Assistente de godard se despede do cineasta em curta

Assistente de Godard se despede do cineasta em curta – 27/10/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Porquê bom assistente e diretor de retrato de Jean-Luc Godard nos últimos 20 anos do cineasta franco-suíço, Fabrice Aragno sabe que a relação entre vocábulo e imagem é íntima. Ao falar das relações entre cinema e pintura evidentes em “O Lago” —seu primeiro longa, em exibição na Mostra de Cinema de São Paulo—, ele é definitivo.

“Não aprendi isso com Godard”, diz. “Acho, na verdade, que é impossível aprendermos qualquer coisa. Nós só recebemos. E eu recebi a morte dele uma vez que recebi sua vigor, sua ternura, seu afeto.”

Prova desse vínculo é que o filme autoral de Aragno é exibido no evento paulistano com o curta “Atelier Rolle, uma Jornada”, uma despedida do apartamento-estúdio do rabino, assim uma vez que ele o deixou, em setembro de 2022, antes de partir para seu suicídio testemunhado, na Suíça.

No curta assinado ao lado de Jean-Paul Battaggia, sua lente perscruta com minuciosidade os equipamentos, seu escritório, as paredes cheias de fotos e recortes, o cinzeiro com o último charuto —um Romeo y Julieta—, muito uma vez que suas estantes de livros, VHS e DVDs, organizadas por associações de ideias, misturando ficção a sátira de cinema e filosofia. Aragno está em São Paulo e conversa com o público, nesta segunda (27), em seguida a sessão dos seus filmes no Espaço Petrobras de Cinema, no meio da cidade.

“Jean-Luc sempre deixava as coisas serem uma vez que eram. Queria mourejar com o real, com a verdade de cada momento, e que os atores não interpretassem. Dá para entender isso vendo esse novo ‘Nouvelle Vague’ —mas achei o filme ruim”, diz Aragno, se referindo ao trabalho, também em exibição na Mostra, que recupera a produção de “Acuado”, a primeira obra-prima de Godard, de 1960. “Espero poder conversar com o [diretor Richard] Linklater qualquer dia.”

O sujeito inquieto daquela era não tinha, naturalmente, a mesma disposição física do septuagenário com quem Aragno trabalhou, assumindo a retrato de longas uma vez que “Filme Socialismo” e “Adeus à Linguagem”, antes de codirigir “Scénarios” —o último projeto de Godard.

Mas o primeiro contato foi em 2002, quando ajudou a fazer o trecho final de “Nossa Música” —chamado “Paraíso”, em referência à “Divina Comédia”. O pupilo, porém, se espantou quando decidiu retomar esta parceria enquanto montava o final de “Atelier Rolle”, no qual observa as pinceladas de Godard ao volta da gravura de um idoso.

“Eu só puxei a trilha sonora de ‘Paraíso’ e juntei com as imagens. Encaixou perfeitamente. A pintura ganhou vida. O azul era o rio, os pássaros cantavam no amarelo, e dois pontinhos brancos eram pessoas conversando. Estava sozinho na minha cozinha, e perguntei: ‘Jean-Luc, o que você fez?’ Não sou religioso, mas foi um milagre.”

A contemplação em “O Lago”, porém, segue outra rota. Inspirado por uma exposição de pinturas com o lago Léman, na fronteira entre a França e a Suíça, Aragno filma uma jornada silenciosa e melancólica de um par durante uma competição de cinco dias naquele lugar.

Não fica evidente o que há entre a personagem da atriz Clotilde Courau e do nauta Bernard Stamm, mas as dificuldades da navegação, o tormento daquelas águas e a vida que eles observam ao longo da costa dão algumas pistas de um luto mal digerido.

Por outro lado, o longa abre com uma citação do filósofo Merleau-Ponty —sobre uma vez que a exiguidade se faz presente—, antes de mostrar uma mão mesclada a um firmamento estrelado —sequência que poderia estar tranquilamente num filme Godard.

“Foi um gesto improvisado com a atriz porque a personagem quer voltar a sentir, a se sentir viva”, diz Aragno, negando qualquer paralelo. “Depois, ela, de dentro do trem, vê a paisagem passar, e no fundo duas nuvens vão se beijando. No início de ‘Nouvelle Vague’ [filme de 1990 de Godard], por exemplo, duas mãos se encontram, mas lá é outra coisa. Eu nunca farei boas imagens se eu estiver detrás dos sentimentos de outra pessoa.”

A vocábulo se reduz ao mínimo em “O Lago” —são pouquíssimas falas ao longo dos 75 minutos desse projeto que demorou quase uma dez para chegar às telonas.

Em seu cerne, a obra abstrai dramas humanos fundamentais, estudando o rosto e o gestual dos atores, analisando nuvens carregadas que evocam os traços de Gustave Courbet, e mares e céus de milénio e uma cores, resultado dos estudos cromáticos de nomes uma vez que Claude Monet e William Turner.

Aragno planeja seguir essa correnteza com uma trilogia sobre o prazer e a paciência de seguir vivo. Mas, antes, vai tocar uma outra teoria iniciada por Godard, intitulada “Parênteses” —da qual ele só tem, por ora, um argumento inspirado por “Em Procura do Real Perdido”, de Alain Badiou.

Em vida, Godard não traduzia seus enigmas aos colaboradores, diz Aragno, e não foi dissemelhante dessa vez. “Agora tenho de desenredar qual era o pensamento por trás desse parêntese. Tenho de investigar uma vez que um policial. Será um documentário ensaístico a partir do que vivi —não do que aprendi.”

Folha

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