Adam Milner transforma loja em escultura em SP 02/03/2026

Adam Milner transforma loja em escultura em SP – 02/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Pôsteres de futebol antigos, bonecos da Turma da Mônica, latas de refrigerante vazias, potes de biscoito, troféus, canecas e toda a sorte de quinquilharias se encontram na ingresso da galeria Yehudi Hollander-Pappi, na zona oeste de São Paulo. Os itens, que fazem secção de um transacção paulista, estão à venda porquê estariam em sua sede, não fosse por também integrarem a primeira exposição do artista americano Adam Milner no Brasil.

Intitulada “Dada” em referência ao dadaísmo, movimento do início do século 20 que respondeu à violência da Primeira Guerra Mundial com humor, sem razão e apropriações, a mostra mobiliza procedimentos semelhantes em um momento de subida do autoritarismo global e levanta a questão —qual é a diferença entre uma galeria de arte e uma loja de bugigangas?

É a partir desse deslocamento que o artista estrutura a exposição. Para Milner, a loja inteira funciona porquê um “objeto encontrado”, fazendo referência ao gesto principiante do artista dadaísta Marcel Duchamp, que elevou objetos banais à quesito de arte ao deslocá-los de contexto.

Embora formada por diversas mercadorias, ele a entende porquê uma única estátua. O transacção segue ativo durante a exposição, com produtos e disposição alterados diariamente —assim porquê as demais obras apresentadas também permanecem à venda na galeria.

Ao manter essa lógica de circulação e venda dentro do espaço expositivo, a mostra explicita que a dimensão mercantil não é externa ao sistema da arte, mas componente estrutural de seu funcionamento.

Além da loja, a exposição reúne também obras inéditas produzidas a partir de objetos coletados nos últimos anos. Cartões, papéis de seda e fragmentos recolhidos em Novidade York e em São Paulo aparecem enquadrados ou incorporados a trabalhos recentes.

Três grandes pinturas funcionam porquê estruturas de exibição. Feitas com lençóis que imitam madeira, papéis retirados de um karaokê paulistano e confetes recolhidos na cidade, elas apresentam os materiais quase porquê vitrines internas.

Em uma delas, velas de natalício em forma de zero se acumulam. “Elas existem para criar números, dez, 20, 30. Sozinhas, têm um tanto de melancólico e engraçado”, afirma o artista, que coleciona o número quase que obsessivamente.

O gesto de recolher sobras —do pavimento, de lojas populares, de quartos privados— aproxima-se de uma arqueologia do corriqueiro. Milner já intitulou uma exposição com a pergunta “Se desenterrar um tanto o torna verdadeiro, o que significa enterrá-lo?”.

Ao comentar esse interesse, afirma que se sente atraído pela teoria de escavação porquê produtora de sentido —a noção de que aquilo que emerge do solo ganha regime de verdade. Na mostra atual, em vez de escavar a terreno, ele volta-se às prateleiras de lojas populares, que funcionam, segundo sugere, porquê sua própria versão de sítio arqueológico.

Essa lógica de coleta se estende ao contexto doméstico. Pequenas fotografias na parede mostram o quarto do pai do artista. Uma pequena estátua de alumínio feita por seu pai nos anos 1990, nunca antes exibida, integra o conjunto. Ao incluir esses elementos, o artista incorpora o espaço privado ao expositivo e acrescenta uma dimensão pessoal à mostra.

Essa aproximação entre arte e vida também orienta a forma porquê Milner entende sua prática. Ele afirma não ser um “artista de ateliê” —produz enquanto vive, incorporando ao trabalho materiais recolhidos em festas, caminhadas ou viagens. “Criei uma prática em que estou sempre trabalhando e nunca trabalhando”, diz, ao comentar a sobreposição entre tempo de vida e tempo de produção.

Para o artista, esse embaralhamento reflete uma quesito mais ampla do mundo contemporâneo, em que o trabalho ocupa todos os espaços do cotidiano. Ao comentar o debate brasílio sobre a redução da jornada semanal, ele defende uma mudança ainda mais profunda. “Deveria ser de três dias. Não estou brincando.”

Segundo Milner, reduzir o ritmo de produção é também uma posição política. “Não precisamos destruir o planeta sete dias por semana. Talvez isso apareça na minha exposição —não há uma quantidade enorme de obras, não tentei encher a sala de pinturas. Eu simplesmente descansei.”

Folha

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