Aguinaldo silva: quero trabalhar, não sucesso ou dinheiro 19/09/2025

Aguinaldo Silva: Quero trabalhar, não sucesso ou dinheiro – 19/09/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Aguinaldo Silva diz gostar tanto de trabalhar que aceitou reatar com a Orbe mesmo posteriormente o divórcio conturbado que tiveram há cinco anos. De volta ao meato que o consagrou uma vez que um dos maiores novelistas do país, ele escreve agora “Três Graças”, que substitui “Vale Tudo” na filete das nove em outubro.

Rico e à borda dos 80 anos, Aguinaldo decidiu à quadra que saiu da empresa que tentaria sossegar e se reformar. Mas na prática isso foi difícil. Sua rotina pouco mudou —ele seguiu acordando cedo todos os dias para se sentar diante do computador e ortografar alguma história.

“É um vício terrível, nunca consegui superar”, ele diz, por videochamada, durante uma pausa do serviço no meio da tarde. “Não quero sucesso nem quantia. Quero trabalhar, senão eu morro.”

Instituidor de clássicos da teledramaturgia uma vez que “Tieta” e “Senhora do Sorte”, além de coautor da versão original de “Vale Tudo”, o dramaturgo assina agora sua 16ª romance, que deve estrear no dia 20 do mês que vem.

“Três Graças” segue a história de três mulheres de uma mesma família que engravidam na mocidade. Dira Paes interpreta Lígia das Graças, que teve a filha Gerluce aos 16 anos. Já adulta, Gerluce, vivida por Sophie Charlotte, também engravida quando jovem. Quando a filha dela, Joélly, passa pela mesma situação, Gerluce decide romper o ciclo para prometer que a rapariga não abandone sonhos para cuidar do bebê.

Aguinaldo diz que as personagens são inspiradas em Jane, Silbene, Nanci e dona Claraíde, cuidadoras das casas que ele tem em São Paulo e no Rio de Janeiro. “É sobre mulheres que saem às cinco da manhã para pegar três ônibus para trabalhar e mesmo assim não se queixam. São alegres, para cima, bem-humoradas.”

O dramaturgo imaginou a história ao visitar uma maternidade do Rio de Janeiro, onde se deparou com uma fileira enorme em plena madrugada. Um colega perguntou se ele via qualquer varão, mas não havia quase nenhum. “Fiquei estarrecido e decidi que um dia escreveria sobre aquelas meninas.”

Isso foi em 2007. A vontade voltou nos últimos anos, enquanto escrevia um suspense policial. Estudando o texto, Aguinaldo notou que aquelas mulheres surgiram no meio da trama, um tanto deslocadas. Aí ele transformou o rascunho num melodrama e ouviu de um agente que deveria tentar vendê-lo à Orbe.

Aguinaldo já havia superado a mágoa com a emissora. Ele deixou a empresa reclamando de falta de tato na forma burocrática uma vez que seu contrato de 48 anos fora encerrado, uma vez que disse à quadra. A saída aconteceu no rastro de um fracasso de audiência no horário sublime, com a romance “O Sétimo Guardião”.

“Foi uma questão mercadológica”, ele diz. “Não havia razão para me manter. Eu fui o primeiro dispensado de um grupo enorme de autores, diretores e atores que estavam contratados sem fazer zero.”

De indumentária, poucos meses posteriormente sua saída, a Orbe desmanchou acordos fixos que mantinha havia décadas com vários dos seus medalhões, uma vez que Renato Aragão, Gloria Menezes e Antonio Fagundes.

Aguinaldo é de uma geração de autores que ganhavam salários altíssimos, numa quadra em que novelas tinham quase o triplo da audiência de hoje. O livro “Gilberto Braga: O Balzac da Orbe”, de Artur Xexéo e Mauricio Stycer, lembra que, em meio a uma investida de Silvio Santos para levar os autores da Orbe para o SBT, em novembro de 1996 Aguinaldo integrava uma lista de autores que passou a lucrar R$ 53 milénio por mês, o que hoje seria o equivalente sobre R$ 467 milénio.

Aguinaldo mesmo diz que os pagamentos agora são mais justos. “Eu sabia que ganhávamos valores absurdos porque vim do jornalismo. Mas alguns dos meus colegas não concordavam comigo. Pensavam até que podíamos receber mais.”

Numerário deixou de ser uma preocupação, diz ele, que hoje considera levar uma vida confortável, dividindo-se entre o Brasil e a mansão que tem em Lisboa, onde passou boa secção do tempo nos últimos anos. “Trabalho por premência místico, não financeira.”

Ao oferecer “Três Graças”, Aguinaldo ouviu do diretor dos Estúdios Orbe, Amauri Soares, que a empresa queria retomar a parceria, só que no esquema de um contrato feito por obra, uma vez que acontece com a maioria dos funcionários da emissora hoje. Era o que o responsável queria também, ele diz.

“Semanas depois a coisa já estava caminhando. Me assustou, porque não tenho mais idade para ortografar 180 capítulos. Mas vou em frente. Posso me tornar um velhinho amanhã, mas ainda não sou.”

Antes da Orbe, no entanto, Aguinaldo procurou a concorrência. Ele ofereceu “Três Graças” a várias plataformas de streaming, que não lhe davam resposta. Isso antes de a romance “Venustidade Infalível” virar fenômeno nas redes sociais e um dos títulos nacionais mais comentados da HBO Max.

Aguinaldo, aliás, diz que amou “Venustidade Infalível”. Ele atribui o sucesso ao elenco de atores que vieram da Orbe e à trama rápida, de exclusivamente 40 capítulos, muito menos do que as novelas de TV ocasião. “Gostei dessa condensação, dá mais intensidade. Se me pedirem uma curta desse jeito, eu faço.”

Mas por ora vai se ater ao formato tradicional. Em “Três Graças”, Aguinaldo se afasta do realismo mágico, que marcou sua obra —embora tenha oferecido inverídico em “O Sétimo Guardião”—, para fazer um embate clássico entre mocinha pobre e vilã rica.

A megera da vez é Arminda, papel de Grazi Massafera, dona de uma mansão onde Gerluce, a protagonista, trabalha. Lá ela descobre um esquema de falsificação de remédios que prejudica a mãe e outras pessoas doentes da favela onde vive.

O cenário é Chacrinha, uma comunidade fictícia em São Paulo, que a Orbe construiu enviando seu elenco e equipe de produção até a capital paulista para gravar em ruas reais de bairros da periferia.

Redigir sobre São Paulo é uma novidade para Aguinaldo —e também um pouco incomum na filete das nove da Orbe. A última trama ambientada na cidade foi “A Dona do Pedaço”, de 2019. O pedido veio dos executivos do meato, conta o responsável, sem explicação do porquê. Ele diz ter acatado de bom grado, porque ao longo da vida criou uma relação próxima com a capital paulista.

Nos bastidores, no entanto, o movimento é visto uma vez que uma tentativa da Orbe de se aproximar mais daquele que é considerado o principal mercado publicitário do país e que tem sido mais difícil para a emissora fazer sucesso —evidência disso é o remake de “Vale Tudo”, que tem uma média de 23 pontos de audiência em São Paulo e 28 no Rio de Janeiro..

A Chacrinha onde Gerluce mora é, segundo Aguinaldo, um microcosmo do Brasil, muito no estilo dos polos fictícios que ele criou em sua obra para condensar a sociedade do país todo —a exemplo de “Roque Santeiro”, de 1985, que se passa na cidade fictícia Asa Branca, e “Tieta”, reprisada levante ano no Vale a Pena Ver de Novo, que mostra uma população moralista na inventada Santana do Áspero.

Aguinaldo fez isso também em “Vale Tudo”, de 1988, que escreveu com Gilberto Braga e Leonor Bassères. Retrato da desigualdade social brasileira e um deboche à escol, a romance se tornou uma das mais emblemáticas da TV.

Aguinaldo diz que não acompanha a novidade versão —se está mergulhado numa trama, evita ver outras para não bagunçar suas ideias. Mas acompanha o fenômeno que a romance se tornou nas redes sociais, principalmente o de Odete Roitman, antes vivida por Beatriz Segall e agora por Debora Bloch.

A notabilidade da vilã é tamanha que, segundo uma pesquisa do Datafolha que acaba de ser divulgada, exclusivamente 4% do público quer que ela seja assassinada, zero que era de 38% em 1988, segundo o mesmo instituto. Para o responsável, isso está relacionado à maneira uma vez que Bloch recriou a personagem.

“Beatriz Segall criou Odette uma vez que se ela fosse um robô treinado para praticar maldades. O penteado, a mecha de cabelos que se destacava, tudo contribuía para essa visão da personagem. Já Débora passa a sentimento de que Odete está exclusivamente se divertindo quando é má, mas, na verdade, ela não leva a sério a própria malvadeza. Sem deixar de ser sátira, ela humanizou a personagem”, diz ele.

A pesquisa mostrou ainda que um a cada três brasileiros está assistindo “Vale Tudo”. Aguinaldo sabe que tem a missão de prender a atenção da audiência que a romance formou, diz não estar exatamente tranquilo com a tarefa, mas quer remunerar para ver. “Sei que está na tendência falar mal, mas não me incomodo com isso”, afirma. “Desde que comentem, né? A pior coisa que existe é a tranquilidade dos cemitérios.”

Folha

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