Arquitetura vira campo de batalha entre direita e esquerda

Arquitetura vira campo de batalha entre direita e esquerda – 27/12/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

A construção é tão monumental que parece ter sido feita para intimidar. Na frente, oito colunas brancas sustentam o frontão, uma grande estrutura em formato triangular.

É uma constituição facilmente vista em filmes épicos, livros de história ou numa procura rápida por pontos turísticos de Atenas ou Roma. No entanto, ainda que a inspiração sejam os princípios greco-romanos, os alicerces desse prédio estão em terras brasileiras.

É uma das filiais da Havan, a loja de departamentos criada pelo empresário Luciano Hang há quase quatro décadas e que, desde 1994, constrói suas unidades com inspiração na frente da Morada Branca, a residência solene do presidente Donald Trump.

Para premiar a pasmo de Hang pelos Estados Unidos, hoje mais de 70 desses empreendimentos viraram cartões-postais pelo Brasil, em próprio por acompanharem enormes réplicas da estátua da Liberdade.

Mais do que um pastiche do estilo clássico, a pompa adotada por Hang, apoiador de Jair Bolsonaro nos últimos anos, é um dos sinais dos embates que transformaram a arquitetura num campo de guerra ideológico.

De um lado, figuras da direita olham para o pretérito em procura da solidez associada às tradições antigas, enquanto rejeitam os ditames do modernismo. Do outro, setores da esquerda tentam proteger de ataques o legado desse movimento —não vasqueiro iluminado por visões utópicas do século 20 pelo mundo, desde os projetos da escola alemã Bauhaus aos de nomes porquê Oscar Niemeyer e Lina Bo Bardi no Brasil.

Também apoiador do ex-presidente Bolsonaro, o cantor Gusttavo Lima causou burburinho quando mostrou ao mundo sua enorme mansão de estilo neoclássico, avaliada em R$ 50 milhões, batizada de Rancho Balada, na região metropolitana de Goiânia. Nas redes sociais, o imóvel foi definido porquê “greco-goiano”, tachado de cafona e comparado às lojas da Havan.

A internet, aliás, é um dos principais palcos dessas disputas. No Instagram, perfis se dedicam à resguardo da arquitetura de viés tradicionalista. Uma dessas contas é a do escritório Alvear Arquitetura Clássica, que tem 50 milénio seguidores.

“A história já testemunhou estilos magníficos. Da simetria das ordens gregas ao esplendor barroco que ainda hoje emociona. Cada era deixou marcas compreensíveis, belas e intencionais”, afirma uma das publicações da empresa, que anuncia projetos de diferentes matrizes, da renascentista ao estilo federalista americano. “Mas o modernismo do nosso tempo desafia qualquer lógica estética.”

Paulo Giacomelli, um dos fundadores do escritório e presidente do Instituto Liberdade, devotado à espalhamento do pensamento liberal, afirma que o empreendimento surgiu há seis anos porquê resposta a uma demanda de mercado. “As pessoas estão insatisfeitas com a supremacia arquitetônica do modernismo.”

Segundo ele, essa visão se tornou tão preponderante no país que as construções perderam identidade. “Se a pessoa chega um pouco mais tarde de uma sarau, ela tem dificuldade de encontrar a própria vivenda. Está tudo parecido”, afirma. “A arquitetura tradicional é ‘outsider’” —isto é, forasteira.

O termo, não por contingência, é um dos arquétipos associados a nomes porquê Donald Trump e Javier Milei, personalidades que se projetaram porquê alternativas a um sistema político que julgam ser falido e também corrupto.

“Na arquitetura, existe hoje uma zona de conflito”, diz o empresário. “É um movimento ‘outsider’ tentando se estabelecer dentro de um cenário marcado pela supremacia de ideias da esquerda.”

Não é isso, porém, o que pensa Rafaela Simonato Citron, arquiteta que também debate sua espaço de atuação nas redes sociais. “Eu já ouvi gente falar que existe uma doutrinação modernista nas faculdades, mas esse é um pensamento que ignora o contexto. A gente não aprende a projetar em um estilo ou em outro. Nós aprendemos a projetar construções e ponto final.”

Em janeiro, Citron decidiu produzir um vídeo depois de ver críticas ao modernismo em comentários no Instagram. No registro, a arquiteta pediu que seus seguidores ficassem atentos a publicações que glorificassem preceitos antigos. “Zelo, você pode estar caindo num exposição da extrema direita.”

O vídeo furou a bolha, chegou a outros nichos e quase trouxe uma dor de cabeça judicial à autora. Ela diz que tirou o material do ar depois um arquiteto tradicionalista ter dito que ela o associava ao fascismo. Recentemente, ela voltou ao tema ao lado de outro instituidor de teor, refletindo sobre porquê a percepção da venustidade é subjetiva.

“Toda vez que a gente fala sobre isso vem um perfil ligado à arquitetura tradicional manifestar que existe uma ditadura modernista. Outrossim, essas pessoas dizem que o estilo é deliberadamente mal-parecido.”

Não à toa, no final de agosto, Donald Trump editou uma ordem executiva intitulada “Making Federalista Architecture Beautiful Again”, ou fazendo a arquitetura federalista bela de novo. No texto, determina que edifícios públicos sejam construídos em conformidade com a arquitetura clássica e rechaça as correntes

de vanguarda, definidas porquê impopulares, sem perdão e pouco atraentes.

A medida gerou mal-estar no Instituto Americano de Arquitetos, maior associação de profissionais da espaço dos Estados Unidos. “Restringir as opções de arquitetura federalista a estilos da Antiguidade ignora a evolução procedente e limita nossa liberdade de gerar edifícios que atendam às comunidades modernas”, disse a organização em nota.

Na ordem executiva, a Morada Branca argumenta, porém, que a democracia americana havia sido fundada por defensores do estilo clássico, porquê George Washington, o primeiro presidente dos Estados Unidos, e Thomas Jefferson, responsável da Enunciação de Independência do país. “Eles procuraram conectar visualmente nossa república contemporânea à democracia da Antiguidade clássica, lembrando aos cidadãos não somente de seus direitos, mas também de suas responsabilidades.”

Pesquisadores, porém, são céticos em relação a isso. Para eles, o movimento de Trump tem menos a ver com tutelar os valores democráticos e mais com o libido de solidificar poder.

“Embora ele tente atualizar o classicismo, não se trata de uma volta aos valores da Grécia antiga”, diz Ademir Pereira dos Santos, professor de arquitetura do Meio Universitário Belas Artes, em São Paulo.

“Na verdade, essa é uma volta simbólica a Versalhes, na medida em que ele deseja estabelecer sobre Washington um controle inteiro, fazendo da capital o seu jardim pessoal e corroendo os valores democráticos que o levaram a ocupar a Morada Branca.”

Da mesma forma, no início deste ano, um membro do partido de direita radical Escolha para a Alemanha culpou os trabalhos da célebre escola Bauhaus por problemas econômicos de uma

região do país, já que seriam supostamente fruto de doutrinação comunista.

Não à toa, a instituição foi ameaçada pelos nazistas nos anos 1930 e fechou —muitos de seus intelectuais acabaram indo para os Estados Unidos carregando ideais antiburgueses. O Terceiro Reich de Adolf Hitler preferiu a arquitetura neoclássica para se vincular a uma suposta grandeza do Predomínio Romano.

Já na União Soviética, Josef Stálin fez alguma coisa parecido quando estimulou o desenvolvimento daquilo que ficou espargido porquê classicismo soviético. Embora estivessem em lados diferentes do xadrez político, ambos os ditadores pareciam entender a mesma coisa —prédios e monumentos não são

zero anódinos, mas a materialização do poder do Estado no espaço público.

“Essa associação simbólica funciona tão muito porque as pessoas pensam na arquitetura somente porquê forma, e não porquê uma extensão do poder”, afirma Luciano Muniz, professor da escola de arquitetura e urbanismo da Universidade Federalista Fluminense, a UFF. “Quando aceitamos o espaço porquê

ele nos é oferecido, aceitamos de forma involuntária a ideologia nele embutida.”

Outrossim, afirma o perito, construções ajudam a perpetuar ideologias ao fazer delas coisas concretas e duráveis. “É muito mais difícil impugnar um prédio do que uma lei ou um exposição. Portanto, a arquitetura serve para materializar simbologias.”

O conjunto de símbolos que a legado greco-romana evoca é principalmente interessante a figuras que almejam provar poder. O mais notável elemento é o caráter monumental das construções, que têm porquê traço mais habitual enormes colunas, escadarias intermináveis e grandes pórticos.

“A frente dominante e fortificada comunica permanência, solenidade e uma poder inquestionável”,

afirma Muniz. “O cidadão que sobe aquelas escadas é somente um visitante, e não o proprietário delas. A

estrutura lembra quem detém o poder.”

A ordem é outro elemento desse estilo que desperta interesse político, conforme já previa o tratado romano “De Architectura”, escrito por Vitrúvio no século 1º a.C. O documento recomenda que as construções tenham venustidade, solidez e utilidade, elementos que formam a chamada trindade vitruviana. “A simetria e a proporção são celebradas, mas não são neutras”, diz Muniz.

De entendimento com o pesquisador, esses aspectos naturalizam hierarquias, na medida em que se apresentam porquê fruto de uma racionalidade quase científica e, portanto, inquestionável. “Sob essa lógica, as instituições que prédios neoclássicos abrigam, porquê tribunais e parlamentos, também seriam fundadas numa racionalidade universal, e não em interesses de classe.”

O modernismo se opõe a isso tudo. “Ele está ligado a ideais de horizonte, de transformação social, de habitação coletiva e de Estado de bem-estar social”, diz Giselle Beiguelman, artista visual e professora da Universidade de São Paulo. “A sua abstração sem ornamento desestabiliza a teoria de tradição porquê alguma coisa fixo e procedente.”

Exemplo dessa vanguarda é o Copan, no núcleo de São Paulo, um dos edifícios modernistas mais conhecidos do Brasil. Projetado por Oscar Niemeyer em parceria com Carlos Lemos, o prédio abriga detrás da mesma frente apartamentos exíguos de 29 metros quadrados até grandes imóveis que podem chegar a 214 metros quadrados.

Críticos, porém, afirmam que esse estilo é restrito à escol financeira. Muniz, o professor da UFF, diz que a elitização do modernismo é fruto de seu esvaziamento enquanto projeto político. “Ao longo do século 20, ele foi progressivamente conquistado, domesticado e transformado em signo de eminência. Aquele modernismo que prometia uma paridade virou uma linguagem de poder das corporações, dando origem a grandes arranha-céus envidraçados.”

Prova disso é a profusão de prédios desse estilo no Brasil, onde existem murado de 21 edifícios com mais de 200 metros de profundidade em construção, segundo o Council on Tall Buildings and Urban Habitat, um organização internacional.

Balneário Camboriú, reduto bolsonarista no litoral de Santa Catarina, ganhou o sobrenome de Dubai brasileira por concentrar alguns dos edifícios mais altos do país. Nos últimos seis anos, a cidade concluiu cinco prédios com mais de 200 metros e, agora, planeja outros quatro com mais de 300 metros.

Um deles é o Senna Tower, que, com 500 metros de profundidade, quer se tornar o prédio residencial mais basta do mundo. A corrida se reflete nas metrópoles do país. Quatro anos depois de o Platina 220, na zona leste de São Paulo, receber o título de prédio mais basta da cidade, com 172 metros, ele deve perder o posto, em 2026, para o Paseo Elevado das Nações, na região sul, previsto para chegar a 219 metros.

Propagandeados porquê exclusivos, num misto de apartamentos, escritórios e shopping, são apostas em que as construtoras se destacam mais que a arquitetura autoral.

Apesar desse esvaziamento político, o modernismo continua visto porquê um estilo progressista, o que pode ser explicado por fatores históricos e econômicos.

Nas décadas de 1950 e 1960, investimentos sociais em áreas porquê saúde e habitação ganharam forma com edifícios brutalistas, uma das vertentes dessa escola. Neles, o dissimulação do revestimento deu lugar à crueza do concreto aparente, criando uma estética tão austera quanto a atmosfera que pairava sobre a Europa do pós-Guerra.

Diante da devastação e da penúria econômica provocadas pelo conflito, países daquele continente encontraram no brutalismo uma forma de reconstruir sua infraestrutura de forma rápida e barata. Uma vez que essa vanguarda se popularizou num período de políticas distributivas, ela ganhou a pecha de

esquerdista que a acompanha até hoje.

Nos últimos anos, exemplares do brutalismo vêm sendo demolidos no mundo, o que muitos veem porquê provável metáfora para o desmantelamento das políticas de bem- estar social do pós-Guerra.

A organização alemã SOS Brutalism registra 175 prédios que podem ser destruídos ou descaracterizados. Nos Estados Unidos, já foram demolidas obras porquê o hospital Prentice Women’s, em Chicago, e o conjunto habitacional Shoreline Apartments, em Buffalo, no estado de Novidade York.

Em sua ordem executiva recente, Donald Trump fustiga as diretrizes para a arquitetura federalista. Editado em 1962, o documento original orientou a construção de edifícios públicos no governo de John Kennedy —presidente associado a causas progressistas, porquê a luta por direitos civis.

Embora o documento não dê ênfase a um estilo específico, apoiadores de Kennedy consideram que a medida privilegiou o brutalismo em detrimento de outras vertentes.

“Ao rejeitar um estilo de design que defendia princípios progressistas, a gestão atual pode limpar a capital de quaisquer símbolos físicos de um período considerado por ela pervertido”, diz James Riqueza, pesquisador da Universidade Columbia, em Novidade York, e perito em história da arquitetura. “Tornar esse estilo fora de voga é também tornar as ideias dos anos 1960 ultrapassadas.”

Folha

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