Pat Burgener, 31, viu-se por alguns dias distante de forma inesperada de Livigno, palco das provas de snowboard dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão e Cortinado.
Na semana passada, o desportista —uma das esperanças de medalha do Brasil, ele fará a sua estreia olímpica representando o país em seguida duas edições competindo pela Suíça— acordou sem saber onde estava, em que data vivia ou porquê havia chegado até ali. O teto de um pequeno quarto de hospital na região de Laax, na Suíça, era o que via.
Durante os treinos finais para a prova de halfpipe, Burgener tentou executar um switch backside triple cork, manobra nunca realizada na história da modalidade e que, segundo ele, pode ser a chave para prometer a sonhada medalha de ouro. O resultado foram uma queda brutal e uma concussão cerebral.
“Eu sei que essa manobra é difícil, mas ela também pode me dar o primeiro lugar cá nos Jogos. Caí durante o treino e acordei já no hospital, sem saber até quem eu era. Não me lembrava de zero do que havia feito. Perguntava: que dia é hoje? Foi uma experiência de quem estava morto e acordou com vida”, disse à Folha.
A rápida recuperação permitiu que Burgener confirmasse presença na prova. Mas, mais do que competir, o snowboarder chegou a Milão-Cortinado com a sofreguidão de superar o melhor resultado da história do Brasil em Jogos de Inverno —o nono lugar de Isabel Clark no snowboard cross, obtido em Turim, em 2006, também na Itália.
“Existe a pressão. Vim para trazer a vigor do Brasil com minha música, com meu estilo e com meu resultado. Treinei muito o ano todo e estou pronto para a melhor performance verosímil. Acho que luto, pelo menos, entre os nove melhores”, afirmou.
O snowboard é o único esporte olímpico de neve disputado com prancha, não com esquis, e terá nesta edição cinco categorias diferentes, divididas em 11 provas: slopestyle, big air, slalom gigante paralelo, snowboard cross e halfpipe, a única em que o Brasil estará representado.
A estreia de Burgener será na quarta-feira (11), a partir das 15h30 (de Brasília). Caso fique entre os 12 melhores, ele disputará a final na sexta (13).
A prova de halfpipe ocorre em uma pista em formato de “U”, onde os atletas fazem manobras nas extremidades e são julgados pela sua dificuldade. Cada competidor tem recta a três descidas, e somente a nota mais subida é contabilizada.
Pat Burgener já não é mais um novato. Ficou em quinto lugar em Pyeongchang, em 2018, e terminou na 11ª colocação em Pequim, em 2022, competindo pela Suíça em ambas as edições. A mudança para o Brasil, país onde sua mãe cresceu e onde ele morou por períodos na puerícia foi, além de estratégica, cultural.
Ele descreve a rigidez suíça porquê um contraste à mentalidade brasileira, que define porquê “oportunidade”. Hiperativo quando menino, chegou a praticar capoeira e diversos outros esportes. Hoje, arrisca-se no surfe, no skate e no kung fu.
“Minha mãe sempre me disse que o Brasil é um país maravilhoso. Eu sempre tive essa mentalidade [brasileira] de que a lar está oportunidade para toda a gente. Queria mostrar que você pode ser o que quer: músico, snowboarder, surfista”, disse.
“Para mim, esse projeto é provar isso. Eu não acreditava há um ano que poderia proteger as cores do Brasil nos Jogos, mas agora estamos cá.”
A experiência de duas Olimpíadas lhe traz a calma necessária para mourejar com a pressão, mesmo diante de concorrentes de peso porquê o australiano Scotty James e a potente equipe japonesa.
Enquanto afiava as bordas da prancha em Laax, Burgener também afinava o violão. O desportista aproveita a visibilidade olímpica para lançar “O Dia”, sua primeira melodia composta inteiramente em português.
Para ele, a curso músico passa longe de mero hobby. Ele a leva tão a sério porquê a esportiva, tem uma filete com milhares de reproduções no Spotify e precisa executar um calendário de apresentações. É o que o impede, segundo ele, de sucumbir à tensão.
“A música me ajuda a colocar a pressão de lado. Oferece uma visão de que tem mais do que o esporte na vida. É importante permanecer com essa sensação no coração”, afirmou.
A rotina de “rockstar da neve” incluiu uma turnê com sete concertos na Europa durante o verão e visitas ao Brasil para promoção. Uma agenda que ele admite ter tornado os últimos seis meses “os mais difíceis da vida”, conciliando o auge físico com a curso artística. Depois de competir em Livigno, ele vai se apresentar na Moradia Brasil, espaço que reúne patrocinadores, atletas e fãs brasileiros em Milão durante os Jogos Olímpicos.
“Senti que a vida tem que se aproveitar todo dia, todo momento. Nós vivemos para o momento, não para o resultado.”
