Após recorde, joão do pulo teve medalhas olímpicas e dores

Após recorde, João do Pulo teve medalhas olímpicas e dores – 14/10/2025 – Esporte

Esporte

“Pode crer, tão cedo nenhum outro desportista conseguirá saltar uma vez que você”, disse Adhemar Ferreira da Silva, que recebeu João Carlos de Oliveira em São Paulo em seguida a conquista da medalha de ouro do salto triplo nos Jogos Pan-Americanos de 1975, na Cidade do México, há 50 anos.

Adhemar tinha razão. Ele próprio havia estabelecido cinco vezes o recorde mundial da modalidade, de 1950 a 1955. Sua melhor marca foi de 16,56 m, na própria Cidade do México, onde João Carlos virou João do Pulo e obliterou os registros anteriores com incríveis 17,89 m.

A altitude do sítio, 2.240 m, com menor resistência do ar em relação a cidades mais baixas, certamente influenciou no desempenho. Mas João deixou evidente ao longo da curso que o resultado não era mero fruto do ar rarefeito. Em 1978, por exemplo, em Bratislava, conseguiu o que era a melhor marca ao nível do mar: 17,44 m.

Em qualquer profundidade, João era bom em buscar a intervalo, uma vez que haviam sido Adhemar e outros grandes nomes do atletismo brasílico –Geraldo de Oliveira, Hélio Coutinho da Silva e Nelson Prudêncio–, de tradição no salto triplo. Assim, em seguida a glória no Pan, com um recorde que só seria derrotado dez anos depois, o jovem de Pindamonhangaba se tornou uma grande esperança de medalha olímpica.

Em 1976, atrapalhado por uma lesão na pilar, buscou o bronze. Em 1980, em Moscou, também foi bronze, mas em um cenário dissemelhante.

Boa segmento da comunidade do atletismo tem certeza de que João obteve na disputa olímpica saltos superiores a 18 metros. No contexto da Guerra Fria, em uma edição dos Jogos Olímpicos realizada sob boicote dos Estados Unidos e para exaltação da União Soviética, o ouro e a prata ficaram com os soviéticos Jaak Uudmäe (17,35 m) e Viktor Saneyev (17,24 m). O brasílico, com 17,22 m e exclusivamente dois saltos validados, ficou em terceiro.

“O que atrapalhou o João foi ele ter sido roubado”, afirmou Pedro Henrique de Toledo, o Pedrão, em entrevista concedida à Folha quatro décadas em seguida a disputa, ainda ressentido. “Ele fez saltos, acredito, supra dos 18 metros. Com certeza, ele ganhou a prova. Mas eles davam ‘foul’ para ele. Foi um incidente muito triste.”

A curso do craque acabou no ano seguinte, em um acidente de carruagem na rodovia Anhanguera, nos periferia de São Paulo. Em um longo processo de recuperação –durante o qual foi visitado por autoridades uma vez que o presidente da República, João Figueiredo, e o governador de São Paulo, Paulo Maluf–, teve a perna direita amputada, aos 26 anos.

Começou, portanto, uma novidade período na trajetória de João –que, além de ter derrotado o recorde mundial no Pan e conquistado duas medalhas olímpicas, foi tricampeão da Despensa do Mundo de atletismo, predecessora do atual Mundial. Ele foi duas vezes eleito deputado estadual em São Paulo, com mandatos que se estenderam de 1987 a 1994.

O ex-atleta fracassou nas duas tentativas de eleição subsequentes, teve problemas com sócios e chegou a ser recluso pelo detença no pagamento da pensão alimentícia de uma filha. Portanto, recolheu-se em Guarulhos, cidade da Grande São Paulo que adotou, e se isolou.

A rotina nos anos finais de sua vida foi descrita em reportagem publicada pela Folha em maio de 1999, quando já estava hospitalizado, em coma, muito perto da morte: “Caminhar no termo da manhã para o bar mais próximo, tomar uma, duas, três cervejas, testemunhar aos telejornais esportivos do meio-dia, pedir uma, duas, três cervejas para viagem, passar o resto do dia trancado, só, quase sempre em jejum”.

João Carlos de Oliveira morreu em 29 de maio, “com broncopneumonia e hepatite C, causada por uma cirrose”. A reportagem da Folha na ocasião apontou que, segundo vizinhos, amigos e familiares, ele passou seus últimos anos “em reclusão, arredio, com uma rotina autodestrutiva”.

Ana Maria, sua mana, negou diversas vezes que a cirrose tenha sido causada pelo alcoolismo. Apontou que foi uma decorrência da hepatite C. De um jeito ou de outro, foi em um cotidiano de consumo alcoólico permanente que João do Pulo morreu, aos 45 anos.

Francisco Jeová era possessor do bar da rua em que João morava, em Guarulhos, e teve sua filha batizada com João uma vez que paraninfo. De concórdia com seu relato em 1999, o velho recordista bebia “só cerveja”.

A alegria, naquele momento, resumia-se ao futebol.

“Ele não chegou a ingerir demais”, disse Jeová, antes de apresentar uma exceção: “Só em dia de título do Corinthians”.

Folha

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *