A primeira novela sertaneja da TV Globo 23/01/2026

A primeira novela sertaneja da TV Globo – 23/01/2026 – Gustavo Alonso

Celebridades Cultura

Estreou semana passada na Mundo a romance “Coração Veloz”, no horário das 19h. A trama se passa na fictícia cidade de Bom Retorno e conta a história de um parelha de cantores que se conhece na puerícia e passará a romance inteira para se reencontrar. Zero de muito novo no melodrama tradicional.

O que espanta mesmo é constatar que demorou, mas finalmente a Mundo se rendeu à música sertaneja. “Coração Veloz” é a primeira romance do qual tema mediano aborda artistas do gênero.

Essa informação pode parecer surpreendente, visto que o siso geral enxerga Mundo uma vez que uma parceira assídua do mundo agro. Mas não é difícil constatar que a relação entre a emissora do Jardim Botânico e a música sertaneja é repleta de tensões.

Há uma especificidade que é preciso demarcar. Outras novelas já tiveram núcleos ou personagens sertanejos ou caipiras. Foi o caso de “O Rei do Mancheia” (1996), “A Favorita” (2008), “Paraíso” (1982 e 2009), “América” (2005) e “Pantanal” (2022). Mas em nenhuma delas os personagens sertanejos eram centrais na trama. No supremo eram coadjuvantes de núcleos específicos. Era o caso dos personagens de Almir Sater e Sérgio Reis na fictícia dupla Vagalume e Saracura em “Rei do Mancheia”.

Foi também o caso do cantor Daniel, que atuou uma vez que o peão Zé Camilo na segunda versão de “Paraíso”. Em “A Favorita”, Cláudia Raia e Patrícia Pillar eram duas inimigas que haviam sido uma dupla sertaneja no pretérito longínquo, sem implicação direta na trama no qual a história se desenrola.

Em 2022 a Mundo lançou “Rensga Hits!” no Globoplay. Esta foi transmitida na TV em 2025, mas o seu formato é de série, com temporadas de fio narrativo próprio. De “Rensga Hits!”, “Coração Veloz” parece ter roubado várias ideias de roteiro. O foco no tal feminejo, o sertanejo feito por mulheres, e a disputa entre produtores, músicos e empresários são núcleos centrais de intriga dramática tanto de “Rensga Hits” quanto de “Coração veloz”.

Demorou mais de dez anos depois o surgimento do feminejo para a Mundo levar a seu horário sublime uma romance sobre o tema. Isso é espantoso, principalmente se levarmos em conta que vários outros gêneros já foram temas centrais de novelas antes dos sertanejos.

Já houve roteiros de novelas cujos temas centrais foram os artistas do samba (“Notoriedade”, 2003), do rock (“Rock Story”, 2016), tecnobrega (“Cheias de Charme, 2012), axé e lambada (“Verão 90”, 2019) e funk e gospel (improvável mistura de “Vai na Fé”, 2023).

Esse delongado da Mundo em incorporar os sertanejos não é de hoje: é crônico e histórico. Nos anos 1990, a emissora demorou a tocar sertanejo nas trilhas sonoras de novelas. Canções presentes no imaginário coletivo de largos setores populares foram “esquecidas” pela emissora.

Clássicos do repertório de Chitãozinho & Xororó, uma vez que “Meu máscara”, “Foge de mim”, “Nascemos pra trovar”, “Evidências”, “O rio”, “Somos assim”, “Meninos do Brasil”, “Deixa” e “Tudo por paixão”, ficaram de fora das trilhas sonoras de novelas.

De Leandro & Leonardo a Mundo não se importou com o sucesso popular de “Entre tapas e beijos”, “Pense em mim”, “Desculpe mas eu vou chorar”, “Sossego na leito” ou “Sonho por sonho”.

De Zezé Di Camargo & Luciano ficaram de fora “Leito de capim”, “Coração em pedaços”, “Saudade bandida”, “Salva meu coração”, “Você vai ver” e até o mega sucesso “É o paixão”. Isso para permanecer somente nas duplas e canções mais conhecidas.

Tem-se a frequente sensação que a Mundo foi fundamental para o sucesso da música sertaneja. Mas, se analisarmos a relação da emissora e o gênero músico mais popular do Brasil, o que se vê é mais a Mundo pegando carona nos sertanejos do que o oposto.

Historicamente, a Mundo representa o último suspiro da preeminência carioca na cultura brasileira. A urbanidade praiana do Rio de Janeiro sempre foi o bastião da resistência à música sertaneja. Esteticamente a Mundo agora embarca no gênero, mas sempre meio a contragosto, demorando e resistindo o quanto pode.


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Folha

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