Cercados pelo concreto, com poucos recursos e correndo risco de detrito pela prefeitura, projetos sociais ajudam a reerguer moradores de rua, usuários de drogas, ex-presidiários e menores infratores. Entre vigas de concreto, fragor de carros e equipamentos repentista, pugilistas amadores se reúnem para treinar e aprender as lições que o boxe proporciona: disciplina, resiliência e superação. A rotina, que parecia ameaçada, volta a lucrar fôlego com o retorno de um espaço sob um viaduto na zona leste de São Paulo.
O projeto social idealizado pelo ex-pugilista Nilson Garrido chegou a permanecer dois anos interditado. Sob prenúncio de detrito e com o Termo de Permissão de Uso (TPU) vencido, o espaço foi mira de disputa: uma cooperativa de reciclagem pleiteou o uso da espaço, e secção dela acabou cedida pela prefeitura a uma empresa privada.
Agora, aos poucos, o boxe retorna ao sítio. Uma faxina feita por voluntários durante mais de duas semanas abriu caminho para que a ateneu volte a funcionar aos poucos. A permissão solene ainda não chegou, mas Fábio Garrido, rebento de Nilson e atual coordenador do projeto, mantém as atividades com a ajuda de quem encontrou ali um abrigo e uma novidade oportunidade.
“Em 2004, sofri um acidente num combate. Fui parar no hospital, entre a vida e a morte. Meu pai estava em reza quando, segundo ele, Deus lhe disse: ‘Eu vou cuidar do seu rebento; em troca, você vai cuidar dos meus filhos.’ Assim surgiu a teoria de montar uma ateneu para apoiar excluídos, resgatar gente da rua por meio do esporte”, conta Garrido.
Sem documentação regularizada, a ateneu depende da boa vontade das autoridades e de articulações políticas. “Quando reformaram o viaduto, trocaram amortecedores, reforçaram vigas, mas não vedaram corretamente. A infiltração estragou nossos equipamentos. A gente está cá desde 2007, mas ninguém vem ajudar”, desabafa. Ele agora vem pedindo a redes de musculação a doação de equipamentos parados.
“Cá eu recuperei minha distinção”
Fundado em 1999, o projeto já acolheu moradores de rua, usuários de drogas, ex-presidiários e menores infratores. Além das aulas de boxe e atualmente jiu-jítsu, também é teto para alguns alunos.
Nilson, o fundador, morreu em 2022, depois uma cirurgia, mas a iniciativa segue viva nas mãos da família e de ex-alunos porquê Fernando Menoncello.
Ex-morador de rua, Fernando virou vencedor de boxe namorado e hoje coordena sua própria ateneu. “Esse lugar é porquê uma igreja, um refúgio. Lembro de tudo: pegando marmita na porta para não passar penúria, puxando carroça, vendendo ferro velho. Cá eu recuperei minha distinção”, relembra.
Aos 44 anos, fora dos ringues, Fernando tenta retribuir o que recebeu levando o esporte a crianças e adolescentes, tanto na ateneu quanto na Federação de Boxe do estado. “Eu me encontrei. Sabor de ver o moleque dando os primeiros passos, pegando medalha, indo para a seleção”, afirma.
Uso do espaço público é fundamentado em “contratos precários”
Projetos porquê o Garrido dependem dos chamados TPU: concessões que permitem o uso de espaços públicos por paulistanos, com regras e prazos específicos. O problema é que essas permissões são frágeis.
“O TPU é o que chamamos de um contrato precário. Não há segurança jurídica, pode ser revogado a qualquer momento”, explica a advogada Mariana Levy, profissional em recta urbano.
São Paulo tem 185 pontes e viadutos. Segundo a Prefeitura, menos de 25 abrigam iniciativas porquê escolas de samba, quadras e academias populares.
Em nota, a Prefeitura afirma que “realiza o projeto Baixos de Viaduto, um convocação público que permite à sociedade social utilizar esses espaços, desde que ofereça atividades voltadas à população”, porquê “quiosques, playgrounds, áreas de paisagismo”. A gestão cabe à Secretaria Municipal das Subprefeituras.
Especialistas dizem que faltam políticas públicas que incentivem e formalizem o uso desses espaços. “Não conheço nenhuma política municipal voltada a isso hoje. O que existe é feito caso a caso, sem padrão, sem programa estruturado”, aponta a arquiteta e urbanista Hannah Arcuschin.
A Secretaria Municipal de Esportes e Lazer em SP enviou nota à DW dizendo que “o uso dos baixos de viaduto em São Paulo segue critérios previstos na legislação municipal para requalificação e aproveitamento desses espaços”. O órgão esclareceu que interessados devem apresentar projetos depois publicação de um edital.
Esporte perto de lar
A ateneu do ex-campeão João Ferreira foi um dos projetos avaliados “caso a caso”. Ele montou um espaço no bairro onde nasceu, Perus, na periferia setentrião da capital paulista —54º no ranking de 96 distritos avaliados em 2023 pelo Planta da Desigualdade da metrópole, publicado anualmente pela organização social Rede Nossa São Paulo.
Quando jovem, Ferreira precisava trespassar do bairro e remunerar para treinar. Agora tenta evitar que outros enfrentem o mesmo tropeço.
“Eu queria treinar, mas cá em Perus não tinha. Ia para a Lapa e pagava para treinar. Hoje cuido do jovem que chega cá. É um trabalho de coração, não tenho espeque de estado ou prefeitura”, diz. Há 22 anos, sobrevive com a ajuda de amigos e parceiros. Muro de 20 pessoas treinam ali três vezes por semana, entre betoneiras, trilhos, regato e uma escola de samba.
Ferreira improvisou sua ateneu para apoiar atletas de todas as idades. “Lutei profissional até os 42. Um dia passei e vi um rapaz que cedeu o espaço. Cá ninguém paga zero. Às vezes a gente ajuda quem precisa: compra gás, dá uma força. Faz o que pode”, afirma.
Hoje, João Ferreira se orgulha dos campeões que formou e vê nas novas gerações a esperança de multiplicar as lições de humildade e simplicidade que aprendeu. “Meu sonho é ser lutador profissional”, conta Antônio Soares, de 12 anos. “O boxe me trouxe felicidade, foco e amizades. Melhorou minhas notas e me livrou do bullying.”
