Até videntes tentaram achar tenório jr, morto na argentina

Até videntes tentaram achar Tenório Jr, morto na Argentina – 20/09/2025 – Ilustríssima

Celebridades Cultura

[RESUMO] Reportagem conta o clima de tensão e violência na Argentina pouco antes do golpe militar de 1976, quando o músico brasílico foi sequestrado e assassinado em Buenos Aires, caso só agora esclarecido. Também traz relatos de amigos sobre vida e obra de Tenório Jr., pianista do qual grande talento foi ceifado pelo horror da repressão política.

Nos meses que antecederam o golpe militar prateado, em 1976, a violência política corria solta pelas ruas. No entanto, ainda hoje é geral considerar que as atrocidades da repressão e a resguardo da luta armada ficaram circunscritas ao período da ditadura, que se estendeu até 1983.

Mas isso não é verdade. Até hoje, a polarização política, na qual estão envolvidos até mesmo historiadores sérios, deixa esse pausa entre a morte do general Perón, em julho de 1974, e o golpe de 24 de março de 1976, dois anos depois, numa espécie de limbo.

Se essa idade fosse mais muito estudada, talvez os crimes cometidos revelassem porquê os militares conspiraram para a queda da presidente eleita legitimamente, María Estela Martínez de Perón, a Isabelita, mulher do general e sua vice.

E também porquê atuavam os integrantes da Triple A (Alianza Anticomunista Argentina), um verdadeiro esquadrão da morte, criado pelo peronismo para controlar ativistas, militantes de esquerda e intelectuais. Ou seja, o cenário era tenso e complicado, e as ruas exalavam já o horror da repressão estatal.

Foi naquele contexto, alguns dias antes do golpe, que Vinicius de Moraes, sucesso popular também na Argentina, fez uma curta temporada de shows em Buenos Aires, escoltado de músicos famosos, entre eles Tenório Jr., portanto com 35 anos, tido porquê o mais importante pianista do Brasil naquele tempo. Segundo relatos, Tenório circulava por lá com uma amante brasileira que havia viajado com ele. O caso foi acobertado na idade, pois ele era casado com Carmen, que, no Rio, estava prenha do quinto fruto do parelha.

Depois uma das apresentações dos brasileiros, teve início um verdadeiro pesadelo. Enquanto Vinicius foi com sua portanto namorada, Marta Santamaría partamento alugado, Toquinho e Tenório Jr. voltaram para o hotel Normandie, no meio de Buenos Aires.

Todos haviam se retraído a seus quartos quando, na madrugada de 18 de março de 1976, Tenório Jr. saiu, em procura, acredita-se, de cigarros ou mesmo de drogas —segundo amigos, fumava maconha regularmente e consumia cocaína. “Romper ali, com paisagem de músico, cabelo e barba compridos, era chamativo demais. Qualquer vigia, mesmo com nenhuma relação com a perseguição política, poderia tê-lo levantado”, diz o historiador e músico Uki Goñi, que conhece muito essa geografia da cidade naquele tempo.

Tenório Jr. nunca mais foi visto. O que ocorreu entre a madrugada e o início da manhã daquele dia, quando Toquinho, exasperado, ligou para Vinicius para expressar que o pianista havia perdido, foi um mistério por 49 anos. Até que a renomada Equipe Argentina de Antropologia Judicial (EAAF), na última sexta-feira (12), deu a resposta à pergunta que se faziam os amigos, a família, os jornalistas, os investigadores e o mundo artístico.

A Justiça argentina informou à embaixada do Brasil em Buenos Aires que havia, por término, identificado o corpo de Francisco Tenório Cerqueira Júnior, o Tenório Jr..

A versão que agora surge, a partir de informações da EAAF, da polícia e de outras entidades, é que o pianista foi sequestrado, talvez confundido com um guerrilheiro do Montoneros, organização armada da esquerda radical.

“Ele falava espanhol com muita desenvoltura, com sotaque de Buenos Aires. Por isso, talvez tenha sido mais difícil se livrar da mortificação dos policiais argentinos”, lembra a compositora Joyce Trigueiro, 77.

Depois o rapto nas redondezas do hotel, teria sido levado a um terreno baldio entre a movimentada rodovia Panamericana e a avenida general Belgrano, na Província de Buenos Aires. Segundo o médico policial que o examinou, sem saber de quem se tratava, a morte foi causada por múltiplos impactos de projéctil.

A informação foi registrada em uma ficha, assim porquê as impressões digitais do pianista. Tenório Jr. foi portanto levado a uma vala geral do cemitério municipal de Benavídez, onde estão centenas de outros corpos.

“Seria muito difícil restabelecer seus sobras mortais, mesmo agora que sabemos que ele está entre os enterrados ali. Há muitos vestígios misturados, sem identificação. A família pode encaminhar esse pedido, mas seria dificílimo, passaram-se quase 50 anos”, disse à Folha a legista Mariana Segura.

Ela aponta que, se não tivessem sido coletadas as digitais naquele mesmo dia, seria impossível identificar o corpo do músico. Mas por que isso demorou tanto?

Calcula-se, através do intercepção de relatórios do Tropa, de contestações de familiares e outros métodos, que a ditadura argentina tenha assassinado mais de 20 milénio pessoas —a zero usada até pouco tempo detrás, 30 milénio, hoje é contestada por historiadores. De todo modo, é verosímil imaginar os muitos outros casos ainda não esclarecidos, ainda mais os que ocorreram nas semanas antes da ditadura.

Depois do retorno da democracia, em 1983, a Conadep (Percentagem Vernáculo de Pessoas Desaparecidas), instalada pelo presidente Raúl Alfonsín, determinou a buraco de fossas onde se escondiam os corpos e a identificação das vítimas. Foi somente, mas, em 26 de agosto de 2025, por meio da confrontação das impressões digitais do músico, entregues pela família dele, com a dos cadáveres não identificados que se determinou que o famoso pianista brasílico estava enterrado no cemitério de Benavídez.

O caso passa a integrar um processo judicial em curso, denominado Plan Condor [em referência à aliança entre várias ditaduras dos anos 1970 na América do Sul], levado adiante pelo juiz Sebastian Casanello, 50. Agora a Justiça tentará definir os responsáveis pela morte do brasílico.

A família de Tenório Jr. recebeu a notícia por meio da Percentagem Privativo de Mortos e Desaparecidos Políticos do Brasil. Logo depois, emitiu um expedido: “É um conforto porque, finalmente, podemos saber com mais segurança o que aconteceu com ele naquele triste março de 1976. De alguma maneira, estaremos mais próximos. Tristeza pela confirmação de que Tenório foi vítima da violência e enterrado porquê um ignoto, longe da família, dos amigos, dos parceiros de música”, diz o expedido assinado pelos filhos Elisa, Andrea, Francisco e Margarida.

Por meio do assessor Vitor Nuzzi, os filhos afirmaram esperar pela punição dos responsáveis pelo homicídio. Carmen morreu em 2019, aos 75 anos.

Nesse período de quase 50 anos desde o desaparecimento, uma série de mentiras e notícias falsas dificultaram ainda mais o explicação do caso. Um exemplo foi a entrevista de Cláudio Vallejos, ex-soldado do Serviço de Perceptibilidade da Marinha argentina, à revista “Senhor”, em 1986. “Ele fez tudo isso por vaidade, e deixou a todos os amigos e parentes do pianista ainda mais angustiados e confusos do que estávamos”, diz Marta Santamaría.

Na versão fantasiosa de Vallejos, Tenório Jr. teria sido levado ao temido meio de detenção da Escola Mecânica da Armada (Esma) e ali torturado por militares argentinos e brasileiros em conluio por conta da Operação Condor, sendo executado pelo temido Alfredo Astiz.

Astiz foi um dos comandantes da repressão na Argentina, mandava e desmandava na Esma. Acabou réprobo por crimes contra a humanidade. Todavia, segundo vários pesquisadores entrevistados pela Folha, é pouco provável que tenha oferecido o tiro de misericórdia em um prisioneiro geral.

E nem mesmo a Esma existia naquela idade nos moldes do que virou depois que a ditadura começou —um meio de tortura e morte, onde presas grávidas davam à luz e eram assassinadas, onde os escolhidos para “vanescer” saíam dali ao Aeroparque da cidade para morrer nos “voos da morte”, atirados ao mar.

A versão de Vallejos teve grande repercussão e atrapalhou as investigações. Agora ela cai por terreno.

Na idade também circularam boatos de que Tenório Jr. teria voltado ao Brasil, ou que estaria recluso na Argentina, junto com prisioneiros políticos.

“Quando a notícia do desaparecimento chegou cá, foi uma explosivo! Ficamos totalmente desatinados. E o Vinicius ficou lá um bom tempo procurando, fez de tudo”, diz a cantora Joyce Trigueiro, que acabava de voltar de uma turnê com os mesmos músicos no Uruguai.

Uma das primeiras providências dos amigos foi organizar um show no teatro João Caetano, no Rio, com a arrecadação voltada para a mulher, Carmen, e os filhos de Tenório Jr. Dele participaram Clementina de Jesus, Egberto Gismonti e muitos outros. O evento foi planejado por Hermínio Bello de Roble e Joyce Trigueiro. “Os mais de milénio lugares do teatro ficaram ocupados. Da coxia os artistas escutavam as pessoas esmurrando a porta dos fundos para tentar entrar, já que os ingressos esgotaram completamente”, lembra Joyce.

Ainda assim, quem segurou a barra financeira da família, a partir desse momento, foi o cunhado do músico, o pintor Roberto Magalhães.

Segundo conta a historiadora Liana Wenner no livro “Vinicius Portenho” (ed. Mansão da Vocábulo), por recomendação do poeta Ferreira Gullar, amigos e familiares buscaram uma vidente na Argentina que pudesse dar pistas do paradeiro do pianista.

Desta história, da qual não ficaram registros documentais, somente relatos orais, não saiu muita coisa. À vidente foram entregues diversas fotos e cartas de Tenório Jr., razão pela qual hoje há tão pouco material iconográfico do artista. As forças do além não ajudaram a ninguém, somente sugeriram que ele estaria no sul da Argentina.

“Naquele momento de desespero, procurou-se de tudo. O pai do Tenório era um policial e fez suas buscas. E a Carmen foi procurada por muitas pessoas ligadas a coisas mais esotéricas. Até médiuns e videntes de fora do Brasil foram procurá-la. Teve um vidente europeu, ela ficou muito impressionada, que disse que tudo iria terminar muito e com uma “big laugh” [grande risada]. Uma coisa maluca!”, relembra Joyce.

Em 1976, Tenorio Jr., apesar de seu talento, sentia-se desanimado com suas perspectivas econômicas, porquê diziam seus amigos.

Seus anos de ouro em seguida o lançamento do disco “Embalo” (1964), no qual gravou 11 canções ao piano, tinham pretérito. Restava a ele, não que fosse pouco, embarcar porquê músico de suporte em bandas, porquê a de Vinicius. O pianista reclamava de falta de numerário. No Rio, sua volumosa família ganharia mais um membro.

Isso alimentou lendas e especulações das mais imaginativas, porquê as de que ele pudesse ter fingido o sumiço para permanecer com uma amante rica e fazendeira da província de La Pampa. Nenhum vestígio concreto aponta para isso, mas a história alastrou-se nos relatos populares.

Com “Embalo” Tenório Jr. viveu o auge se sua curso. O disco foi um marco na música instrumental brasileira, analisa Ruy Castro, redactor e colunista da Folha.

Celso de Almeida Lento, hoje com 85 anos, foi o violonista do álbum. Tinha portanto 24 anos, era recém-formado em arquitetura, assim porquê o baixista do disco Sergio Barrozo, que retratou amigos músicos em charges.

Tenório estudou Medicina, “mas largou, estava totalmente interessado pela música”, conta Lento. Para ele, o colega teria sido o maior pianista brasílico, tamanho era seu talento.

Ambos eram amigos de juventude, visitavam a família um do outro, saíam para tomar chope, conversar e tocar juntos. “Ele era muito engraçado, porquê a maioria dos músicos, espirituoso, botava sobrenome sempre com seu humor ácido”, relembra Lento.

Nos anos 1960, a família de Lento alugava uma vivenda na rua Barão de Itapagipe, e Tenório fazia hora lá, até sua namorada Carmen transpor do trabalho, perto dali. Quando se casaram, foram morar no Cosme Velho, onde nasceram os cinco filhos do parelha. Foi o último endereço do pianista.

Boêmio e sedutor, Tenório Jr. teve vários casos, um deles com a cantora Dóris Monteiro, que morreu em 2023, aos 88 anos. Segundo conta Ruy Castro: “A Dóris era bonitérrima, nos anos 1960/70. Me contou que ela namorou o Tenório Jr., foi uma coisa rápida. Ela estava no coche com ele dirigindo, aí fechou o sinal e ele acendeu um fundamentado enquanto esperavam o sinal penetrar. E a Dóris, que era totalmente momice, ficou horrorizada e falou: ‘Abre a porta que eu vou descer agora’. E nunca mais viu o rostro”.

O vestuário de Tenório Jr. ter tido amantes incomodou Carmen. Um dia, Joyce Trigueiro encontrou Roberto, irmão de Carmen, um tempo em seguida o desaparecimento. Ele disse para a cantora: “Mesmo que Tenório aparecesse, duvido que a Carmen o aceitasse de volta. Todos os podres vieram à tona”. A família já sabia da brasileira que acompanhava o pianista na Argentina.

O compositor e pianista carioca Cristovão Bastos, 78, recorda a primeira vez que ouviu o Tenório Jr tocar. Foi na boate Monsieur Pujol, empreendimento de Alberico Campana —possuidor da Bottle’s, no Beco das Garrafas— em sociedade com Carlos Miele e o Ronaldo Bôscoli, a famosa dupla Miele e Bôscoli.

Localizada na rua Anibal de Mendonça, em Ipanema, a vivenda reuniu alguns dos maiores talentos da cena músico brasileira. Bastos confirma o poderoso impacto causado por “Embalo” na cena músico e lamenta o ladeirento término de um talento poderoso. “A qualidade músico era muito boa. Eu também tocava na noite e os músicos se visitavam, grandes nomes tocaram na noite carioca: Laercio de Freitas, Dom Salvador, Gilson Peranzzetta e outros”, lembra Bastos.

Ao som de “Embalo”, Ruy Castro recebeu a Folha em 2023, quando nossa apuração para esta material ainda estava no início. Disse que Tenorinho, porquê o músico era chamado carinhosamente por Vinicius de Moraes, era “um dos melhores pianistas da bossa novidade e um dos principais que o Brasil já teve”. No documentário entusiasmado dos espanhóis Fernando Trueba e Javier Mariscal, “Atiraram no Pianista” (2023), o colunista da Folha também aparece, tecendo comentários elogiosos a Tenório Jr.

A Argentina tem muito a nos ensinar sobre punir crimes cometidos pelo Estado. Luis Trigueiro Ocampo, 73, promotor do Juicio a Las Juntas, que julgou os repressores da ditadura militar argentina (1976-1983) —cuja história pode ser vista no filme “Argentina, 1985” (2022)—, destaca a preço, histórica e pessoal, de investigar e esclarecer a verdade.

“Em momentos em que vemos horrorizados o que ocorre em Gaza ou na Ucrânia, temos de aprender a preço de utilizar novas tecnologias para ajudar as vítimas de crimes massivos. A Argentina elaborou suas técnicas de restabelecer os sobras sem destruí-los, contando com o suporte de geneticistas que quiseram encontrar as conexões dos avós com os netos, o que melhorou as técnicas de reconhecimento. Isso hoje faz com que a família de Tenório Jr. possa, finalmente, depois de cinco décadas, repousar em sossego. As pessoas têm de entender que o delito de desaparição forçada faz com que os familiares nunca possam enterrar suas vítimas. No caso da família de Tenório, houve por um tempo alguma esperança de que apareceria vivo. Agora sabe, com tristeza, o que ocorreu, mas também tem a teoria de que é verosímil fechar o que passou.”

Folha

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *