Artista Elena Damiani investiga tempo geológico em mostra 19/12/2025

Artista Elena Damiani investiga tempo geológico em mostra – 19/12/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Amostras cilíndricas de rocha extraídas do subsolo, usadas em investigações geotécnicas para compreender a história do terreno, aparecem organizadas lado a lado em uma estrutura de 200 quilos. No trabalho de Elena Damiani, esses chamados testemunhos de sondagem deixam o campo do operação técnico para operar porquê registros do tempo histórico aglomerado sob a superfície.

Presente em “As Formas Interiores”, primeira individual da artista peruana no Brasil, a obra integra suas investigações sobre arte e temporalidade a partir do universo das rochas e do solo.

O conjunto em edital na galeria Almeida & Dale, em São Paulo, reúne séries recentes que funcionam porquê um súmula de sua prática, abordando porquê o tempo se inscreve na material, seja por processos lentos de sedimentação, seja por eventos abruptos de ruptura. “Meu trabalho se refere muito à geologia, ao território e à memória da Terreno, mas também a essa procura por formas e estruturas, por porquê a natureza se reorganiza”, diz.

Embora utilize materiais historicamente associados à estátua, porquê o mármore e o travertino, Damiani se afasta de uma leitura clássica ligada à tradição monumental. Seu interesse está menos no peso simbólico da história da arte e mais na pedra porquê registro procedente. Para ela, importa porquê um material inorgânico, onde estão gravados traços de eventos passados, processos naturais e geológicos, carrega marcas de temporalidades profundas, anteriores à presença humana.

Essa abordagem aparece de modo evidente na série “Testigos” (ou testemunhos, em português), que dá nome às esculturas cilíndricas de grande peso. Damiani segmento do procedimento técnico usado por geólogos e engenheiros civis, que extraem colunas de solo para averiguar camadas subterrâneas antes de uma construção. As peças são reorganizadas lado a lado, reconstruindo o padrão original de sedimentação. Embora tridimensionais, vistas à intervalo, elas assumem um vista quase bidimensional, remetendo a imagens aéreas de desertos ou terrenos áridos.

Em “Relevos”, Damiani segmento dos halóides —formas geométricas capazes de gerar movimento contínuo com mínimo impulso— para produzir desenhos diretamente na areia. Ao fazer esses sólidos rolarem sobre a superfície, a artista transforma a estátua em gesto e registro: o deslocamento cria sulcos simétricos resultados da interação entre peso, sisudez e material. O que permanece visível não é unicamente a forma final, mas o vestígio da ação, em que tempo, esforço físico e condições do terreno se inscrevem porquê segmento da obra.

Já em “Unfoldings” (desdobramentos, em português), a artista explora a relação entre interno e exterior por meio de caixas de travertino que abrigam relevos cortados à mão, inspirados em perfis de paisagens montanhosas. O interno é banhado pelo revérbero do cobre polido, que funciona porquê espelho e permite ao testemunha visualizar o relevo em sua totalidade.

A tensão entre formas geométricas e orgânicas atravessa toda a exposição. Com formação parcial em arquitetura, Damiani afirma se interessar tanto por sistemas estruturados quanto por processos naturais instáveis. “A natureza se organiza por si mesma, mas essa ordem é transitório, pode ser interrompida por eventos caóticos porquê terremotos ou aluviões”, diz. O que emerge daí é um estabilidade instável entre construção e desgaste, estrutura e dissolução.

Esse interesse pelas camadas temporais do território está ligado também à experiência da artista no Peru. Crescida em Lima, cidade marcada por paisagens áridas e pela presença manente de sítios arqueológicos pré-colombianos, Damiani reconhece que seu trabalho absorveu de forma quase inconsciente esse convívio cotidiano com palimpsestos históricos. Ainda assim, procura uma dimensão que ultrapasse o contexto lugar e dialogue com uma memória coletiva mais ampla.

Longe de efeitos monumentais, seus trabalhos exigem atenção às texturas, às superfícies e às pequenas variações do material. “É um trabalho que pede pausa”, diz. Para a artista, essa aproximação é principalmente relevante no contexto contemporâneo, marcado por debates sobre crise climática, extrativismo e esgotamento dos recursos naturais.

Sem assumir um exposição ilustrativo, Damiani vê sua prática porquê um modo de tornar visível que a Terreno não é um recurso inerte. A preocupação se estende também aos modos de produção e circulação da obra, porquê a decisão de produzir localmente sempre que verosímil e reduzir deslocamentos desnecessários.

A passagem pelo Brasil, segundo ela, pode reverberar em projetos futuros. Impressionada pela multiplicidade de paisagens e formações geológicas do país, Damiani afirma o libido de, em uma próxima exposição, aprofundar a pesquisa a partir do território brasílico. “É um país imenso, com topografias e minerais muito diversos. Gostaria bastante de me destinar a isso em um próximo projeto”, conclui.

Folha

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