Nascente foi um ano cinematográfico para o mundo da arte. Não faltaram perseguições, roubos e intrigas familiares. O roteiro mais dramático virou veras em outubro, quando o Louvre, o maior museu do mundo, foi invadido e saqueado em plena luz do dia. Os ladrões entraram pela janela usando um guindaste, surrupiaram joias da diadema francesa avaliadas em R$ 550 milhões e depois fugiram de scooter, sem deixar rastros —é improvável que os itens sejam recuperados.
Além de pupular o mundo, o caso deixou políticos e instituições em polvorosa na França. O investimento insuficiente e os sistemas de segurança defasados dos museus públicos do país ganharam o núcleo do debate público. A polêmica chegou rápido ao Brasil, menos de dois meses depois, com um choque de veras, quando dois homens assaltaram a Livraria Mário de Andrade.
O prédio no núcleo de São Paulo hospedava uma exposição em parceria com o Museu de Arte Moderna, o MAM, que está com a sede no parque Ibirapuera fechada temporariamente. Os ladrões armados levaram oito gravuras de Henri Matisse e cinco de Cândido Portinari que compunham a mostra “Do Livro ao Museu: MAM São Paulo e a Livraria Mário de Andrade”. Nenhuma delas foi recuperada ainda. Dois suspeitos foram presos, e a Interpol, Organização Internacional de Polícia Criminal, foi acionada para evitar que as obras saiam do Brasil ou sejam vendidas a colecionadores internacionais.
Nascente não foi o único caso de polícia de 2025. Em outubro, viaturas de polícia estacionaram na galeria Almeida & Dale, em São Paulo. Os agentes cumpriam um mandado de procura e mortificação em nome dos herdeiros de Alfredo Volpi, detrás de três telas desaparecidas do pintor, um dos mais importantes do modernismo brasiliano. Avaliados em R$ 6,4 milhões por um leiloeiro em 2019, os quadros não foram encontrados, mas o incidente colocou sob holofotes um imbróglio que já dura 17 anos.
As telas estavam em um lote de obras que sumiu em seguida a morte de Volpi, em 1988. A suspeita é que uma das filhas do pintor tenha se favorável indevidamente de segmento destas pinturas, sem declará-las no inventário —a outra segmento teria sido furtada durante uma invasão de propriedade. Desde logo, os outros dois filhos de Volpi procuram por todos estes quadros.
Carlos Dale, um dos donos da Almeida & Dale, mentiu à Justiça e assinou uma enunciação na qual afirmava estar em posse das três telas buscadas pelas polícia, quando, na verdade, ele havia vendido tais obras. Com ou sem as elas, um leilão deve ocorrer em breve com outros trabalhos de Volpi, marcando o fecho de seu inventário.
A Almeida & Dale também se viu às voltas com outra intriga familiar com obras avaliadas em milhões. Uma das telas mais importantes de Tarsila do Amaral, “Sol Poente” apareceu no pavimento da moradia do banqueiro Roberto Setubal, herdeiro do banco Itaú. Deslindar uma vez que a pintura foi parar lá virou uma preocupação do mundo da arte.
Isto porque o quadro –datado de 1929, da tempo mais valiosa da artista–, deveria fazer segmento do inventário de Jean Boghici, um dos principais colecionadores de arte do Brasil, morto em 2015. E, enquanto a partilha de seus bens entre sua viúva, uma filha e o inventariante da outra filha não terminar, “Sol Poente” precisaria permanecer regelado, sem circunvalar pelo mercado, segundo o processo da legado, que se desenrola em sigilo de justiça.
Segundo a ex-mulher do banqueiro, Daniela Fagundes, o quadro chegou até a residência do ex-casal via galeria Almeida & Dale. Mas a Almeida & Dale nega qualquer envolvimento com a tela. A herdeira de Jean Boghici, Geneviève Boghici, afirma que “Sol Poente” nunca saiu de seu lado e sugere que pode ter sido uma reprodução do quadro que chegou à moradia de Setubal.
A polêmica, porém, não se fez sentir somente nos bastidores do mundo das artes. A Bienal de São Paulo, a mostra mais importante do país, tem enfrentado críticas públicas por decisões de sua equipe curatorial, liderada por Bonaventure Soh Bejeng Ndikung.
O principal ponto de insatisfação é a escassez de materiais que ajudem a contextualizar as obras, uma vez que placas informativas. Para críticos de arte, essa escolha confunde as pessoas e priva o público de ter aproximação a dados importantes sobre os trabalhos.
Aliás, a bienal vetou a participação da princesa belga Marie-Esméralda Leopoldine em um debate. O motivo foi o genocídio perpetrado pelos belgas em suas colônias africanas. Porquê ela é sobrinha-neta de Leopoldo 2º, rei por trás da violência colonial, a curadoria decidiu retirar o invitação por temor de ofender os artistas da mostra, formada por 80% de integrantes da diáspora africana.
No mais, a Bienal de São Paulo tem tido baixa repercussão se comparada à edição de 2023, quando o evento causou furor ao anunciar o maior número de artistas não brancos em mais de sete décadas de existência.
Independente das polêmicas, a bienal refletiu sobre a relação por vezes predatória que o ser humano estabelece com a natureza, engrossando uma tendência observada em outras exposições. É o caso de “Histórias da Ecologia”, em edital no Museu de Arte de São Paulo, o Masp, e na mostra de Claude Monet no mesmo museu, que estabeleceu um diálogo entre a ecologia e as obras do impressionista, tornando-se a exposição mais visitada da história do Masp, com público de mais de 502 milénio pessoas.
O Masp também dominou a taxa com a inauguração de seu novo prédio, no final de março. Situado ao lado do prédio original de Lina Bo Bardi, a construção aumentou a dimensão expositiva da instituição, com cinco novas galerias que totalizam 66% de espaço a mais para a exibição de obras de arte.
Com sua forma de monólito preto, o prédio da Metro Arquitetos gerou fortes reações de paixão e ódio à sua arquitetura, tão distinta da caixa de vidro transparente e flutuante que é a construção original do museu. Ainda falta inaugurar o túnel subterrâneo que vai vincular os dois prédios do Masp, o que está previsto para os primeiros meses do ano que vem.
Neste ano, a agenda das artes no Brasil se voltou também para o pop. Exemplo disso foi a megaexposição de Andy Warhol no Museu de Arte Brasileira da Instalação Armando Álvares Penteado.
A maior mostra do artista já realizada fora dos Estados Unidos reuniu mais de 600 itens cedidos pelo Museu Andy Warhol, localizado na cidade americana de Pittsburgh. Foram expostos desde trabalhos menos conhecidos do artista, uma vez que ilustrações de sapatos, a peças célebres, a exemplo dos retratos de Marilyn Monroe, Mao Tsé-Tung e Elizabeth Taylor.
Era provável encontrar também as representações das latas de sopa Campbell e das garrafas de Coca-Cola, duas das obras mais icônicas do americano.
Trabalhos uma vez que esses refletem sobre a subida da indústria cultural, prática que se tornou recorrente também no Brasil. Durante os anos 1960, artistas uma vez que Claudio Tozzi, Antonio Dias, Rubens Gerchman, Wanda Pimentel e Nelson Leirner lançaram um olhar irônico sobre a sociedade de consumo.
Essa geração formou aquilo que se convencionou invocar de novidade figuração, a chamada pop art brasileira. O movimento foi tema da exposição “Pop Brasil: Vanguarda e Novidade Figuração, 1960-70”, a maior mostra do ano na Pinacoteca, em São Paulo. Com 250 obras, o projeto mostrou por meio de cores lisérgicas um Brasil em ebulição, pressionado pela industrialização precária e pelo libido de liberdade em meio à violência da ditadura.
A Pinacoteca completou 120 anos em 2025, comemorados em setembro com um dança patrocinado pela Chanel e pela Bvlgari, duas das maiores grifes de luxo do mundo. Dois meses mais tarde, foi a vez do Masp promover a sua sarau anual, um jantar de arrecadação de fundos, bancado pela Gucci.
O ano consolidou de vez o namoro dos museus com as marcas de luxo, isto é, inacessíveis para a grande maioria das pessoas por cobrarem milhares de reais numa camiseta, por exemplo. Esta associação visa transformar a arte numa experiência de luxo ao mesmo tempo que aumenta o cachê cultural das grifes de roupa e acessórios, que se associam a locais de tá valor simbólico.
