Jogo do orgulho gay na Copa do Mundo irrita Irã

Ataques podem inviabilizar participação do Irã na Copa – 02/03/2026 – Esporte

Esporte

Os ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã iniciados no último sábado (28) lançam dúvidas sobre a participação da seleção iraniana na Despensa do Mundo, eventualmente até inviabilizando a presença da equipe na competição.

Especialistas em Relações Internacionais e em Recta Internacional enfatizam que, embora ainda haja muitas incertezas em torno da ininterrupção do conflito armado e suas potenciais ramificações, é traje que a preparação da seleção iraniana para o Mundial já está prejudicada pela tensão na região.

“Não apostaria muito quantia na participação do Irã na Despensa do Mundo”, disse Kai Lehmann, professor do IRI (Instituto de Relações Internacionais) da USP (Universidade de São Paulo).

Segundo ele, diante dos acontecimentos recentes, a própria segurança da delegação iraniana em solo americano fica sob saliente risco.

“A Despensa vale muito quantia para a federação iraniana [cada federação recebe US$ 10,5 milhões da Fifa pela participação no torneio] e, diante da crise no país, acho que eles gostariam de participar. Por outro lado, nesse momento, não vejo porquê, em termos práticos, essa participação poderia suceder, porque ninguém poderia prometer a segurança do elenco e dos funcionários”, disse Lehmann.

O professor do IRI acrescentou que, com os conflitos no Irã e a morte do líder supremo Ali Khamenei, é difícil de prever qual será a situação do próprio país asiático daqui sobre três meses, quando começa a Despensa do Mundo.

“É um sistema onde o líder acumula um grande poder. Logo, quem garante que não vai ter mudanças na federação iraniana de futebol até lá?”, questionou Lehmann.

Investigador político e coordenador do curso de Relações Internacionais do Instituto Mauá de Tecnologia, Rodrigo Gallo afirmou que, em caso de exclusão da seleção do Irã da Despensa do Mundo, ou se a seleção se retirar de forma voluntária do torneio, porquê um protesto, a Fifa tem precedentes no regulamento para preservar o formato da competição —que será disputada por 48 seleções— indicando um substituto com base em critérios esportivos ou via repescagem continental.

“Outrossim, o regulamento disciplinar da entidade prevê a possibilidade de sanções à federação envolvida, que podem incluir multas, indenizações por perdas contratuais e até suspensões em competições futuras, dependendo das circunstâncias e da fundamentação da eventual exclusão”, disse Gallo.

Jurisperito técnico em Recta Internacional, Daniel Toledo também afirmou que as alternativas mais prováveis para substituir o Irã seriam invocar o próximo classificado asiático ou recorrer ao sistema de repescagem, sempre tentando manter a conformidade esportiva e reduzir o risco jurídico.

“Invocar a seleção que ficou imediatamente detrás do Irã no grupo ou na período final classificatória é o critério mais simples e juridicamente mais defensivo, porque preserva a lógica esportiva do torneio”, afirmou Toledo.

O Irã confirmou sua participação na Despensa em março de 2025, posteriormente um empate com o Uzbequistão que garantiu à seleção iraniana uma das vagas diretas no Grupo A das Eliminatórias asiáticas. O próprio Uzbequistão também ficou com uma das vagas diretas do grupo. Terceiros colocados, os Emirados Árabes Unidos disputaram um play-off e foram eliminados pelo Iraque.

O Irã está no Grupo G da Despensa do Mundo, ao lado de Bélgica, Egito e Novidade Zelândia, com jogos em Inglewood e Seattle, nos Estados Unidos, e Vancouver, no Canadá.

“Além dos bombardeios ao Irã, já vínhamos tendo toda a questão envolvendo a política anti-imigratório do governo americano e a atuação do Ice”, afirmou Camylle Caldas, pesquisadora de esportes e RI do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

“Logo, se o Irã de traje comparecer à Despensa, seus jogos vão ser sempre marcados por muita instabilidade, até para a própria torcida e a comunidade iraniana presente”, disse Camylle.

Toledo acrescentou ainda que a Fifa, porquê entidade privada de recta suíço, tem regimento próprio e exige que as federações nacionais sejam independentes de interferência governamental. “Em tese, conflitos armados não levam maquinalmente à exclusão de uma seleção.”

O que poderia gerar a suspensão é o descumprimento de regras da Fifa ou uma eventual mediação estatal direta na federação, afirmou Toledo. “Portanto, unicamente o traje de ter ataques militares contra o Irã não implica, juridicamente, a exclusão imediata da seleção.”

O técnico assinalou também que um fator que não pode ser descartado é a verosímil pressão de patrocinadores. A governança do futebol moderno é altamente dependente de contratos comerciais bilionários, e decisões esportivas muitas vezes acabam sendo influenciadas por riscos reputacionais, disse Toledo.

“Do ponto de vista jurídico, qualquer federação que se sinta prejudicada pode recorrer ao Tribunal Arbitral do Esporte alegando violação do princípio da paridade esportiva ou mudança abrupta de regulamento. O CAS costuma investigar se a decisão respeitou critérios objetivos e previamente estabelecidos no regulamento da competição”, afirmou o legista.

Procurada, a Fifa afirmou que não se pronunciaria por enquanto. “Tivemos uma reunião hoje e seria prematuro comentar sobre ela em detalhes. Mas, é simples, acompanharemos os desdobramentos em torno de todas as questões ao volta do mundo”, declarou Mattias Grafstrom, secretário-geral da Fifa, no sábado.

Folha

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