Academia da Ópera de paris chega ao país com brasileiros

Academia da Ópera de Paris chega ao país com brasileiros – 25/09/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Na audição de Lorena Pires Adão para a Ateneu da Ópera de Paris, em dezembro, na Ópera da Bastilha, a primeira ária pedida foi “Chi il bel sogno di Doretta”, de Giacomo Puccini. Essa, ela tirou de letra: já cantava há muito tempo. O problema era que ela não sabia qual seria a segunda. As pernas tremiam, diz.

“Eu estava torcendo: ‘Não escolha a Micaela, não escolha a Micaela [personagem de “Carmen”, de Georges Bizet], porque eu estava menos preparada para ela. Aí foram escolher a Micaela, para testar o meu galicismo. Eu fiz, na rosto e na coragem.”

Lorena passou. Hoje, aos 25 anos, a filha e neta de quilombolas está no programa de dois anos de residência da Ateneu da Ópera de Paris, que inicia nesta sexta (26) uma turnê por Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba. Em São Paulo, os jovens se apresentam no Theatro São Pedro, no domingo (28), e no Municipal, em 3 e 4 de outubro.

É uma coincidência simbólica que a soprano tenha sido aprovada com uma ária de “Carmen”, ópera que tem uma relação com a história do quina lírico brasiliano. Em 1965, Maria d’Apparecida, filha de empregada doméstica, entrou no palco da Ópera de Paris para interpretar a personagem-título do clássico de Bizet.

D’Apparecida foi a primeira brasileira negra a integrar o corpo fixo da Ópera parisiense. Lorena pode se tornar, um dia, a segunda. Mas por enquanto diz não ter meta fixa. “Meu objetivo de trajo é me melhorar enquanto artista. As oportunidades que vão vir posteriormente isso, aí eu resolvo quando elas vierem.”

Radicada na França, D’Apparecida morreu em 2017, solitária, aos 91 anos, em seu apartamento na rua Auguste Vacquerie, no elegante 16º província de Paris. Recentemente, vem sendo resgatada do esquecimento. Foi homenageada em julho no espetáculo “Marias do Brasil”, no Teatro do Châtelet, secção da programação da “temporada cruzada” França-Brasil, da qual a atual turnê da Ateneu também faz secção.

Na semana da audição, Lorena decidiu fazer um tour peculiar. Foi até o número 19 da rua Auguste Vacquerie ver a placa comemorativa inaugurada no ano pretérito no prédio onde Maria d’Apparecida morava. A soprano estava acompanhada de um companheiro peculiar —Ramon Theobald, premiado pianista brasiliano que foi residente na Ateneu da Ópera de 2021 a 2023.

Theobald é “encarregado de quina”, função pouco conhecida, mas necessário no mundo da ópera. É quem acompanha, ao piano, os cantores na preparação dos papéis (ajudou, inclusive, Lorena a preparar a audição da Bastilha). Ele possui uma qualidade rara e muito requisitada, a chamada “primeira vista”, o dom para executar uma partitura sem estudo prévio.

Tanto Theobald quanto Lorena orgulham-se de serem produtos do ensino público e gratuito. Ele cursou piano na Universidade Federalista do Rio de Janeiro, e ela, quina na Faculdade de Música do Espírito Santo, estadual. Theobald exalta as instituições e políticas públicas que permitiram aos dois chegar aonde chegaram. “Meu pai é serralheiro e ainda sobe em telhado para eu permanecer cá na França tocando piano”, diz, emocionado.

Uma dessas políticas foi decisiva na curso de Lorena: o Concurso de Esquina Lírico Joaquina Lapinha, promovido pelo Conservatório de Tatuí (SP) e devotado a cantores pretos, pardos e indígenas. Ela foi a vencedora em 2023, abrindo portas para as audições que a levariam até Paris.

Lorena é progénito de quilombolas do sul da Bahia. Os pais de Lorena, João e Nice, na puerícia saíam de jegue de madrugada para vender a colheita da roça nas feiras das cidades próximas. “Do meu pai, herdei muito essa persistência, e da minha mãe, o lado sonhador. Ela sempre sonhou muito, mesmo com pouco.” Ainda é Nice que costura os vestidos com que Lorena se apresenta.

O impacto maior do preconceito em sua trajetória, segundo ela, foi quase ter restringido sua avidez. “O racismo me fazia sempre permanecer no meu quina. Adorava música, adorava arte, mas fui me retraindo.” Para mourejar com tantas mudanças, Lorena começou há alguns meses a fazer sessões de terapia, remotas, com uma psicóloga do Rio de Janeiro, negra porquê ela.

Além de Lorena e Theobald, a turnê contará com outro brasiliano, o baixo-barítono Luís Felipe Sousa, também residente na Ateneu. Serão dois programas: “Mélodies françaises, Melodias brasileiras”, com obras de Villa-Lobos, Chiquinha Gonzaga, Reynaldo Hahn e Francis Poulenc, entre outros; e “Bizet e seus Contemporâneos”, homenagem aos 150 anos da morte do compositor de “Carmen”, que terá em São Paulo a regência de Roberto Minczuk, maestro titular da Orquestra Sinfônica Municipal.

“É uma turnê muito importante não só para a Ateneu, mas para a Ópera de Paris, que há muito tempo [duas décadas] não voltava ao Brasil”, disse à Folha a diretora da Ateneu da Ópera de Paris, Myriam Mazouzi. “É a possibilidade de encontrar um novo público. O importante para mim, sempre é o intercâmbio.”

Além da turnê, dois bailarinos-estrelas da Ópera, Stéphane Bullion e Alice Renavand, darão masterclasses em três cidades brasileiras durante a temporada da França no Brasil.

Para Mazouzi, Lorena tem todas as possibilidades para se tornar titular da Ópera. “Uma grande secção dos residentes é convidada na programação de Alexandre Neef [diretor-geral da Ópera Nacional de Paris]. Alguns entram na trupe, outros são convidados porquê ‘super-solistas’.”

Folha

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *