Anti: Rihanna ecoa protesto contra mercado dez anos depois

Anti: Rihanna ecoa protesto contra mercado dez anos depois – 28/01/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Dez anos se passaram e o protesto de Rihanna ainda ecoa. O seu último disco, “Anti”, se provou, com o passar da dezena, um dos projetos mais inventivos desses tempos, um híbrido de R&B, pop e música opção que nem Rihanna nem outros artistas do seu porte se permitiam fazer. Não porque não queriam, mas porque ouviam que talvez não valesse a pena aventurar. Até que Rihanna se cansou.

O título do álbum passou a fazer muito mais sentido. “Anti” é exatamente o que ele se anuncia, uma obra do contra, precisa ser antipop, antimercado e até antifãs, de certa forma —por fim, se opôs às expectativas e isolou Rihanna em um retiro que dura desde portanto.

Mesmo os admiradores mais fiéis perderam as esperanças quanto ao seu retorno à música. Rihanna não esconde que está feliz longe desse universo, ainda que vez ou outra prometa um novo álbum, sem muito exaltação.

Se antes ela operava em ritmo industrial, cumprindo a silabário de diva pop —lançava um álbum por ano, fazia dezenas de videoclipes, emendava turnês—, depois do “Anti” Rihanna parece ter se oferecido por satisfeita. Na obra, a cantora se propôs a desafiar o pop genérico que vinha tomando as paradas e a sua própria discografia.

“Não quis me prender a zero que as rádios gostassem. Se resignar é o pior sentimento do mundo. Faz você se sentir um mentiroso. Eu não queria me repetir ou fazer só o que venderia muito”, afirmou à revista Vogue na idade.

Essa angústia se anuncia já na fita de início, “Consideration”, que Rihanna canta com a hoje paparicada SZA, em que implora para que um estremecido —ou o próprio ouvinte— a deixe fazer as coisas do jeito que quiser. “Você qualquer dia vai me respeitar? Não/ Por que você nunca me deixa crescer?”.

O desabafo é cantado de forma quase agressiva, um tanto incomum às divas pop da idade, ainda que Rihanna nunca tenha sido exatamente indefesa e fofa. A fita, ela disse, foi crucial para entender que sonoridade queria para o seu oitavo disco. Mirava um tanto atemporal.

Por isso apostou na estranheza, porquê em “Higher”, que ela canta, gritando, sem se preocupar em estar afinada. É uma performance rouca e crua, zero que coubesse em uma rádio. E isso importava. Em 2016, o streaming ainda não tinha o peso de hoje.

Rihanna gravou “Higher” de madrugada. Cansada de tanto trabalho, ela tomou um uísque que cita na letra e aproveitou a quentura no corpo para gravar só mais uma cantiga antes de ir dormir. Parece bêbada quando pronuncia as últimas palavras.

É sob essa aspecto de inconsequente que o “Anti” se constrói, porquê se as faixas tivessem surgido da noite para o dia, produzidas às pressas. Mas o disco, na verdade, se aproveita desse caos organizado para substanciar que a proposta ali é justamente ir contra a teoria de imediatismo.

“Woo” sintetiza isso muito. A fita promiscuidade distorções, um insignificante referto de ruídos e gemidos, tudo sob uma atmosfera sombria, quase hostil. Está longe da produção polida de “Diamonds” ou da pegada superfeliz de “We Found Love”, para referir dois megahits de Rihanna.

Isso não significa que o “Anti” não seja pop também. Nele está um dos maiores sucessos comerciais da cantora, “Work”, de refrão repetitivo, feito para rebolar até o solo. À primeira ouvida, “Work” não parece ter a inventividade do resto do álbum, mas uma audição mais atenta logo pesca referências espertas de reggae e de música caribenha. Rihanna nasceu em Barbados, uma ilhéu no Caribe Oriental.

A estética do álbum também reforça o seu caráter combativo. A jovem estampada na toga, uma representação de Rihanna imatura, tem os olhos cobertos por uma diadema grande demais para a sua cabeça. É a forma da artista manifestar que, antes do “Anti”, ela nunca enxergara avante de verdade.

Rihanna saiu de cena para que entrassem outras. O “Anti” clareou os caminhos de outras artistas que se propuseram a ousar no R&B, porquê a própria SZA, que um ano depois de trovar no “Anti” pôs os críticos de joelhos com o disco “Ctrl”. Ganharam força também Summer Walker, Kehlani e Muni Long.

Hoje Rihanna quer mais é passar o tempo com os filhos e com o marido, o rapper A$AP Rocky. Nas horas vagas, trabalha porquê empresária na Fenty Beauty, sua marca de maquiagem. Ela ameaçou um retorno à música ao se apresentar no Super Bowl há três anos, e atiçou os fãs ao trovar na trilha sonora do novo filme dos Smurfs. Em 2022, fez uma cantiga para o segundo “Pantera Negra”.

Zero disso, porém, foi para a frente. Rihanna parece estar com a diadema muito presa à cabeça agora.

Folha

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