A tragédia que lavou a alma de 2025 10/01/2026

A tragédia que lavou a alma de 2025 – 10/01/2026 – Mise-en-scène

Celebridades Cultura

Há uma ironia trágica e, simultaneamente, vital no trajo de o Teatro Oficina Uzyna Uzona ter escolhido o ano de 2025 para encenar o afogamento de uma família. Dois anos depois o desaparecimento físico de José Celso Martinez Corrêa (1937–2023), a companhia viu-se diante de um mar revolto, confrontada pela pergunta que pairava sobre todo o cenário cultural brasílico: uma vez que velejar sem o seu timoneiro histórico? A resposta veio através de um mergulho vertical no abisso.

Sob a direção de Monique Gardenberg, a montagem de “Senhora dos Afogados” se configurou uma vez que um rito de passagem. Foi uma ressuscitação de boca-a-boca na espírito do teatro vernáculo. O luto, transmutado em estética, revelou-se uma força motriz inigualável.

A produção ocupou a estádio do Sesc Pompeia e a histórica pista da Rua Jaceguai. Operou um milagre secular ao resgatar o texto mítico de Nelson Rodrigues de 1947, considerado “inencenável” devido à sua dificuldade moral e cenográfica. O Oficina reafirmou sua vocação para o risco. Sua respiração agora obedece ao ritmo violento e mutável das marés.

A escolha de Gardenberg revelou-se um acerto dramatúrgico fundamental. Ao propor uma hibridez linguística de presença expandida, a cineasta utilizou video mapping e câmeras ao vivo — marcas registradas da companhia — para transmutar a arquitetura cênica em um organização pulsante. Nas paredes, rostos agigantados projetavam microexpressões de horror e libido, promovendo uma fusão entre o rigor cinematográfico e o rito teatral que atualizou, com fôlego renovado, a tragédia rodriguiana.

A mansão da família Drummond tornou-se uma metáfora visual do inconsciente coletivo brasílico. O mar invadiu a sala de estar, corroeu as fundações morais e devolveu os cadáveres que a sociedade insiste em ocultar. A arquitetura cênica de Marília Piraju cobriu o solo com areia, dissolvendo as fronteiras entre a morada burguesa e o cais.

No meio desse turbilhão, a figura de Marcelo Drummond uma vez que o patriarca Misael adquire uma estrato metateatral. Porquê viúvo de Zé Celso e uma das lideranças do grupo, Drummond empresta ao personagem uma austeridade imóvel. Sua firmeza em cena simboliza o esforço coletivo de manter o legado e a coesão do grupo, enquanto navega pelas águas agitadas dessa novidade era.

Lara Tremouroux construiu uma Moema hipnótica. A filha que mata as irmãs deixou de ser uma personagem psicopatológica para encarnar o narcisismo de uma escol que devora seus próprios descendentes. Tornou-se uma Electra tropical em procura de aniquilação.

É imperativo ressaltar a glorificação de Regina Braga, vencedora do Prêmio Bibi Ferreira de Melhor Atriz Coadjuvante. Sua versão da avó Dona Marianinha oscilou magistralmente entre a lucidez cruel e a demência senil. Ela serviu uma vez que o coro heleno da consciência vernáculo: aquela que vê o sinistro se aproximar, avisa aos berros, mas é ignorada pela soberba dos protagonistas.

A direção músico de Felipe Botelho compreendeu que Nelson Rodrigues exige o sublime e o vulgar na mesma medida. A trilha sonora operou por contrastes dialéticos: a sacralidade trágica de “Hymne à l’amour” (na voz de Núbia Lafayette) colidia com a ironia pop da Jovem Guarda em “Você vai ser o meu escândalo”, de Wanderléa. Ao utilizar uma melodia de 1969 sobre amores proibidos para narrar a traição e o transgressão, o Oficina retirou a sisudez solene da tragédia clássica, injetando-lhe o sarcasmo necessário.

Mas a maior inovação dramatúrgica foi a inserção do coro das “putas do cais”. Oriente grupo, ausente no texto original de forma coletiva, foi criado para homenagear a predileção de Zé Celso pelos marginalizados. Elas funcionam uma vez que o “outro” do Brasil, a tamanho que observa a autodestruição da morada grande com um misto de horror e deboche. É através delas que a peça deixa de ser um drama doméstico e se torna uma ágora política.

Com ingressos esgotados e mais de 20 milénio espectadores, “Senhora dos Afogados” estabeleceu-se uma vez que um marco de sobrevivência institucional. Em um Brasil que aposta no esquecimento rápido, o Oficina escolheu lembrar. Lembrou de Nelson, lembrou de Zé. Lembrou que somos todos a família Drummond, vivendo de aparências em uma morada construída sobre areia movediça.


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Folha

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