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Até a nobre MPB já foi refém dos Labubus de sua época – 18/07/2025 – Gustavo Alonso

Celebridades Cultura

Você já ouviu falar dos Labubus? Inspirados em contos de fadas nórdicos, estes mascotes infantilizados rapidamente viraram preocupação mercadológica frívola. Com faceta de boneca, orelhas de coelho e dentes pontiagudos uma vez que se fossem monstros, os Labubus de pelúcia viraram adereços dos famosos. Artistas uma vez que Rihanna e Dua Lipa já se deixaram fotografar com o mascote.

No Brasil, a atriz Marina Ruy Barbosa e a influencer Virgínia Fonseca aderiram à tendência do boneco estranho pendurado na bolsa. É um mimo dispendioso, visto que as versões mais raras dos Labubus podem ultrapassar os R$ 5.000. Atilado à oportunidade, o mercado pirata já inventou o seu “Tribufu”, boneco vendido em ruas de negócio popular pelo país.

Em meio a vaga de bebês reborn, não foram poucos os que acusaram as celebridades de consumismo e infantilização. Mas a verdade é que essa fetichização não é novidade na cultura pop e até a sublime MPB já foi refém dos Labubus de sua idade. Quem se lembra do boneco Mug?

O Mug foi uma jogada publicitária da indústria de roupas e brinquedos no ano de 1966. Tratava-se de um boneco de tecido de uns 20 centímetros, preto, cabelos vermelhos, calça xadrez, mãos e pés enormes, longos e desajeitados braços.

O Mug era o mascote da marca de roupas da Indústria Santa Basilissa. A intenção dos publicitários da H.B. Promoções era competir com a Jovem Guarda. A campanha daquele simples brinquedo ganhou ares apoteóticos e tornou-se febre mercantil quando artistas entraram na campanha confirmando que o boneco “dava sorte”.

Uma propaganda dizia que ele possuía estranha força, atuando “desde tempos imemoriais”, e que o faraó Ramsés 2º e o rei Salomão tiveram um Mug. No sentido oposto, o Brasil teria perdido o tricampeonato na Despensa de 1966 porque nenhum jogador levou o boneco para a Inglaterra.

Em pouco tempo o Brasil inteiro ficou conhecendo o Mug. Ele apareceu nos quadrinhos de Maurício de Sousa (o instituidor da Turma da Mônica); no jornal Última Hora, ao lado das “certinhas” do colunista Stanislaw Ponte Preta; na televisão, divulgado por Wilson Simonal e Jô Soares. O cantor Wilson Simonal aparece na capote do seu disco de 1966, “Vou Deixar Desabar”, ao lado do boneco.

Simonal, por sinal, era um dos mais envolvidos nesse jogo publicitário e chegou a lançar a melodia “Samba do Mug”, de sua autoria e de José Guimarães: “Se você não acredita eu não posso fazer zero/ Mas a figa tem um Mug dentro da mão muito fechada/ E agora pra provar que o Mug que é o quente/ Vou dar-lhe o Mug de presente/ Olha o Mug!/ Mas que segurança!”

Poucos se lembram que Chico Buarque foi receber o prêmio pelo primeiro lugar do Festival da Record de 1966 com o boneco Mug na mão. Naquela oportunidade ele ganhara o festival com “A margem”, melodia que levou instantaneamente o jovem de 22 anos ao estrelato.

À jornalista Regina Zappa Chico Buarque comentou sobre o Mug: “Tenho um pouco de vergonha disso, mas é verdade. Eu andava com o Mug e dizia que o Mug dava sorte. Aí venderam uma porção de Mugs.”

Além de publicar o boneco na televisão, Chico Buarque também fez propaganda do Mug em seu LP de 1966. Na contracapa do disco, onde faz um balanço das músicas e agradece aos parceiros de gravação, o boneco foi citado: “Quanto à gravação em si, o Mug assistia a tudo com santa seriedade”, escreveu Chico.

Aumentando a glória do boneco, Chico foi à polícia, em 26 de outubro de 1966, denunciar que seu Mug tinha sido roubado do carruagem de um companheiro. Conforme noticiado no jornal O Orbe, os ladrões levaram rascunhos da partitura de um samba novo e o boneco.

Um Chico menos afeito às disputas com a ditadura e empolgado com os aspectos mercadológicos da arte, lamentava: “O pior de tudo é que levaram também o meu Mug de estimação, que me dava uma sorte louca. Para mim era ouro de lei e dele nunca me separava. Daria tudo para recuperá-lo o mais depressa verosímil. Não sei o que é patuá nem tenho santos de minha devoção. Só tenho fé no meu Mug e por isso quero reavê-lo. Para isso, estou disposto a dar ao ladrão uma boa recompensa.”

Em novembro de 1966, Chico ainda estava aficionado pelo talismã e carregou um Mug num voo para Curitiba, segundo noticiou o jornal O Estado do Paraná: “Viajar de avião não é coisa para mim e é preciso estar prevenido, não acha?”, disse um aterrorizado horizonte gênio da música brasileira.

A MPB não passou incólume aos amuletos infantilizados de sua idade. O Mug era o Labubu da cultura pop dos anos 1960.


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Folha

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