O julgamento do alpinista austríaco identificado somente uma vez que Thomas P., sentenciado no último dia 19 de fevereiro por um tribunal sítio pela morte da namorada, Kerstin G. por hipotermia na serra mais subida da Áustria, o Grossglockner, reacendeu um debate que vem se arrastando há anos sobre até onde vai a responsabilidade de quem está com alguém numa trilha ou serra quando tudo dá inexacto. E, uma vez que não há uma lei que estabeleça objetivamente o que, uma vez que e quando fazer na hora dos grandes perrengues, tudo o que se pode proferir é: a responsabilidade deve ser avaliada caso a caso e a única lei que vale na serra sem exceção é…a da seriedade. E com essa não se brinca.
A golpe austríaca questionou por que Thomas, mais experiente que Kerstin, a deixou perto do cume de 3.798 metros de altitude, desprotegida e exausta, sem quaisquer equipamentos de proteção, em condições climáticas adversas, nas primeiras horas da manhã do dia 19 de janeiro de 2025, depois de toda uma noite expostos ao insensível extremo e sem ele ter sinalizado ao helicóptero que sobrevoava a superfície a urgência de auxílio para sua companheira.
Réprobo a cinco meses de prisão e a multa de € 9.400 (R$ 57,6 milénio), por homicídio culposo (quando não há intenção de matar) por negligência, Thomas ainda aguarda recurso em liberdade condicional. Mas a decisão, rara no universo do montanhismo, significa “uma mudança de paradigma para os esportes de serra”, uma vez que publicou o jornal austríaco Der Standard, citado pela BBC.
E, se o caso surpreendeu os austríacos, no Brasil o frisson não está dissemelhante. Todos os grupos de trilhas e escalada lembraram de casos de impacto midiático uma vez que o de Roberto Farias Thomaz, que se perdeu na descida do Pico Paraná em seguida ser deixado para trás pela amiga Thayane Smith , mobilizando dezenas de pessoas por quatro dias em um resgate que, enfim, terminou com ele próprio chegando a uma morada completamente fora do foco das buscas. Ou do acidente com a moça Juliana Marins, que caiu pela borda do vulcão Rinjani, na Indonésia, morrendo em seguida ser deixada para trás pelo guia e depois de uma demorada operação de resgate pelas despreparadas autoridades locais.
Para o montanhista e guia experiente com a dependência Subida Serra Pedro Hauck, a responsabilidade de quem leva pessoas para uma trilha ou escalada não é abstrata, “qualquer acidente sempre vai ter um responsável”. E se isso pode toar óbvio, ele aponta que “muitos juristas e pessoas que só opinam vão falar que, se o acidente ocorre num parque, a responsabilidade é do parque, mesmo que haja uma relação mercantil, onde, para mim, a responsabilidade objetiva é de quem está vendendo a atividade”.
Sobre a sentença austríaca, Hauck avalia que foi “uma boa decisão, porque se o responsável é o participante, o possessor ou gestor da superfície pode permanecer tranquilo pois não vai ser sentenciado, o que é justo, porque quem está dando segurança ao grupo, esse é o responsável e, por mais que isso seja ruim por um lado de pôr um peso sobre mim, que vendo a atividade, por outro é bom porque vou ter de ser responsável por mim mesmo, nunca será um terceiro que nem conheço, a galera faz muita coisa difícil sobre a qual não tem domínio e acaba gerando acidentes por inaptidão”.
A inaptidão, somada ao aumento exponencial da procura por montanhas e trilhas instagramáveis por pessoas que não têm conhecimento das técnicas básicas para sua realização, é um tanto que assusta Ricardo Ishigami, instrutor de escalada com vasta experiência. “Entre nós, escaladores, costumamos proferir que a serra revela quem de trajo as pessoas são, o caráter e os valores de cada um, mormente quando a situação envolve qualquer estresse”, ressalta ele.
Ishigami diz que na escalada, caso do par austríaco, é fundamental “ter zelo com quem você está ligado numa serra, é a sua vida que está na ponta de uma corda”. Ele avalia que “muita gente vai escalar uma serra, fazer uma trilha, sem base nenhuma, sem conhecimento técnico, porque vê nas mídias sociais, vê um tutorial no YouTube e acha que já sabe fazer, e isso nos tem deixado assustados, porque sabemos que não é muito assim”.
“O que estamos vendo com isso”, acrescenta, “é essa quantidade de acidentes que ainda tende a aumentar, porque a rede social não vai te narrar a hora de abortar um cume ou trilha por justificação da chuva, ou de raios”.
Crítico do excesso de comercialização de “experiências”, Ishigami cita outro risco encaixado justamente no excesso de demanda pelos registros mais vistosos. “Você tem vias de escalada no Corcovado, no Dedo de Deus, na Agulha do Diabo, e vêm escaladores do mundo inteiro, portanto os guias podem cobrar deles até US$ 300, mas temos notado que muitos desses guias estão levando gente que nunca escalou, que vai ser literalmente puxada para o cimeira para comemorar um natalício, por exemplo, com uma bela foto para a rede social”.
O maior risco encaixado nesse “elevador” de amadores, explica Ishigami, é o guia ter qualquer dos problemas mais frequentes na serra —uma vez que ser atingido por uma rocha que caia do cimeira, ou se ver em meio a um enxame de abelhas— e o leigo permanecer ali sem a menor teoria do que fazer para acudi-lo ou mesmo de uma vez que descer em procura de resgate. Ou o cliente, ignorante dos procedimentos básicos de segurança que o guia de repente nem seguiu para ir mais rápido até o cume e registrar a “façanha” de seu guiado, findar se acidentando ou, até, morrendo. “E aí, ele vai proferir que a culpa foi do turista, que se desencordou, que não obedeceu, e não há perícia que saiba identificar o que realmente aconteceu, portanto não tem lei que estabeleça os procedimentos corretos e os limites a serem avaliados, porque a única lei que é inalterável na serra é a da seriedade”, resume.
Também Marcelo Rey Belo, presidente do CAP (Clube Alpino Paulista), afirma que de pouco adianta esperar que leis resolvam o problema da responsabilidade. “As federações e confederações de montanhismo foram criadas muito por uma urgência de ‘tutelar’ os praticantes amadores de leis impraticáveis”, diz ele, lembrando que, “no início dos anos 2000, começaram a surgir ideias de que para escalar era preciso ter junto um professor de instrução física, uma ambulância, preocupações que até fazem sentido em uma excursão mercantil, mas tornam inviável que dois amigos saiam para explorar novas montanhas”.
Rey Belo pondera que, embora legisladores queiram expelir riscos, “e acreditem que é verosímil fazer iso com leis, além de elas não resolverem zero, muitas vezes criam, nos neófitos, uma falsa sensação de segurança que, de trajo, aumenta ainda mais os riscos”.
“Existe no montanhismo um princípio ético muito possante: quem sai junto, volta junto, isso traduz o compromisso entre parceiros de cordada”, acrescenta ele. “Ao mesmo tempo, há situações em que permanecer pode valer colocar duas vidas em risco, e descer para buscar ajuda pode ser a única escolha verosímil. Cada incidente precisa ser analisado dentro de suas circunstâncias concretas”.
Ele resume sua posição, lembrando que fala por si, não pelo clube, que “a serra exige um estabilidade frágil de liberdade com responsabilidade, pois sem responsabilidade, há imprudência, mas sem liberdade, não há montanhismo”.
Trocando em miúdos, porque a conversa ainda vai render um fatia e está longe de ter uma desfecho, vale a velha máxima que reza “se não sabe trebelhar, não desce pro play”. Ou, no caso, não suba pro cume.
