O verão corre na Europa e a prensa se inunda de “Questionários Proust”, aquelas perguntas levemente pessoais, levemente filosóficas, que faziam sucesso nos salões parisienses do século 19. Até Marcel Proust, que batizou o gênero, se submeteu a eles, quebrando sua timidez habitual.
Já não temos Proust. Temos somente um número infindo de “pessoas do muito” que aproveitam o momento para terebrar as suas gabardines e exporem aos outros o tamanho da sua virtude.
Confrontado com a epidemia de questionários e usando o da revista Vanity Fair uma vez que padrão, vou escrevendo à mão sobre as respostas das celebridades e “influencers”, as minhas meditações instantâneas. Convido o leitor a fazer o mesmo e a partilhar o resultado.
Porquê diria o médico português Egas Moniz, o inventor da lobotomia: “Conhece-te a ti mesmo”.
“Qual é a sua teoria de felicidade perfeita?” “Um dia de verão com meus inimigos e eles saltando da prancha para uma piscina vazia.”
“Qual é a sua viagem favorita?” “Aqueles dez metros entre o sofá e a geladeira.”
“O que você menos gosta na sua fisionomia?” “Minhas semelhanças físicas com o ator Pedro Pascal. Já cansa.”
“Qual ou quem é o grande paixão da sua vida?” “Minha antiga professora Sylvia Kristel, com quem aprendi francesismo e biologia.”
“Qual é a sua propriedade mais marcante?” “Conceder sempre aos outros o prazer de pagarem a conta para mim.”
“Com qual figura histórica você mais se identifica?” “Pepino, o Breve, Luís, o Gago, e Carlos, o Calvo —reis franceses que sobreviveram a suas alcunhas.”
“Se você morresse e voltasse uma vez que uma pessoa ou coisa, o que acha que seria?” “Um mosquito invisível pairando sobre as noites de Roger Waters.”
“Qual é o seu maior pavor?” “Chegar ao inferno e encontrar todos os leitores que não entenderam as ironias. E explicar tudo de novo durante a perpetuidade.”
“Qual é o traço que você mais deplora em si mesmo?” “Não ter a capacidade de transformar a chuva em vinho.”
“Qual é o traço que mais deplora nos outros?” “As boas intenções.”
“Qual virtude você considera mais superestimada?” “A autenticidade. Prefiro aquela artificialidade que esconde os defeitos.”
“Em que ocasião você mente?” “Quando me enviam textos ou poemas e pedem muito uma opinião sincera a saudação.”
“Qual pessoa viva você mais despreza?” “Nenhuma em pessoal. Meus desprezos são amplos e democraticamente distribuídos.”
“Quais palavras ou expressões você mais usa?” “‘A situação é catastrófica, mas não séria’ —em homenagem aos Habsburgos. Também afronta de ‘está quase pronto’, ‘não me esqueci de você’ e ‘rendimento pelos seus filhos’.”
“Qual é o seu maior compunção?” “Ter seguido muitas vezes os conselhos dos mais sábios.”
“Quando e onde você foi mais feliz?” “No útero, sem boletos.”
“Qual é o seu estado de espírito atual?” “Airado uma vez que sempre. E sem paraquedas.”
“O que você mais detesta?” “Diarreia do dedo. Receber uma mensagem que vem às prestações.”
“O que você considera sua maior realização?” “Ter percebido muito jovem que Clark Kent e Super-Varão eram a mesma pessoa, separados somente por uns óculos.”
“Se pudesse escolher uma vez que voltar, o que você gostaria de ser?” “Com as novas ameaças nucleares, talvez uma barata.”
“Qual é a sua posse mais preciosa?” “Um pelo pubiano da rainha Vitória —em homenagem ao cineasta João César Monteiro.”
“O que você considera o fundo do poço da miséria?” “Colonoscopia sem sedação.”
“O que você mais valoriza nos seus amigos?” “O indumento de nem todos serem imaginários.”
“Quem são seus escritores favoritos?” “Todos os que resistiram à tentação de redigir o livro que tinham dentro de si.”
“Porquê você gostaria de morrer?” “Minha intenção é ser imortal. Mas, se tivesse de escolher, que fosse assistindo a um filme genial de Oliver Stone —o que, de tão improvável, dá no mesmo.”
“Quais são os seus nomes preferidos?” “Nomes portugueses arcaicos e injustamente esquecidos: Hermengarda, Eurico, Ordonho, Teodomiro. Nomes brasileiros modernos uma vez que Aricléia, Elvisley ou Gêngis Khan.”
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