Conheça a história da Marcha das Mulheres Negras

Ativistas paraenses contam história da Marcha das Mulheres Negras

Brasil

Instalada na Terreiro da República, na cidade de Belém (PA), a Black Zone reúne mulheres negras de diferentes lugares em encontros, trocas de vivências e debates, que ocorrem paralelamente aos eventos oficiais da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30).

Além de fazer repetir as vozes de quem não está no espaço solene das negociações globais sobre o clima, elas também se preparam para a Marcha das Mulheres Negras.


Belém (PA), 20/11/2025 - Nilma Bentes, ativista do movimento negro, no Cedenpa (Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará). Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Belém (PA), 20/11/2025 - Nilma Bentes, ativista do movimento negro, no Cedenpa (Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará). Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Dona Nilma no Meio de Estudos e Resguardo do Preto do Pará – Tânia Rêgo/Escritório Brasil

O espaço temporário dos encontros presta uma homenagem à belenense Raimunda Nilma Bentes, a Dona Nilma, artista, escritora, ativista da população negra e idealizadora da primeira marcha ocorrida em 2015.

“Em 2011, a gente estava na Bahia em uma atividade internacional e, talvez por força de algumas falas, eu senti uma premência de que a gente fizesse alguma coisa mais contundente. Dai eu resolvi sugerir, em uma micro reunião da Associação de Organização de Mulheres Negras, uma marcha das 100 milénio mulheres negras”, relembra Dona Nilma.

O ano escolhido foi 2015 já que em 2014 o Brasil receberia a Despensa do Mundo de Futebol e em 2016, as Olimpíadas no Rio de Janeiro.

“Por coincidência, era também o ano que batia com a comemoração da primeira marcha mista de pessoas negras, realizada em 1995. Ou seja, ela [a marcha] foi proposta assim, quase que feita”, recorda.

O tema escolhido Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência pelo Muito Viver, refletia as principais lutas enfrentadas por elas e ainda sem uma grande rede de organizações sociais e movimentos de pessoas negras estruturada, tapume de 70 milénio mulheres marcharam até a Terreiro dos Três Poderes, no dia 18 de novembro de 2015.

“Foi muita gente, muito mais do que a gente pensava que ia. Pareceu que havia uma demanda reprimida. E nós víamos mulheres soltas, não era de organização nenhuma. Mulheres negras só vindo dali, do outro lado, de todo lado. Queriam ir, participar”, diz Dona Nilma.

Dez anos depois


Belém (PA), 20/11/2025 - Maria Malcher, coordenadora de projetos do Cedenpa (Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará), no Cedenpa. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Belém (PA), 20/11/2025 - Maria Malcher, coordenadora de projetos do Cedenpa (Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará), no Cedenpa. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A coordenadora de projetos do Meio de Estudos e Resguardo do Preto do Pará Maria Malcher – Tânia Rêgo/Escritório Brasil

No próximo dia 25 de novembro, dez anos depois, um grande número de mulheres negras se dirige aos Poderes de Brasília com demandas muito similares: reparação e muito viver.

Segundo a coordenadora de projetos do Meio de Estudos e Resguardo do Preto do Pará, Maria Malcher, a reparação é um tema com muito mais alcance, no qual também se insere a luta contra a violência, a xenofobia e o racismo.

“Trata da própria reparação histórica, pelo processo de escravização da diáspora africana no Brasil, e a gente tem essa presunção de ancestralidade, mas a gente também quer denunciar, no sentido de aprofundar mesmo as pautas do movimento de mulheres negras”, explica.

O muito viver já alcança dois aspectos, um mais macro e outro mais no paisagem das lutas locais territoriais, explica Dona Nilma.

“O paisagem macro é uma proposta de projeto político, porquê uma transição energética com justiça social, a questão do não ao consumismo, a supremacia do coletivo sobre o individualismo, a cooperação em vez de competição e a questão da economia ser subordinada a fatores ecológicos do meio envolvente, e não ao contrário porquê acontece hoje”, diz.

Para Dona Nilma, no paisagem mais regional o muito viver alcança as demandas por melhores condições específicas de cada território.

“Estamos falando de mulheres negras no Brasil, onde a maioria de nós é trabalhadora doméstica, não que isso seja ruim, mas tem a questão do status e da remuneração, de uma aposentadoria que considere a valorização do desvelo. As mulheres sempre foram cuidadoras, já vem de dentro de uma bojo. A gente querer cobrar, inclusive, questão de participação no Parlamento, a sub-representação em todos os lugares”, reforça.

No contexto da cidade de Belém e do próprio Brasil, onde as mulheres são maioria e entre elas, as mulheres negras somam um maior número, a COP30 debate a mudança do clima que para elas é uma urgência já vivida.

“As mudanças vêm para todo mundo, mas porquê você sabe, ela é agravada pelas condições e objetivos que estão dados, ou seja: a desigualdade socioeconômica, cultural e ambiental”, lamenta Dona Nilma.

Comitê

Para fazer frente ao duelo e lutar por mais representatividade e participação nas decisões e ações climáticas, elas constituíram o Comitê Vernáculo das Mulheres Negras por Justiça Climática, oficializado no último dia 10 de novembro, em Belém.

“A gente lançou com 36 organizações do movimento preto, algumas inclusive com aproximação à COP, sobretudo as organizações nacionais que estão no Sudeste. Porque a gente não tem notícia de nenhuma organização do movimento preto na Amazônia que tenha tido aproximação a credencial”, diz.

O colegiado além de fazer incidência no envolvente da COP30 também trabalha em um manifesto a ser entregue aos chefes dos Três Poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário –, no dia 25 durante a marcha em Brasília.
 


Belém (PA), 20/11/2025 - Maria Malcher, coordenadora de projetos do Cedenpa (Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará) e Nilma Bentes, ativista do movimento negro, no Cedenpa. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Belém (PA), 20/11/2025 - Maria Malcher, coordenadora de projetos do Cedenpa (Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará) e Nilma Bentes, ativista do movimento negro, no Cedenpa. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Maria Malcher e Dona Nilma Bentes, ativistas do movimento preto, falam sobre a Marcha das Mulheres Negras – Tânia Rêgo/Escritório Brasil

A programação também inclui outras atividades que vão convergir para o grande encontro das mulheres negras.

“Serão mais de 50 atividades, desde os diálogos globais, sobretudo os diálogos do movimento de mulheres, a parlamento da Rede Afrolatinoamericana e caribenha, que vai reunir mulheres de toda a América Latina e Caribe. A gente vai ter o diálogo transnacional LGBTQAPN+, e o diálogo das juventudes. Essas três categorias vão estar em Brasília fazendo seus encontros e ficando para a marcha”, diz Maria Malcher.

Somados ao documento final da marcha, haverá ainda um manifesto do Levante Preto pela Ensino que atua na luta por um Projecto Vernáculo da Ensino (PNE) antirracista, outro manifesto econômico, além de estudos.

“A marcha tem essa dimensão formativa. A gente construiu um manifesto econômico e esse manifesto vai ser entregue. Algumas pesquisas também, em parceria com organizações negras de pesquisa”, reforça Maria.

Silabário

Para as organizações, redes e grupos de mulheres negras, uma silabário organizada pela comunicadora Flávia Ribeiro. Segundo Maria Malcher, o documento é orientador, de formação e mobilização, talhado a quem queira participar da marcha.

“A Flávia fez essa transposição didática desse trabalho muito importante cá, sobre a marcha. Sobretudo a Marcha de Belém e a nossa atuação no Estado do Pará em formato de silabário, já trazendo a história, que é importante, porquê caminhamos nessa segunda marcha e também as proposições da reparação”, conclui.

 

Fonte EBC

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