Amor bruto e coletividade costuram curtas em Tiradentes 29/01/2026

Amor bruto e coletividade costuram curtas em Tiradentes – 29/01/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Os brutos também amam, nos lembra “Grão”, de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, um dos curtas que mais chamou a atenção da plateia da Mostra de Cinema de Tiradentes, durante a segunda sessão da seleção Foco, na noite de terça-feira.

Centrado em Leandro, um rapaz que vive de ensacar e vender a soja extraviada durante o transporte na cidade portuária gaúcha de Rio Grande, o trabalho põe o libido em primeiro projecto —sobretudo pela música, com os graves do funk putaria e suas rimas inusitadas.

Vide a primeira música, “Talarica”, na orifício, que acompanha uma viagem de carruagem do personagem. “Talarica é o caralho, quem divide multiplica./ Amiga que é amiga anda junta, bebe junta./ E senta na mesma pica.”

E assim se seguirão outras, em versos uma vez que “é o mundo se acabando/ eu gozando e ela me mamando”, que despertam um tesão cada vez mais violento em Leandro. Uma vontade, porém, que nunca desaguará, digamos, numa correspondência —ficará, literalmente, encalhada

Os brutos também se amam, mostra “Grão”, numa hilária cena em que Leandro grava um áudio de WhatsApp narrando uma transa provocativa, supostamente para uma mulher, só para logo trespassar pela moradia ouvindo a própria gravação, de novo e de novo. Noutro momento, tira fotos em frente ao espelho, sozinho, ou contempla o bíceps protuberante.

Na rua, seu rumo é o da solidão junto ao carrinho vermelho, xodó que o leva para cima e para grave. Ora está no lava-rápido, ora contempla uma vez que a potência dos alto-falantes faz vibrar os grãos de soja soltos pelo porta-malas. No sumo, terá uma rápida transação com um cliente —numa surpreendente ponta do professor e crítico Marcelo Ikeda.

Foi uma cena improvisada durante as filmagens, uma vez que lembraram Cozza e Rosa ao debater o curta com o público, na quarta. Assim uma vez que boa secção do projeto, rodado com poucos recursos, e numa traço tênue entre veras e ficção.

Finalmente, o Leandro, vivido pelo ator Leandro Gomes, que vemos em cena é e não é o próprio personagem, assim uma vez que seu carruagem, na verdade, era o único meio de transporte da produção, composta por quatro pessoas e uma câmera.

A intimidade com a paisagem portuária à noite também tem a ver com o histórico de Cozza —originário de Rio Grande—, enquanto a atenção à potência sonora e seus desdobramentos físicos remete às pesquisas de Rosa sobre os paredões automotivos e afins.

“Grão” é uma perenidade de outros trabalhos da dupla, uma vez que “Cassino” e “Madrugada”, nas quais Leandro Gomes também atuou, e antecipa um projeto de longa, batizado de “Grave”.

Se seguir a mesma traço, poderá reverberar com sucesso entre os estudos do masculino e das formas uma vez que ele mesmo se reprime —se somando a uma linhagem de títulos uma vez que “Oeste Outra Vez”, de Érico Rassi, e “A Outra Margem”, de Nathália Tereza.

“Grão” fechou uma seleção de curtas que relacionou visões de coletivo e quidam sob diversas perspectivas. No caso do também notável “Caldeirão”, de Milena Rocha, Weslley Oliveira e Oliveira Júnior, devotado à vida e às histórias, presentes e passadas, ao volta do comporta de Piripiri, no interno do Piauí, construído para tentar remediar as secas, ainda nos anos 1930.

É um trabalho onde o paisagem colaborativo entre os realizadores e a comunidade se evidencia de forma manente e metalinguística, conforme eles cruzam observações da vida cotidiana, histórias folclóricas, imagens de registro e esquetes com participantes de oficinas promovidas na região. Dessa mistura, surgem lampejos de bom documentário, na vontade de falar muito menos de si e do mundo que de sua vila.

A coletividade assumiu traços míticos em “Kakxop Pahok: As Crianças Cegas”, animação de Charles Bicalho e Cassiano Maxakali, a partir de uma narrativa do povo indígena da Povoado Escola Floresta, em Teófilo Otoni, interno de Minas Gerais.

Trata, em suma, do penalidade imerecido e da vingança de três meninos pequenos, obrigados a deitar com as mães uns dos outros depois seus pais terem saído para caçar e não voltado. Mas um dia os homens retornam e decidem arrancar os olhos de dois deles, e exclusivamente um olho do rapazinho que ainda consideram virgem. Com esse resto de visão, ele conduzirá seus pares para o fundo do mar, onde um grande peixe os ajudará a matarem seus pais.

Para Bicalho, o mito originário repercute uma leitura do anti-Édipo, iluminada pelos costumes, cores e a língua dos Maxakali, com quem trabalha há muitos anos. Oriente, aliás, é o terceiro filme de uma trilogia, com desenhos produzidos pelos próprios indígenas da povoado.

Por termo, “Cinema Moderno”, do recifense Felipe André Silva, espantou ao pôr o dedo na ferida da própria curadoria deste e de outros festivais —não à toa, ele já fez secção da equipe curatorial de Tiradentes no pretérito.

São basicamente duas cenas: na primeira, uma espécie de alter ego do cineasta, vivido pelo artista não binário Guga Patriota, põe em cena questões sobre ser um cineasta gay, preto e pobre; o quanto isso garante a ele certa proeminência no círculo artístico e na competição por editais e afins.

Logo, isso se conecta com um de seus filmes anteriores, “Cinema Contemporâneo”, no qual relata quando sofreu um insulto sexual na puerícia, e com o veste de qualquer crítico ter dito que seu longa “Passou” pertencia a qualquer outro tempo —daí ser supostamente moderno em vez de contemporâneo. Em seguida o plano-desabafo, sobre um palco, os intérpretes e o próprio diretor sapateiam sob um único spot de luz.

Silva não foi ao evento, mas pediu que amigos lessem por ele uma epístola de apresentação na estreia e, depois, no debate. Em um deles, o responsável questiona se valeu a pena rifar seu sofrimento, e diz que esta é sua primeira comédia —”rir para não chorar, não matar, nem morrer.” Questões pungentes, mas que provocaram um estranho silêncio.

O jornalista viajou a invitação da Universo Produção

Folha

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *