A música nunca mudou a história de um país, diz

A música nunca mudou a história de um país, diz Toquinho – 07/09/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Cantor, compositor, arranjador e, em primeiro lugar, violonista. O paulistano Antonio Pecci Rebento é tudo isso e ninguém o conhece. Famoso mesmo é o Toquinho, sobrenome de puerícia que está espetado na MPB, graças a uma curso que completa agora 60 anos. Uma efeméride que motiva uma grande turnê pelo país, que se inicia em outubro.

Aos 79 anos, o artista quer olhar para a frente, uma vez que gosta de repetir. Mas certamente precisou se debruçar sobre as dezenas de discos que gravou, muitos deles fora do Brasil, para montar o repertório do show batizado de “Só Tenho Tempo Pra Ser Feliz: 60 Anos de Música”.

Quando ele se refere à turnê uma vez que uma celebração da MPB, a asserção não soa pretensiosa. Sua curso é marcada por grandes parcerias, notadamente a convívio durante toda a dez de 1970 com Vinicius de Moraes (1913-1980).

A trilha sonora para a romance “O Muito-Estremecido”, em 1973, permanece uma vez que um marco da dupla. Além de seus discos que trazem parcerias com Chico Buarque, Tom Jobim, Jorge Ben Jor, Francis Hime, Belchior, Paulo César Pinho, entre outros bambas, Toquinho se transformou a partir dos anos 1980 no grande nome da música brasileira feita para crianças.

Seu maior hit nessas seis décadas vem desse filão: “Aquarela”, cantiga que atravessa o tempo, passada de pais para filhos. “Aquarela” certamente será um momento de catarse na turnê, que começa no dia 4 de outubro, em Porto Contente. Na dezena de shows já confirmados, com mais datas a caminho, a apresentação em São Paulo será no dia 17 de outubro, no Espaço Unimed.

A proposta é uma submersão no universo afetivo e músico do artista, num show dividido em blocos temáticos. Terá convidados para duetos e a presença permanente da cantora Camilla Faustino, mulher de Toquinho, que o acompanha nos palcos.

Ele acaba de passar por Itália, Espanha e Argentina, em mais de 30 shows. Além da novidade turnê, que em 2026 vai se estender para fora do Brasil, Toquinho grava agora um novo álbum de músicas instrumentais ao violão. Sua relação com o instrumento é um dos temas da entrevista a seguir, na qual ele fala também do cenário político, da amizade com Vinícius e do privilégio de ter um grande público infantil.

Você começou sua curso numa estação de efervescência cultural no Brasil, mas debaixo da ditadura militar. E, hoje, na outra ponta da sua trajetória, também há um cenário político atribulado. Você consegue confrontar os dois períodos? Acha que a música ainda tem o poder de transformação daquela estação, com passeatas, canções de protesto?

A música nunca mudou a história de um país, a história de zero. É uma ilusão descobrir que pode mudar. Mesmo as coisas panfletárias dos anos 1960. É uma pretensão descobrir que isso pode mudar alguma coisa.

Mas a música tinha um papel de resistência, não?

Nas décadas de 1960 e 1970, os autores tinham voz contundente em relação ao que se passava. Para narrar a história, não para mudá-la. Mas nós não viemos da ditadura, nós viemos de um outro Brasil. Minha geração veio do Juscelino, do Glauber Rocha, do Oscar Niemeyer, do Vinicius, do Tom Jobim.

Nós pegamos pela frente uma ditadura, mas tínhamos a tradição de um estadista no poder, sabíamos o que era isso, dissemelhante da geração de hoje. Era um país em que o presidente chamou Tom Jobim e Vinicius Moraes para que fizessem a “Sinfonia de Brasília”. Isso era o Brasil. Não era o Brasil cafona que tem hoje, com informações boas e ruins de todos os lados, uma pulverização impressionante na internet.

Portanto você reconhece uma cena melhor no pretérito.

Sim! Nós tivemos uma arte importante na estação, não só na música, também no cinema, nas artes plásticas. O próprio Oscar Niemeyer com sua arquitetura. Acho que agora não tem muito espaço para isso. Meu Deus do firmamento! Sabe quantas músicas são lançadas por dia no mercado, na internet? São milhares de canções! Nisso vem incluídas coisas horríveis, coisas bonitas, outras mais ou menos, mas muita coisa terrível de se ouvir. Tem um lado confortável da internet, mas tem todo um lado nocivo.

Olha, acabaram com o romantismo de uma gravadora, uma vez que um lugar que trabalhava pela qualidade da música. Hoje, com o streaming, a coisa ficou muito mais fria. Você lança uma cantiga e ela se perde no meio das informações, entre coisas bonitas e coisas vulgares, terríveis, mentirosas, essa Perceptibilidade Sintético. Eu não acho que possa subsistir hoje uma força músico, concentrada em movimentos artísticos, uma vez que já existiu antes. Isso acabou.

É difícil conversar com você e não falar da parceria com Vinicius de Moraes. Vocês tinham uma diferença de idade grande, creio que isso faz as pessoas pensarem numa amizade com qualquer caráter paternal, não?

Quando você fala sobre uma coisa paternal, eu não sei se você se refere ao comportamento paternal dele ou ao meu comportamento paternal em relação ao Vinícius. [risos] O Vinicius tinha mais do que o duplo da minha idade. Quando comecei a trabalhar com ele, eu tinha 22, 23 anos. Tinha chegado da Itália, onde eu morei com Chico Buarque, num exílio que teve consequências para todos nós. Eu voltei e o Vinícius me chamou para trabalhar com ele.

Sinceramente, eu tinha uma relação com ele de companheiro, de igual para igual, mas mantendo todo o reverência. Eu era um moleque começando a curso, e ele era o grande Vinicius de Moraes. Era o Vinicius da trova, das parcerias com Tom Jobim, Baden Powell, Carlinhos Lyra, com Ary Barroso e Pixinguinha! Eu estava me juntando a esse monstro músico. O Vinicius era uma pessoa muito vaidosa, num bom sentido. Ele gostava dessa coisa de ser Vinicius. E eu sempre o deixei ser Vinicius.

Foi uma parceria longa. Vocês se entenderam rapidamente?

Fizemos mais de 140 canções, mais de milénio espetáculos juntos. Ele praticamente tinha pendurado as chuteiras quando começamos a trabalhar, sua curso diplomática tinha sido interrompida pela ditadura. Ele devia moeda para o Tom Jobim, era um recomeço de vida difícil. Nossa parceria era um prelúdios para mim e um recomeço para ele. Foi uma coisa muito intensa, nós vivíamos junto todas as horas, e as músicas jorrando, uma detrás da outra. Eu tinha totalidade disponibilidade de permanecer ao lado dele com o violão. Acho que a parceria deu manifesto porque cada um podia oferecer o que o outro precisava naquele momento. Ele me deu um know-how de vida, todas as experiências de poeta, letrista, músico.

Você fala de um Vinicius músico, alguma coisa que não é muito comentado.

Ele só sabia quatro acordes, mas tinha uma musicalidade enorme dentro dele. Eu dei a ele aquilo que era difícil encontrar, essa disponibilidade, uma juventude que ele já não tinha. Ele buscava um vigor em mim. É evidente que eu sinto falta do Vinicius hoje. Gostaria muito de saber a opinião dele sobre esse Brasil, essa confusão toda, essa globalização maluca. Era uma mente com muita perspicácia. Sinto falta dele.

Além de Vinicius, você teve parcerias notáveis durante toda a curso. É fácil mourejar com você? Tem esse espírito gregário?

É muito fácil mourejar comigo. O meu violão me permite tocar qualquer gênero músico. Sempre estudei música e estudo violão todos os dias até hoje. Fiz música com Belchior, com Jorge Ben Jor. Trabalhei com Gianfrancesco Guarnieri, três peças com ele. Chico Buarque, Carlinhos Vergueiro, Francis Hime. Esses caras são muito diferentes, mas eu tenho uma adequação muito grande, que me abriu muitos caminhos, derrubando qualquer preconceito. Porquê fabricar música com Jorge Ben Jor.

Em 1968, fizemos “Que Maravilha”. Poxa, e eu ali ladeado pela bossa novidade. A bossa novidade, você sabe, é um gênero que carregava um manifesto preconceito. Sabe aquela coisa que tudo deveria ser complicado para ser bom? E vem o Baden Powell, com um tsunami de simplicidade no violão. Vem o Ben Jor, com aquela África toda dentro dele. Isso tudo era lindo e, a princípio, estava fora do meu contexto “bossanovístico”.

Outros violonistas reconhecem em você uma assinatura própria, uma maneira muito pessoal de tocar. Você disse que estuda violão todos os dias. Às vezes você não precisa se alongar um pouco, tirar umas férias do violão?

Férias do violão? De maneira nenhuma! Uma vez, eu e minha ex-mulher fomos para Natal, numa praia isolada. E ela falou: “Puxa! Não precisa levar o violão, a gente vai permanecer só na praia, sem fazer zero”. E aí eu fiz a maior besteira da minha vida! Depois de dois dias na praia, eu saí percorrendo aquelas casas de pescadores procurando um violão. Consegui encontrar um pescador que tinha um violãozinho, paguei um aluguel e levei para o hotel. Nunca mais viajei sem o violão. É uma coisa cotidiana.

Estou gravando um disco só de violão, com músicas autorais. O disco se labareda “Quintal do Brasil”. São 13 músicas instrumentais. E faço muito mais coisa. Além de preparar o show, estou com uma série de canções novas. Eu vivo música o tempo inteiro, toco violão todos os dias, religiosamente. Eu concórdia, e a primeira coisa que faço é pegar meu violão. É nessa hora matutina que chegam mais canções à cabeça. Às vezes esqueço de tomar moca.

A novidade turnê deve contemplar seu papel evidenciado na música para crianças. São muitos sucessos, que no palco você toca junto com as canções para adultos, não?

A Faber Castell fez uma campanha de publicidade por mais de 30 anos, aquela coisa do lápis e tal, isso ajudou, mas “Aquarela” tem uma força que eu nunca vi em cantiga nenhuma. Não conheço outra que tenha essa abrangência do adulto e da moço. Virou um clássico da música infantil e não foi feita para moço. É até uma música fatalista, triste, que fala que tudo vai descolorir, vai morrer. As crianças conseguem ver a música de uma forma lúdica.

Talvez eu seja o único compositor brasiliano que tem esse repertório infantil muito consolidado. São quatro trabalhos muito fortes, todos com peculiar de televisão. Até hoje as músicas são cantadas nas festas de termo do ano letivo. Eu vejo pessoas que têm hoje 40, 45 anos, que nasceram na dez de 1980 e foram criadas com essas canções. “Lar de Brinquedo”, “O Caderno”, “Aquarela”, tudo isso hoje está inserido na cultura infantil brasileira.

Seu ritmo de trabalho segue intenso, não?

Eu vou na direção do horizonte. No ano que vem eu faço 80 anos. Acabei agora três turnês, na Itália, na Espanha e na Argentina. Cada turnê teve uns 12 shows. Eu palato dessa atividade toda, o palco me faz muito. Isso não me desgasta, me cuido muito fisicamente. Eu preciso disso.

E você viaja com a sua mulher fazendo secção do show.

Sim. Nosso relacionamento músico veio antes. Eu comecei a namorar a Camila depois de uns três ou quatro anos trabalhando juntos, sem relação amorosa nenhuma. Eu toquei praticamente com todas as grandes cantoras brasileiras. Desde Elis Regina até Ivete Sangalo. Em termos de musicalidade, não vejo nenhuma uma vez que a Camila. Ela canta de tudo. Desde o sertanejo, porque Camila é de Goiânia, até músicas muito mais sofisticadas. Fora do Brasil, quando ela canta em italiano é fantástico. Em Barcelona, ela canta em catalão e as pessoas pensam que ela sabe falar a língua.

Nesse balanço feito para turnê, você enxerga discos ou períodos que não te satisfazem?

Eu não posso desvincular minha obra da minha vida, das circunstâncias em que meus discos foram feitos. E são mais de 500 canções, uns 5.000 shows, talvez 6.000. E continua aumentando. Eu faria tudo de novo, em cada estação eu fiz o melhor que pude, com intensidade, uma música em cima da outra. Eu fico muito confortável diante de tudo o que fiz, e vejo minha curso uma vez que alguma coisa continuado, sem rupturas. Eu olho para o horizonte. Para mim, a turnê é mais um projeto. Não tenho intenção de fechar um ciclo, essas coisas. Tem muito mais pela frente.

Folha

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