A$AP Rocky embaralha indie e hip hop em 'Don't Be Dumb'

A$AP Rocky embaralha indie e hip-hop em ‘Don’t Be Dumb’ – 02/02/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

No livro “Such Great Heights”, lançado no ano pretérito, ainda sem tradução em português, o jornalista Chris DeVille conta a história do “indie” –que surgiu uma vez que indie rock, no final dos anos 1980, mas passou a valer qualquer tipo de som que caísse no sabor de um público específico.

Foi o que aconteceu com o hip-hop na dezena de 2010, quando ídolos que faziam uma ponte entre o mundo do rap tradicional e gêneros alternativos passaram a aprazer adolescentes que antes só davam ouvidos a guitarras, blogueiros que formavam opiniões na internet e jornalistas de veículos uma vez que Pitchfork e Stereogum. Foi mal rappers uma vez que Tyler, the Creator e M.I.A. se tornaram ícones indies –tanto quanto bandas alternativas uma vez que Pavement e Wilco foram décadas antes.

Nessa mesma toada surgiu de Novidade York o rapper A$AP Rocky. Com seu primeiro lançamento, “Live.Love.A$AP”, de 2011, sua estética psicodélica e vertiginosa foi rapidamente adotada pelos jovens descolados on-line, e Rocky se tornou um dos mais populares rappers de sua geração.

Agora, há duas semanas, ele lançou seu quinto álbum de estúdio, “Don’t Be Dumb”, que reflete a fusão de gêneros e ecletismo que é, hoje, propriedade da música pop.

Se a esposa de Rocky –Rihanna, de quem álbum mais recente, “Anti”, completou dez anos nesta semana– parece ter deixado a música em segundo projecto, o próprio rapper também passou bastante tempo sem novos lançamentos.

Seu disco mais recente era “Testing”, de 2018, que não foi muito muito recebido por público e sátira. No ano em que o hip-hop, pela primeira vez, passou o country uma vez que gênero mais ouvido nos Estados Unidos, a competição de Rocky foi grande e o rapper acabou sendo ofuscado por lançamentos mais falados, uma vez que “Astroworld” de Travis Scott e o punhado de álbuns que Kanye West produziu naquele ano, para si próprio e para Pusha T e Nas.

O primeiro sinal de uma volta definitiva, depois diversos singles soltos, foi “Punk Rocky”, lançada na primeira semana do ano. É o tipo de tira que soaria totalmente fora do lugar se tivesse sido lançada por um rapper há 15, 20 anos. Mas Rocky tira vantagem de estar em 2026 e, com uma tira que poderia ter sido composta pelos ícones do rock lo-fi Ariel Pink ou Mac DeMarco, marcou o início de sua novidade era.

Quem acreditou que “Don’t Be Dumb” seria constituído somente de baladas indie, porém, se enganou. Apesar de ser de Novidade York, a maior influência de Rocky sempre foi o rap do sul dos Estados Unidos, em privativo o trabalho do rapper e produtor Juicy J. Essa surpresa aparece logo na primeira tira, “Order of Protection”, e no segundo single do álbum, “Helicopter”.

Rocky também deixa simples que esteve por dentro das tendências que rolaram no hip-hop americano durante seu hiato, evocando o rap ofensivo e rápido de Playboi Carti e Yeat ao longo do disco, além de convocar novos nomes para complementá-lo —a Doechii, em privativo, faz uma participação teatral e preciosa em “Robbery”. A abordagem mais direta é bem-vinda para o rapper, que talvez tenha ficado um pouco dormente demais em suas inclinações psicodélicas em álbuns uma vez que “At.Long.Last.A$AP”, de 2015.

Quanto mais Rocky se arrisca, mais interessante a tracklist fica. “Don’t Be Dumb” tem pouco mais de uma hora, mas é difícil permanecer entediado. Em “STFU”, ele rima por cima de uma batida que poderia ter sido feita pela dupla francesa eletrônica Justice; em “The End”, ele divide os vocais com Will.I.Am, do Black Eyed Peas, e permite que a compositora Jessica Pratt termine a tira com sua voz e violão suaves.

Há quem soe fora do lugar com tanta variação estilística. Até no reggaeton Rocky se arrisca, na tira bônus “Flackito Jodye”, em parceria com a espanhola Tokischa. Mas a voz carismática e as rimas diretas do rapper fazem com que o álbum soe coeso, e a seleção de produtores –que vão de Hit-Boy a Thundercat, passando pelo próprio Rocky– garante que você não ouça uma única batida mais ou menos.

O embaralhamento entre o pop, o hip-hop, o rock e o mundo mútuo parece ter ficado mais acentuado nos últimos anos –é difícil imaginar álbuns uma vez que “Let’s Start Here”, de 2023, a façanha psicodélica do trapper Lil Yachty, ou “Stardust”, de 2025, disco de Danny Brown inspirado pelo pop maximalista, existindo décadas detrás. “Don’t Be Dumb” acaba de se juntar a essa lista uma vez que um disco de sua quadra, que faz o melhor uso verosímil de todos os artifícios estéticos a seu alcance.

Folha

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *