Anatomia da destruição dita o futuro na Bienal de Istambul

Anatomia da destruição dita o futuro na Bienal de Istambul – 21/11/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Uma traço vermelha corta o pavimento de pedra de um velho orfanato, jardim estorricado agora atravessado por uma artéria pintada na cor do sangue, zero mais que um canudo de chuva que mata a sede das vegetais ao mesmo tempo que desenha uma fronteira em mesocarpo viva, longe de cicatrizar.

Não é um acidente que a floresta às avessas, onde árvores crescem em barris de petróleo e uma empilhadeira descansa sobre um pedestal de mármore, obra do artista palestino Khalil Rabah, seja o abre-alas da atual Bienal de Istambul, o retrato sedento de um mundo conflagrado, que agoniza, mas não morre, pelo menos na visão de artistas mais do que acostumados com o roçar quotidiano da morte com a vida, a hecatombe porquê rotina.

Dói, e há um tanto de desaforo, de ingenuidade, medo e letargia, desespero e cansaço nisso tudo. Os trabalhos orquestrados na mostra pela libanesa Christine Tohmé, nome medial da arte contemporânea no Oriente Médio adiante da mostra, são esqueletos de uma arquitetura que se quer corpo, concreto feito de ossos, vidro feito de pele. Os bichos mutilados, nós entre eles, respiram pelas frestas de cortinas, paredes, véus, muros, rodovias, boates. É a anatomia da devastação porquê âncora de um horizonte que depende de aparelhos para sobreviver.

Os grandes canteiros de obras que hoje rasgam a metrópole turca do firmamento à terreno, numa ânsia especulativa em que hotéis de luxo e terminais de cruzeiros disputam a traço do horizonte com os minaretes das mesquitas, guerra que tendem a lucrar, espelham essa fúria.

Rabah alegoriza em sua obra a perda brutal das raízes de um povo que vem sendo varrido de sua terreno, os palestinos expulsos da Tira de Gaza, ou sepultados ali, à sombra de projetos de uma riviera resplandecente. Os deslocamentos são impossíveis, embora não pareçam. O outro lado da traço vermelha, num repercussão sinistro dos esforços —ou falta deles— diplomáticos, é logo ali, tão perto que se perde de vista.

É também o que evoca a brasileira Ana Vaz numa obra que traz o deserto distante da Argélia para o coração de Paris, onde vive. Não são as areias do Saara sobre os automóveis de Roma, cantadas na voz de Maria Bethânia, mas o pó rubro lançado ao ar pelos testes nucleares da França em sua antiga colônia africana do outro lado do Mediterrâneo, o tal vento vermelho que a artista aponta porquê sinal cromático indiscutível de um colapso urbano, as ambições de Haussmann soterradas por um apocalipse turbinado pelas mudanças climáticas.

Vaz faz em sua obra o que os organizadores da mostra chamam de uma etnografia às avessas, a contrapelo. É uma radiografia dos rachas na estrutura urbana atual de Paris, cindida entre o esplendor decadente de seus distritos mais centrais, onde se roubam joias à luz do dia no Museu do Louvre, e as periferias periclitantes de pretos e árabes raivosos, a vida que pulsa pela cidade que tenta sufocar essa própria força vital, mesmo que flutue sobre todas as cabeças o rio vermelho do deserto feito mina de gente.

Na contramão, o galicismo Valentin Noujaïm não precisou ir tão longe nem no tempo nem no espaço. Suas gárgulas pós-modernas, monstros de concreto que mostram línguas e dentes afiados em máscaras que emergem de estruturas formadas por vergalhões, o revérbero das feras escondidas na placidez das construções, são a antessala de um inferno —ou paraíso— subterrâneo.

Logo ao lado, seu documentário estruturado porquê se fosse uma vegetal arquitetônica mergulha na história cavernosa do vetusto Pacific Club, boate no subsolo de um estacionamento do que era portanto uma monstruosa teoria de horizonte para Paris, o horror de La Défense.

É irônico que o bairro-monumento levantado porquê celebração da Revolução Francesa em contraponto aos delírios da sinceridade selvagem dos bulevares no meio da trama medieval das ruas parisienses seja o grande símbolo de erosão atual de uma metrópole em ebulição, atravessada por tensões.

Noujaïm resgata o fervor da pista de dança, a euforia de noites sem termo, tendo porquê tecido de fundo naquela dezena de 1980 a epidemia da Aids que ceifava vidas aos montes. A boate era o refúgio hedonista daqueles em procura de um lugar para invocar de seu na capital francesa, mesmo que esse lugar fosse o buraco embaixo de um estacionamento, e ao mesmo tempo terreno fértil para a propagação do vírus.

Vida e morte se encontram o tempo todo na mostra, dor, adrenalina e prazer, também. No terraço de um vetusto prédio de escritórios transformado em galeria de arte à ourela do Bósforo, o libanês Marwan Rechmaoui construiu um playground ao mesmo tempo sinistro e singelo, brinquedos de tamanho exagerado que evocam a inocência da puerícia ao mesmo tempo que lembram que todo jogo tem vencedores e perdedores, estes últimos, no caso das guerras que sempre marcaram o seu país, punidos com a morte, o sangue entornado num momento de êxtase.

Outras arquiteturas ali ecoam essa dualidade, o sinistro latente no singelo. Das pilhas de roupas, do menor tamanho, de um bebê, ao do adulto, obra da libanesa Stéphanie Saadé, à vivenda de paredes de acrílico com estampas de flores de Elif Saydam, do Canadá, e outra de tecidos e colchas de retalhos, da argentina Celina Eceiza, o espaço doméstico assim porquê aquele do corpo é eviscerado.

O lar que acolhe na verdade se revela câmara de ecos e traumas, o lugar que rejeita o corpo trans em sua transparência, mais opaca do que cristalina, a improvável puerícia que chega à vida adulta em territórios em guerra ou a vivenda de falsas peles de tecido que disfarçam a brutalidade do concreto.

Esses são o avesso do espaço ocupado pelos homens, os motores dos conflitos que varrem o orbe. Eles atravessam as ruas e avenidas de Lagos a toda velocidade em suas motocicletas, sabendo que arriscam a vida por uns trocados embora gozem com o risco, porquê mostra o filme da britânica Karimah Ashadu.

Eles também entram no ringue de luta livre nas pinturas do libanês Akram Zaatari. Na série de telas, um meandro único na obra do artista publicado por seus filmes e suas fotografias, Zaatari mostra homens em combate, a fricção da pele contra a pele. É um treino de força retratado na sossego de um flerte, quase ensaios de posições sexuais. No fundo, é a síntese de uma exposição que disseca a violência e toda a sua brutalidade pelo prisma do paixão mais selvagem.

Folha

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