Primícias esta poste prestando minhas homenagens, com a mais absoluta tristeza e consternação, à família, às amigas e às colegas de Catarina Kasten, 31, vítima de violência sexual seguida de morte em Florianópolis na última semana.
Aos que a amavam, fica um vazio impossível de trasladar em palavras. Às mulheres de todo o país, fica a indignação. Uma mulher teve sua vida arranque de forma brutal, e o Brasil amanheceu cinza, com mais um nome que se soma à longa lista de mulheres mortas por serem mulheres.
O que se espera agora é responsabilização efetiva e investigações completas. As informações já divulgadas pela polícia indicam que o suspeito do violação, um varão branco de 21 anos de idade, também é investigado por outro estupro, cometido contra uma mulher de 69 anos, há dois anos. Cabe à polícia e ao Ministério Público a tarefa de examinar com rigor seus últimos anos, apurando possíveis reincidências e falhas institucionais que permitiram que a violência acontecesse e, o que seria ainda pior, se repetisse.
Porém, poderíamos nos contentar somente com a prisão desse criminoso e com a apuração de outros crimes sexuais que ele tenha cometido? Damo-nos por satisfeitas com esse desfecho? A resposta é não.
Há um movimento de mulheres que lutam para que tragédias porquê essa, infelizmente tão comuns neste país, se transformem em memória, reflexão e ruptura com a indiferença. Catarina tinha vínculos, projetos e afetos. Era professora de inglês, aluna do mestrado em linguística na Universidade Federalista de Santa Catarina, praticante de surf e natação.
Sonhava em edificar uma morada na praia dos Açores, no sul da ilhota, onde havia comprado um terreno com seu companheiro, e planejava seu doutorado fora do Brasil, que agora perde mais uma investigador para a misoginia que insiste em reificar.
Em luto, durante a semana, mulheres marcharam pela trilha onde Catarina foi encontrada e encantaram seu nome porquê presença, porquê quem costura sua pouquidade onde o esquecimento não alcança. É expressar que esta história importa e que esta mulher não será engolida pela pressa burocrática de quem quer “resolver” logo essa tragédia, porquê alguma coisa atípico que se passou.
Segundo o Planta da Segurança Pública de 2025, o Brasil registra 227 estupros por dia, número que vem crescendo ano em seguida ano. Homens de todas as camadas sociais violentam mulheres. Diante disso, é obsceno que homens ainda se sintam autorizados a expressar às mulheres porquê devem se vestir, por onde devem marchar, a que horas devem voltar, que riscos deveriam ter evitado.
É um pirraça que obriguem as mulheres a gestarem o resultado do estupro, que imponham obstáculos para entrada ao monstruosidade lícito. Ainda que carreguem a Bíblia nas mãos enquanto o fazem, isso nos parece diabólico.
Nesta última terça-feira, 25, foi o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. Em um contexto porquê o nosso, a data deve subsistir não para homenagens frias ou campanhas publicitárias pontuais, mas sim porque mulheres continuam sendo estupradas, assassinadas, agredidas e humilhadas todos os dias. O luto que atravessa a família de Catarina é o mesmo que atravessa milhares de mulheres anônimas, todos os anos, em todas as cidades deste país.
É uma data que deve marcar a percepção concreta do que significa ser mulher em um sistema que as odeia e de porquê isso atravessa a saúde mental, o bem-estar, o trabalho, a remuneração, as relações domésticas; porquê isso impacta a forma porquê mulheres são retratadas e representadas na cultura de volume, na política institucional, nos espaços de decisão. É também o retrato de porquê suas demandas por direitos são sistematicamente adiadas, relativizadas, desacreditadas e engavetadas.
Na trilha onde mulheres se manifestaram por Catarina, muitas estavam em choque e exaustas. Era impossível não reconhecer que o que aconteceu com ela poderia ter sucedido com qualquer uma que por ali passa. Aquele é um lugar por onde pessoas caminham, vão à praia, integram-se à natureza em procura de sossego e bem-estar. E, mesmo naquele refúgio, a violência se impôs.
A constatação de que nenhum lugar é seguro para as mulheres é muito dura e tem reflexos no psicológico. Estar em alerta o tempo todo não faz muito a ninguém e é preciso se rebelar na presença de um sistema que não deseja que mulheres aproveitem a natureza, o silêncio, a companhia das matas.
Por isso, me solidarizo com cada mulher que, mesmo atravessada pelo terror, pela indignação e pela dor, continua de pé. Que vá à praia, que reivindique a trilha, o corpo e o mundo porquê seus. Que guarde lembranças felizes com Catarina. Que continue, por todas nós, pois resistir, neste país, tem sido mais do que viver. Tem sido teimar.
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