A necessidade da catimba e da malandragem no futebol

A necessidade da catimba e da malandragem no futebol – 17/02/2026 – O Mundo É uma Bola

Esporte

Eu vilanizei Andreas Pereira uma vez. Foi na final na Libertadores de 2021, quando o logo meia flamenguista perdeu uma esfera na resguardo que resultou no gol de Deyverson, o da vitória do Palmeiras. O título da poste era “Andreas perdeu o passo, a esfera, o jogo e o título”.

Andreas, para o Flamengo, fez papel de vilão futebolístico. E minha mira nele enfocou a infelicidade do escorregão que botou tudo a perder para os rubro-negros.

O tempo passa, o mundo dá voltas, e um outro escorregão apareceu na vida de Andreas, que, ironia do rumo, agora veste a camisa alviverde do Palmeiras.

O escorregão desta vez, ocorrido em recente partida do Campeonato Paulista contra o Corinthians, num clássico de uma das maiores rivalidades entre clubes e torcidas no Brasil, não foi dele, mas do craque holandês Memphis Depay.

Ao cobrar um pênalti, ele patinou, caiu e seu chuto na esfera, imperfeito, saiu pela traço de fundo. Um lance patético. Final no Itaquerão: Corinthians 0 x 1 Palmeiras.

E o que Andreas tem a ver com isso? Mal o pênalti foi oferecido, ele se posicionou sobre a marca do pênalti e esfregou a chuteira nela e em volta dela, por poucos segundos. Ninguém da arbitragem viu, a partida seguiu, e Memphis, depois que errou, reclamou de uma verosímil irregularidade no gramado, supostamente causada por Andreas, que teria ocasionado sua derrapada.

Os corintianos em volume, e jornalistas em boa segmento, “desceram a lenha” no camisa 8 do Palmeiras. Marcelo Bechler, colega colunista desta Folha, chamou de trapaça.

Discordo. O que Andreas fez chama-se catimba, alguma coisa tão generalidade e idoso no futebol uma vez que a esfera do jogo ser esférica, a grama ser virente e o perito ser assoprador de silvo. É elemento integrante do esporte e uma artimanha que o torna peculiar, atrativo, vívido. É imprescindível.

Em um duelo tenso, uma vez que um clássico costuma ser, os artifícios para buscar desestabilizar os adversários são válidos. Partidas se ganham também no emocional, no psicológico, não só na tática, na técnica ou no físico.

Deixem o futebol ser futebol, ter uma ração de tensão, de provocação. Já não basta o chatíssimo e modorrento VAR (perito de vídeo) atravancar sem parar, querem tornar o futebol um jogo de cavalheiros, um críquete, um evento aristocrático.

Vale uma canseira verbal, desde que não seja racista, xenófoba, homofóbica ou outra que se enquadre em transgressão. Vale, por mais deselegante que seja e sujeito a levar cartão, esputar na redonda antes de um pênalti ser cobrado pelo rival; chutar a bandeirinha de escanteio no campo justador ao comemorar um gol; fazer rodinha no perito, pressioná-lo; conduzir a esfera com a cabeça, uma vez que fazia Kerlon, o “foquinha” do Cruzeiro, 20 anos detrás.

Não gosta de zero disso? Recomendo ver tênis ou, indo além, xadrez.

É uma malandrice o que Andreas fez? É. Se a arbitragem tivesse visto (nem o VAR viu, ou teria, fugindo à sua função, alertado), seria passível de cartão amarelo. Conduta antidesportiva –assim a regra enquadra– é assim advertida. Se já tiver amarelo, vermelho: pro “chuveiro”.

Independentemente do time para o qual você torce, pode perfeitamente não gostar de uma atitude antidesportiva. Porém trapaça não é. É catimba, é malandrice. Que não são proibidas. E que historicamente fazem segmento da simbologia e da cultura do futebol.

Lembra a provocação de Memphis na final do Paulista do ano pretérito, quando ele subiu na esfera? Vibrei. Foi um deboche, uma humilhação simbólica por dois segundos. Só o futebol oferece esses deleites, enquadrados na tal atitude antidesportiva. Palmeirenses desgostaram, faz segmento. Aquele empurra-empurra, segue o jogo.

Subir na esfera, Memphis achou OK. O escorregão, não. Que ele mesmo poderia ter evitado.

Antes de sovar o pênalti, o jogador vai à marca da cal para arrumar a esfera. O camisa 10 foi. Não se direcionou ao perito para indicar buraco, desnível, o que fosse, no campo. Aí erra e vira um dramalhão. Se tivesse sido gol, ninguém estaria comentando a raspada de pé de Andreas.

Vilanizar Andreas é evidente excesso. Sejamos razoáveis para permitir ao futebol, fastidioso com frequência, ter um tico de perdão.

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Folha

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