberto Gil, o teatro de Ruth Escobar e sobre o Novos Baianos F.C.
Novamente a invitação de Boni, Ribeiro retornou ao Brasil, em 1972, para realizar o sétimo Festival Internacional da Música, na TV Mundo, e o Festival da Música Brasileira da TV Mundo, em 2000.
Na TV Cultura, em 2005, realizou o Festival Cultura – A novidade Música do Brasil, depois de grafar o livro “Prepare o Seu Coração – A História dos Grandes Festivais” (2002).
Atualmente Ribeiro produz e dirige para a Rádio Cultura Brasil o programa “Solano Ribeiro e a Novidade Música do Brasil”.
Leia, a seguir, a entrevista exclusiva que Solano Ribeiro concedeu ao blog Música em Letras, na qual afirma: “A MPB está morrendo”.
De quais festivais de música você participou?
Fui produtor e diretor em todos os festivais veiculados pela TV, menos os seis primeiros Festivais Internacionais da Música da TV Mundo, realizados por Augusto Marzagão. Realizei o sétimo e último desses festivais, revelando Maria Alcina, Raul Seixas, Fagner, Belchior e Ednardo, entre outros
Quais desses festivais você considera um sucesso e porquê?
Quase todos os festivais da TV Record. O primeiro, pelo lançamento de Elis Regina e o emergência da {sigla} MPB. O segundo [festival] pelo empate das músicas “Margem” com “Disparada”, cuja final parou a cidade e secção do país. O terceiro festival, pela ingresso das guitarras na MPB e as revelações de Caetano Veloso, Gilberto Gil, dos Mutantes e de Rita Lee.
Quais desses festivais você considera um fracasso e porquê?
O Festival Cultura – A Novidade Música do Brasil, em 2005. Por erro na escolha dos jurados que deram vitória para uma música da vanguarda paulistana, “Contabilidade” [de Danilo Moraes e Ricardo Teperman], em detrimento de “Achou”, de Dante Ozzetti e Luiz Tatit, favorita do público, mas que não teve muita repercussão. Oriente foi o último festival que realizei lá.
Há tapume de 60 anos, através de artistas e compositores uma vez que Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Edu Lobo destacando-se nos festivais de música da quadra, surgiu a Música Popular Brasileira (MPB). Porquê você descreve a trajetória dessa jovem senhora que nasceu na ditadura militar do Brasil antes de consolidar-se uma vez que um movimento músico com poderoso caráter político e cultural?
Começou com um banquinho e um violão, com a bossa novidade, e foi crescendo através do teatro e posteriormente na televisão. A grande visibilidade que [a música] teve atraiu a atenção dos militares, forçando a extrema originalidade dos artistas para driblar a portanto poderosa repreensão. Talvez ela tenha sido uma espécie de válvula de escape diante da repreensão, perseguição e vexação frente a situação.
Entre outros elementos que caracterizavam a MPB há a pluralidade de influências e ritmos uma vez que a bossa novidade, o samba, o folclore e o rock. Quais são os elementos que posteriormente foram agregados à MPB e o que eles trouxeram ao gênero?
A MPB está morrendo, além do trajo de que, hoje, qualquer um que cante em português é rotulado, classificado, uma vez que pertencente à MPB, na qual foi agregada a tecnologia.
Qual a grande mudança que houve na MPB, além da inserção de outros gêneros musicais?
Houve várias mudanças. A ingresso dos festivais na TV, a invenção de Elis [Regina]. A ingresso da música sertaneja, a ingresso das guitarras, da temática urbana e finalmente a tecnologia.
Há na atual MPB artistas, compositores, cantores, instrumentistas com a mesma relevância daqueles dos anos 1960? Quais são eles?
Existem pelo Brasil centenas de novos músicos, cantores e compositores, mas eles não têm a exposição necessária uma vez que no tempo dos festivais que tiveram Elis, Caetano, Gil, Chico, Bethânia e tantos outros. Mas posso primar Chico Science e a País Zumbi, as cantoras Tulipa Ruiz, Tiê, Firmamento, o grupo BaianaSystem e Lenine.
Festivais de música popular ainda são possíveis de roubar um país? Porquê?
Pela televisão somente, não. Mudou a forma de fazer e publicar música com a ingresso da internet e o emergência de novas tecnologias. Hoje alguém com conhecimento músico e um laptop pode fazer sua música e divulgá-la, sem transpor do seu quarto. Além das novas mídias que provocaram o emergência do expectador solitário.
Por que os festivais estão rareando e não têm a mesma relevância dos festivais dos anos 1960?
Mudou a mídia. A própria TV perdeu relevância. Hoje precisamos trabalhar muito a internet e os novos meios de divulgação, uma vez que o streaming.
Que tipo de festival você produziria para que a MPB voltasse a ser apreciada e divulgada uma vez que era feito na ocasião dos festivais da TV Record?
A MPB sempre enfrentou a concorrência da música americana que, através da política do Departamento de Estado dos Estados Unidos e de grandes eventos uma vez que Rock in Rio e Lolapalooza, fazem com que centenas de milhares de brasileiros cantem em inglês. Um novo festival teria que buscar esses novos meios de divulgação, e os produtores de espetáculos precisam valorizar mais o posicionamento do artista vernáculo, pois há maior concorrência vinda de fora.
A tecnologia sempre ocasionou mudanças significativas para o mundo, uma vez que a invenção da prensa de Gutemberg, no século 15. Porquê um festival de MPB pode ser inserido no universo das redes sociais?
Aliando divulgação em TV ocasião e fechada com os novos formatos digitais.
Porquê está sua saúde e o que o impede de realizar um festival de MPB, na atualidade?
Estou tão velho quanto a MPB, e a saúde, boa, mas um pouco partida pelo tempo. Ainda assim fiz o Projeto 60, no qual está incluso um festival da Novidade Música do Brasil, de quem título é inspirado no primeiro festival que realizei para a TV Cultura e no programa que faço para a Rádio Cultura Brasil: “Solano Ribeiro e a Novidade Música Do Brasil”, além de um [espetáculo] músico, uma exposição imersiva, um documentário músico, um livro e também um disco.
A grande audiência para as emissoras de TV, aliada ao aumento da venda de discos pela gravadoras, garantiam o sucesso dos festivais de música, assim uma vez que o orçamento talhado a leste tipo de evento. Qual garantia pode ser dada atualmente, para um veículo ou marca, de que um festival de MPB será um sucesso?
Será preciso encontrar formato que sirva para as novas formas de exibição e exportação. O resultado de mais reles dispêndio para sua produção, inclusive para exportação, é a música popular. Porém a APEX [Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, que promove a presença brasileira na economia global], que usa em sua propaganda músicas de Caetano Veloso e Assis Valente, ignora a música popular uma vez que resultado de exportação. Há alguns anos a música popular na Inglaterra rendeu mais divisas do que a indústria automobilística. Muitos dos cantores, músicos e compositores brasileiros preferem lançar os seus trabalhos no Japão.
Porquê você está comemorando os 60 anos da MPB, ou uma vez que pretende comemorar?
Conseguindo patrocínio para o Projeto 60 que, ao ser realizado, além de mostrar o pretérito às novas gerações vai possibilitar o emergência de centenas de músicos, cantores e compositores que não encontram espaço na mídia.
