O documentário “Assassínio em Mônaco”, na Netflix, propõe buscar a verdade sobre a morte do bilionário libanês Edmond Safra, um dos homens mais ricos do mundo. Na madrugada de 3 de dezembro de 1999, ele e uma enfermeira da equipe que o acompanhava diariamente morreram intoxicados com fumaça, causada por um incêndio na cobertura onde Safra morava, em Mônaco.
Possuinte de um currículo pífio no cinema, o diretor Hodges Usry constrói um filme jeitoso, de cortes certeiros, e concretiza uma narrativa pop. Mesmo repleto de ironia, é um trabalho impecável ao resguardar todos os lados envolvidos. E, assim, conta três histórias diferentes entrelaçadas.
Na primeira, o resultado inicial da investigação. Dois homens armados e encapuzados teriam invadido a cobertura. O bilionário de 67 anos e sua enfermeira se refugiam num bunker. Os homens provocam o incêndio e vão embora. Depois a morosidade da mediação dos bombeiros, Safra é encontrado morto.
A autoria do ataque parecia óbvia. Na dez de 1990, Safra e um sócio fizeram altos investimentos no mercado russo. Em 1998, o governo desvalorizou a moeda sítio em 50%. Safra perdeu portanto murado de US$ 900 milhões em negócios que envolviam a máfia russa.
Esse pandemônio financeiro criou reações furiosas. Tapume de 200 empresários do país foram mortos pelos criminosos. E Safra, que residia na França e nos Estados Unidos, passou a ser um fim prioritário depois de delatar ao FBI ações de bancos americanos para lavagem de numerário da máfia russa.
Por isso, Safra decidiu morar em Mônaco, “o país mais seguro do mundo”. No cimeira do prédio que abrigava escritórios de suas empresas, construiu uma cobertura de quase 900 m² onde morreria.
A segunda história apareceu rápido. No dia do enterro de Safra, a polícia prendeu o americano Ted Maher, enfermeiro e ex-integrante das Forças Especiais do Tropa americano, que era o outro cuidador na cobertura de Safra na madrugada do incêndio. Ele foi encontrado sangrando, com golpes de faca, afirmando ter lutado com os invasores.
Surge portanto uma confissão assinada por Maher, de texto rocambolesco. Ele teria forjado todo o cenário, inserindo falsas evidências da presença de invasores, orientando Safra e a enfermeira a se trancarem no bunker, desferindo os próprios golpes de faca em seu corpo e iniciando o incêndio.
A intenção de Maher seria transpor do incidente com ares de herói, dando seu sangue em resguardo do patrão. Com isso, esperava uma recompensa financeira generosa de Safra. Segundo a polícia, ele não contava com a morosidade da chegada dos bombeiros.
Mas veio portanto a terceira narrativa. Houve uma irregularidade de notícia entre a polícia e os bombeiros. Considerando a possibilidade de que os invasores ainda estivessem no prédio, os policiais passaram a revistar o sítio, inclusive vários andares subterrâneos de garagem e escritórios, não permitindo a ingresso antes de ter garantia de que os criminosos não estavam por lá.
O sem razão da situação é que os bombeiros foram impedidos de entrar. Com isso, eles chegaram ao bunker da cobertura mais de três horas depois do início do lume. Se eles tivessem acessado o sítio logo depois de sua chegada ao prédio, poderiam ter resgatado Safra e a enfermeira com vida. A tese da resguardo de Maher era que, para manter a aura de segurança de Mônaco, interessava incriminar somente um responsável, desviando a atenção do momento Trapalhões da polícia sítio.
O documentário mistura essas narrativas e traz muito mais. Em sua resguardo, Maher declarou que assinou a confissão no hospital, pressionado por policiais que afirmaram ter sequestrado a mulher dele, Heidi. Ela seria morta se ele não assinasse.
Veio portanto a suspeita de que o sequestro teria sido ordenado pela viúva do bilionário, a brasileira Lily Safra, que estava na cobertura, fugiu logo no início do incêndio e herdou toda a riqueza do marido. O documentário se dedica a esmiuçar sua vida pregressa, inclusive a suspeita de envolvimento com o suposto suicídio do segundo de seus quatro maridos. Lily morreu em 2022.
O diretor entrevistou muita gente envolvida, teve longas conversas com Maher, que foi réprobo, e montou um quadro grotesco, com uma edição impecável. Se isso tudo parece uma romance maluca, há muito mais reviravoltas, até os dias atuais. É impossível parar de ver esse documentário eletrizante. Fica evidente que Hodges Usry defende uma dessas versões, mas faz isso de forma inteligente, muito sutil.
