'animais perigosos' é filme de simplicidade narrativa 17/09/2025

‘Animais Perigosos’ é filme de simplicidade narrativa – 17/09/2025 – Ilustrada

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“Animais Perigosos”, de Sean Byrne, é um suspense com predadores do mar, garotas jovens e um psicopata possuinte de um paquete. Fosse dos anos 1980, seria mais um daqueles filmes vagabundos que cinéfilos jovens ou sem preconceitos adoram.

De face, temos um prólogo que nos coloca frente a frente com Tucker, papel de Jai Courtney. É um vilão de reverência que golpeia um varão com facadas e o joga para servir de almoço dos tubarões.

Antes disso, esse varão e sua amiga tinham sido colocados em uma gaiola e submergidos para observar os tubarões de perto. Mal sabiam eles que estavam se metendo com um fanático cuja teoria de show perfeito é o de uma pessoa sendo devorada pelos tubarões que, pelo hábito, gostam de permanecer perto de seu paquete.

A amiga, desesperada, é mantida em cativeiro até chegar a hora do show, ou seja, a hora que surge uma espectadora para o festim dos predadores.

Estamos diante de um réplica de simplicidade narrativa, que aposta numa tensão permanente, e a tempera com elementos de filmes fuleiros e algumas concessões para recrutar espectadores menos despojados —um romance em promanação, por exemplo.

Um filme vagabundo, quando cai nas graças da cinefilia, é uma prenúncio à doutrinação do paladar médio, aquele que rejeita o que é muito intelectualizado, mas se afasta do que não passa por qualquer crivo suspeito de mínima sofisticação.

O bom cinema pode subsistir também nos filmes que se apresentam inicialmente uma vez que vagabundos, ou chulos, uma vez que comprovam Brian De Palma e Paul Verhoeven, dois mestres dessa arte de unir o paladar reles ao eminente sem passar pelo médio.

Vejam, por exemplo, a sequência inicial de “Carrie: A Estranha”, dirigido por De Palma, com seu jeito de propaganda de sabonete, ou o ainda subestimado “Showgirls”, de Verhoeven. São duas obras-primas. Mas os adeptos empedernidos do paladar médio os consideram vagabundos. Má sorte deles.

Voltemos ao caso de “Animais Perigosos”. Pelas concessões, ele não faz o que os cineastas mencionados supra faziam muito muito. Ele sobe até uma certa lanço, fazendo com que o paladar reles seja sustentado pelo paladar médio e vice-versa.

Na verdade, é justo pensar que o paladar médio, mais palatável ao maior número de pessoas, incluindo as que têm com o cinema uma relação superficial, acabou se ajustando a alguns ingredientes do filme vagabundo, para recrutar certa parcela do público. Tudo pode ser disposto em prateleiras e catalogado para venda.

Sean Byrne, com a ajuda do roteirista Nick Lepard, escolheu uma protagonista, a surfista Zephyr, interpretada por Hassie Harrison. O que ela faz em cena não deve zero aos Rambos e Conans dos anos 1980, mas une à brutalidade alguma perdão e perceptibilidade. É a heroína ideal para tempos de representatividade.

No início, Zephyr se envolve rapidamente com um jovem rico, Moses, papel de Josh Heuston. Mas ela o abandona para não ter sua liberdade ameaçada.

Pois é justamente a liberdade que ela perderá ao ter seu caminho cruzado com o de Tucker e ser obrigada a entrar num jogo que pode ser mortal. Moses, todavia, foi fisgado, e por isso começa a investigar o desaparecimento de Zephyr.

O filme é ambientado na Austrália, dirigido por um australiano, e com os dois atores principais australianos —enquanto a atriz principal é americana de Dallas, Texas.

Funciona muito a oposição entre a imensidão azul do mar e a claustrofobia do porão do paquete. Esse choque entre os espaços abertos e os opressores faz muito ao filme, e é estabelecido já no primórdio, com a clara oposição entre o espaço descerrado de eminente mar e a gaiola sendo substituída pelo cativeiro insalubre.

“Animais Perigosos” passa ainda por algumas questões interessantes. Da similaridade com “Tortura do Terror”, clássico inglês de Michael Powell, retém pouco, pois o filme de Byrne não tem, nem quer ter a classe do filme de Powell.

A urgência de uma plateia, por menor que seja —e, no caso desta trama, uma pessoa basta— remete à teoria de que uma obra de arte só nasce quando encontra seu testemunha. Por isso se diz que o promanação do cinema foi no dia da primeira exibição pública, em 28 de dezembro de 1895, de alguns curtas produzidos pelos irmãos Lumière.

Por término, há uma congregação entre a natureza e a protagonista Zephyr, poupada, uma vez que que por milagre, por um tubarão edaz. Talvez por seu nome valer, na mitologia grega, o deus do vento suave que sopra do oeste anunciando a primavera e o florescimento.

Folha

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