Um caminho começa pelo corpo, pelo solo que racha, pela espada-de-são-jorge que finca destinos e pelos símbolos que se impõem antes mesmo de pedir permissão para subsistir. “Promanação”, mostra individual de Antonio Obá em papeleta na Mendes Wood DM, na Barra Fundíbulo, ganhou título antes mesmo das obras.
O artista percebeu que lidava com um fio que atravessava tudo o que vinha criando. “Há um caráter de celebração. Um ponto de partida para tudo o que passamos até o desfecho, que pode ser a morte, mas também tantas mortes simbólicas”, diz ele, conversando enquanto caminha na montagem da mostra.
Comemorar o que nasce, o que acaba e, no meio, ritualizar as dúvidas, sortes e encruzilhadas. É nesse pausa da vida que Obá opera uma dramaturgia de símbolos que não se explicam, mas convocam o olhar. “Não tenho pretensão de transformar zero em bula. Os símbolos já estão ali. A gente somente maneja humildemente, tenta fazer um tanto com o que está presente”, contemporiza, reforçando o paisagem autorreferente das pinturas, que partem de memórias e experiências próprias em procura de expansão.
Logo na ingresso do espaço, um altar-portal arma o primeiro embate. Uma espécie de ori em bronze é atravessado por um prumo que aponta para uma garrafa de cachaça, dedicada a Exu. O jogo é ladeado por duas colunas de madeira cheias de pregos —metade cravada, a outra, voltada para fora. “Não é somente o vestimenta de não querer fazer mal que impede alguém de melindrar. Estando vivo, você também perfura”, diz.
A dualidade de caminhos ronda toda a mostra, que diadema um ano privativo para artista. Obá começou 2025 com a individual “Festim da Espírito” em Paris, na filial francesa da galeria paulistana, e foi objecto de “Finca-Pé: Estórias da Terreno”, itinerante que passou pelos CCBB do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte e agora está na morada da instituição em Brasília —próxima à sua Ceilândia natal. Desta última vem “Ka’a Pora”, instalação de 2024, com pernas e galhos de bronze que falam sobre morte e renovação.
A relação com o Concentrado aflora em metáforas de paisagens que estão sob o seu olhar, as árvores queimadas pela estiagem e o solo rachado que insiste em se reconstituir com o tempo. Ao fundo, uma sala fechada —batizada de “Situação Terreiro: Acese”— abriga um cenário de terreno batida, com colunas ascendentes de búzios que pairam sobre peneiras douradas e convocam uma força de elevação, tentativa de escape ou subida por meio do gesto ritual.
O corpo da exposição abriga também uma série inédita de pinturas e desenhos, além do vídeo “Seduzido”, que marca um retorno de Obá à linguagem performática.
O artista se coloca porquê vetor de referências acumuladas. Há imagens que brotam de memórias domésticas, porquê as bacias que a sua avó usava para vedar o sangue de galinhas; a morte convertida em iguaria e perpetuidade.
Assim porquê outras que partem de observações do cotidiano: os passeios dominicais com sua cadela que viram metáfora místico ou a imagem do varão iluminado por sombras bífidas, um ignoto tomado em frame de um vídeo diletante no Rio de Janeiro.
Em tudo, uma tensão que pulsa entre o sagrado e o comum, o corpo e o invisível, sem descolar a espiritualidade da experiência concreta. “Tornar tudo visível é quase uma espécie de homenagem, na qual me coloco porquê cabrão expiatório. Sou vítima desses elementos que vêm antes de mim e não tenho porquê fugir. Vou ressignificando de alguma forma, muito com essa sensação de uma certa penitência”, afirma.
Ainda mais íntimas, chamam atenção a série “Sonambúlicas”, imagens de sonho que são frutos de tirocínio de ilustração livre, a lápis, no termo do dia de trabalho. E as 22 telas que reveem, ao seu modo, os arcanos do Tarô de Marselha.
No processo, Obá tirava as cartas para si, internalizava seus símbolos e porquê aquilo dialogava com o que vivia naquele momento, e devolvia ao mundo suas versões —que ele define mais porquê interpretações do que releituras.
No termo, o que poderia parecer mistério se revela porquê um gesto radical de compartilhamento. Obá oferece o que pulsa nele —memórias, religiosidade, mitologias pessoais e universais— para que o testemunha transforme em experiência própria.
“Promanação” fala de coragem, da muchacho que pula nua a murado, do corpo que insiste em viver, do rito que protege quando tudo é instável. Uma poética moldada por contradições —penalidade e fé, risco e devoção— que reencena a história com a intensidade de quem deseja reescrevê-la.
