“Eddy – Violência & Transmutação” tece uma narrativa fragmentada, porém coesa, ao costurar trechos de três livros de Édouard Louis – “O Término de Eddy”, “História da Violência” e “Mudar: Método”. Essa abordagem não linear permite que as diferentes fases da vida do protagonista dialoguem entre si, revelando porquê a violência, em suas diversas manifestações, ecoa ao longo de sua trajetória. A puerícia marcada pela pobreza e pela homofobia, o traumatismo do estupro e a ulterior procura por reinvenção não são apresentados porquê capítulos isolados, mas porquê camadas sobrepostas de uma mesma história. A montagem sugere que o pretérito nunca é deixado para trás, unicamente ressignificado à luz de novas experiências.
João Côrtes, no papel mediano habita a dor e a mudança do personagem com uma entrega física e emocional que arrebata. Em um momento marcante, sua bela voz se dissolve na melancolia de “Smalltown Boy”, música icônica da filarmónica britânica Bronski Beat sobre exclusão e fuga, que emenda surpreendentemente em “Born This Way” (Lady Gaga) – uma escolha músico genial, que reforça a identidade do personagem e a desumanidade sofrida por quem foge da norma.
Ao seu lado, Igor Fortunato constrói um varão que é ao mesmo tempo atacante e vítima de um sistema que o ultrapassa. O modo truculento com que ele ataca Eddy no momento em que se sente acuado não surge do vazio, mas de uma ergástulo de opressões que também o atingem, e Fortunato traduz essa complicação em gestos precisos e carregados de anfibologia.
Julia Lund, porquê a mana de Eddy, introduz uma perspectiva fundamental ao drama. Sua personagem funciona porquê um espelho que reflete tanto o afeto quanto as feridas familiares, mostrando porquê as relações mais próximas podem ser manadeira de dor e, ao mesmo tempo, de resistência. A forma porquê ela oscila entre compreensão e distanciamento revela as contradições inerentes ao processo de romper com as origens sem não conseguir apagá-las por completo.
Mais um grande acerto da Polifônica, cá Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky optam por uma linguagem sóbria, onde cada componente cênico cumpre uma função narrativa. O espaço com poucos elementos e a iluminação cortante concentram a atenção nos corpos dos atores, transformando seus movimentos em extensões da crueza encenada. Menos é mais: um olhar, uma pausa ou o som de uma respiração ofegante carregam tanto significado quanto um diálogo. Essa economia de recursos não empobrece a encenação; pelo contrário, intensifica seu impacto, criando uma experiência que não se contenta em ser assistida, mas exige ser sentida.
O resultado é um teatro que desafia a passividade do testemunha. Ao misturar narrativa, performance e música, a montagem encarna a história de Eddy diante do público. As feridas abertas no palco são de todos os que, porquê ele, precisam aprender a habitar um mundo que muitas vezes lhes nega o recta à própria existência.
Três perguntas para …
… João Côrtes
O texto e a temática da peça são extremamente densos. Porquê você preparou seu corpo e sua voz para sustentar essa trouxa emocional no palco?
Esta é uma peça que exige profundidade, tanto física quanto emocional, em todas as suas camadas. Para nós, atores, requer uma concentração intensa, já que trabalhamos com temas densos em um clima sempre tenso e sobrecarregado.
O processo de construção foi principal – e nele está justamente a formosura do teatro. Fomos descobrindo juntos, com a orientação de Lavínia Bizzotto na preparação corporal e a direção de Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowski, porquê acessar esses estados emocionais, porquê moldar o corpo e a voz para a cena. Não se trata de alguma coisa superficial ou extrínseco, mas de um trabalho que vem de dentro, exigindo vulnerabilidade. Precisei encontrar em mim mesmo essas chaves, entender quais pontos do meu corpo e espírito deveriam ser ativados ou silenciados para estabelecer a conexão necessária.
Foi um processo difícil, provocador e por vezes exaustivo, mas profundamente gratificante. Mesmo diante da entrega absoluta que a peça requer, a experiência tem sido enriquecedora em todos os sentidos.
Uma cena marcante é a sua versão de “Smalltown Boy” emendando em “Born This Way”. Porquê surgiu essa teoria e o que essas músicas representam para o seu personagem?
Originalmente, a adaptação de Marcelo Grabowsky e Luiz Felipe Reis já previa um momento músico em seguida a segunda cena no microfone. Porém, durante o processo, percebemos que a música inicialmente escolhida não funcionava porquê imaginado – não gerava o impacto desejado nem se encaixava organicamente na cena. Começamos portanto a buscar alternativas, primeiro pensando em uma única música, até que surgiu a teoria de um mashup que unisse dois hinos LGBTQIA+.
A pesquisa focou em músicas que dialogassem profundamente com a comunidade, capturando temas porquê solidão, autoaceitação e a jornada de um jovem gay enfrentando o mundo. “Smalltown Boy” surgiu porquê a escolha perfeita – um clássico queer europeu cuja letra ecoa literalmente a história de Édouard Louis: um jovem deixando sua cidade natal com uma mala, enquanto a mãe não compreende sua urgência de partir (“run away, turn away”). A música encapsula a violência sofrida e a procura por um paixão que não se encontra no lar.
Já a inclusão de “Born This Way” veio de um insight durante os ensaios, inspirado pelo show histórico de Lady Gaga em Copacabana. Assistindo à turba de pessoas celebrando sua identidade, percebemos que a mensagem de empoderamento da música – “God makes no mistakes”, a asseveração de nascer e ser perfeito porquê se é – era o contraponto ideal ao sofrimento retratado em “Smalltown Boy”. Com a direção músico de Carol Mathias, trabalhamos para fundir as duas canções de forma orgânica, garantindo que a transição reforçasse não unicamente a narrativa, mas também a jornada emocional do personagem. O resultado foi uma cena que, além de tecnicamente congruente, carrega um grande peso simbólico para a comunidade que a peça representa.
Apesar de ser baseada em uma obra francesa, a peça dialoga fortemente com a verdade brasileira, mormente em relação à violência contra a população LGBTQIA+. Porquê você enxerga esse paralelo?
Esse tem sido um tema recorrente em nossas conversas em seguida as apresentações. Muitos espectadores, mormente homens gays, compartilham conosco o quanto se reconhecem na história de Édouard – e isso revela uma triste verdade. A violência, o preconceito, os traumas familiares e o susto de viver sua verdade ainda são elementos marcantes na trajetória da maioria dessas pessoas.
Não por contingência, ressaltamos no final da peça que, embora estejamos contando a história de um gálico, ela reflete a verdade de milhares de brasileiros. Vivemos no país que mais mata pessoas LGBTQIA+ no mundo, e essa violência acaba sendo o gavinha que une todas essas histórias – e toda a resistência que surge dela.
Porquê artista queer, sinto profundamente o peso e a valia desse trabalho. Mais do que entretenimento, a arte tem esse papel principal de provocar reflexão, iluminar questões urgentes e, quem sabe, ajudar a pavimentar caminhos para mudanças. Essa história não é só sobre dor – é sobre resiliência, e sobre a urgência urgente de falarmos sobre tudo isso.
Teatro Poeira – r. São João Batista, 104, Botafogo – Rio de Janeiro. Qui. a sáb., às 20h. Dom., às 19h. Até 31/8. Duração: 110 minutos. Classificação: 18 anos. A partir de R$ 60 (meia-entrada) em sympla.com.br e na bilheteria do teatro
