Nos últimos anos, tem desenvolvido a preocupação com o sofrimento psíquico de crianças e adolescentes no Brasil. Levantamentos recentes do Núcleo de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) mostram que, entre 2011 e 2022, os índices de suicídio entre jovens tiveram subida média de 6% ao ano. No mesmo período, notificações de autolesões na filete dos 10 aos 24 anos também aumentaram de forma significativa, revelando um quadro alarmante de vulnerabilidade emocional.
Outro conjunto de informações provenientes da Rede de Atenção Psicossocial (Raps/SUS) reforça essa tendência. Entre 2013 e 2023, observou-se uma escalada nos diagnósticos de depressão e transtornos de impaciência em faixas etárias cada vez mais precoces. Esse é um problema grave e universal da nossa sociedade.
Neste texto, quero trazer a atenção para jovens privados e privadas de liberdade, grupo com chances reais de serem alcançados por essas estatísticas.
Recolhidos em instituições de todo o Brasil, são jovens meninos e meninas que lidam com a falta de perspectiva de horizonte, a sensação de que a vida foi desperdiçada, o histórico duro social e familiar, enfim, tudo o que contribui para uma baixa autoestima crônica, além do desenvolvimento de doenças psicossociais.
Por isso, mourejar com jovens nessas situações exige sensibilidade judicial. O julgamento e o atendimento de qualidade podem ser decisivos para a vida de uma moçoila que se encontra naquele espaço. Falar isso na rede fast-food que se tornou o Judiciário brasiliano, no qual quatro, cinco, seis audiências, quando não mais, são feitas por dia, pode parecer uma verdadeira abstração.
Todavia, se para os/as agentes do sistema de Justiça um encontro no meio de tantos é só mais uma audiência, um fado está ali sendo traçado. Um evento para a jovem, para o jovem, precedido por semanas de angústia e expectativas. O impacto emocional e psíquico desse encontro com autoridades judiciais não pode ser tratado uma vez que pormenor. É preciso enxergar, escutar e se dispor a ajudar —não exclusivamente um pretenso vigiar e um definitivo punir.
Mourejar muito com pessoas de todas as idades em uma sala de audiência exige estudo e talento. Trabalhar com crianças e adolescentes também, só que com um porém: há uma fragilidade própria da idade. Temos o obrigação, enquanto adultos, de cuidar das próximas gerações, ainda que em um sistema falido uma vez que o nosso, que organiza a situação de uma forma para que ela descompense, dê inexacto, ao automatizar o tratamento, generalizar entendimentos e impedir, sempre quando verosímil, um olhar vigilante, humano.
A socioeducação deve ser entendida a partir da responsabilidade pelos atos cometidos –muitas vezes crimes com violência, tal qual resultado ceifou a vida de uma outra pessoa jovem, destruiu uma família e produziu outras consequências graves, irrecuperáveis. A responsabilidade é uma noção indispensável, que deve vir acompanhada do compromisso de desenvolver aquele sujeito.
De um lado, precisamos reconhecer que jovens, por si só, são inconsequentes. E os que cometem atos infracionais, equiparáveis a crimes, no Brasil não o fazem em uma sociedade utópica. Ver tantos estímulos depreciativos que a juventude vem recebendo, seja na via sem asfalto, na falta de saneamento imprescindível, na negação de pundonor ou ainda no contato imaturo com discursos em telas, músicas e outdoors zero edificantes, acaba por produzir consequências concretas que sobram para a ponta da ergástulo, literalmente.
A pessoa jovem interna vai transpor dali um dia, e uma atuação sensível de equipes multidisciplinares não muda o pretérito, mas melhora o horizonte. São essas equipes que “sobram” com os jovens no dia a dia, tendo a responsabilidade do momento que acordam até a hora em que vão dormir.
No estado do Espírito Santo, onde visitei uma roda de leitura com meninas e adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas, fui inspirada a valorizar essas profissionais. Uma vez que elas, há muitas equipes que estão em todo o país, fazendo o que podem, apesar de toda a pressão, do ordinário salário e, quando não, da deslegitimação pela incompreensão do serviço que prestam à sociedade.
Nesse cenário, deixo cá minha gratidão às agentes, psicólogas, assistentes sociais, diretoras e todas as profissionais que cumprem seu trabalho e seguem em frente na missão tão difícil e tão transcendente de buscar formas de responsabilizar e, ao mesmo tempo, mitigar um ciclo de tragédias, sofrimento psíquico e ausências sociais que atingem a juventude brasileira.
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