“Antonio Gramsci adoraria saber Bad Bunny”, palpita um meme postado nas redes sociais em meio à euforia causada pelo show do rapper no pausa do Super Bowl no último domingo.
Confrontar o pensador revolucionário italiano morto em 1937, pai do termo “intelectual orgânico”, ao cantor pop porto-riquenho revela muito sobre a forma eufórica porquê segmento do público brasiliano absorveu o espetáculo músico na Califórnia.
Convém moderar a euforia. Talvez não seja tão pertinente assim atribuir a um artista pop a ruinoso de um poderio numulário.
Ao tentar forçar a barra do exposição decolonial, muitos brasileiros eriçados por Bad Bunny têm evidenciado a nossa profunda quesito de colonizados.
O show onusto de simbolismos associados a uma ampla identidade latina —a recriação de um dos bares latinos do Brooklyn, uma párvulo dormindo em bancos de sarau, a mexicana Danza de los Voladores— não é uma mensagem de integração da América Latina, mas uma integração dos imigrantes latino-americanos nos Estados Unidos.
São coisas diferentes —o primeiro envolve estreitamento de relações entre países diferentes, mas com identidades semelhantes. Há, nesta troca, saudação à autodeterminação vernáculo e uma eventual procura da geração de um conjunto que se fortaleça frente a ameaças externas, sejam elas comerciais ou políticas, vindas de potências centrais no sistema internacional, entre elas, os Estados Unidos.
Mas o show de Bad Bunny propõe a geração de uma identidade generalidade entre imigrantes que adentraram o poderio americano. É um exposição que diz saudação à concepção do que é ser segmento do todo americano.
Em seu recente cláusula “O grande FMI universitário”, na revista piauí, Vladimir Safatle argumenta porquê o colonialismo domina os estudos decoloniais nas universidades brasileiras.
“É a partir principalmente de universidades americanas que professores expatriados pretendem definir para o resto do mundo qual programa seguir e que conceitos usar para fazer continuar a decolonização de nós mesmos”, escreve Safatle.
Um pouco semelhante acontece no palco da música pop. Uma definição de latinidade vinda do Super Bowl —no pausa do jogo entre o Seattle Seahawks contra o New England Patriots, na Califórnia, patrocinado por uma gigante do Vale do Silício, a Apple— é celebrada em diversos setores da esquerda brasileira porquê uma resgate do povo latino-americano.
A discussão que Bad Bunny traz é completamente centrada na vivência nos Estados Unidos, esse país de núcleo imigrante. Já foram e são várias ondas de imigração que ajudaram a fabricar e fortalecer o que são os Estados Unidos e o que é a identidade americana. Antes vieram irlandeses, holandeses, italianos, judeus e tantos outros que se tornaram estadunidenses. Agora é a vez dos latinos.
É porquê quando o personagem ítalo-americano Tony Soprano, de “Família Soprano”, vai para a Itália e não encaixa na sua “terreno natal”. O “italiano” de Novidade Jersey é uma identidade própria e diz somente da experiência americana. Assim porquê os americanos latinos têm uma experiência social dissemelhante dos latino-americanos que por cá permanecem.
O exposição do cantor ao lucrar o Grammy de melhor álbum de música urbana evidencia a olho nu esse processo histórico americano. “Não somos selvagens, animais ou alienígenas. Somos seres humanos e somos americanos.”
Bad Bunny teve a chancela máxima de seu estrelato justamente no evento mais americano provável. Se o porto-riquenho foi coroado porquê o grande artista pop do momento, o pausa do Super Bowl se consolida cada vez mais porquê a domínio que diz quem é o coroado da vez. Continuam os americanos do setentrião a pautar o debate público —e a escolher os debatedores e os palcos principais.
Bad Bunny cantou em espanhol. Estima-se que 20% da população americana tenha prosápia hispânica ou latino-americana e pelo menos 43 milhões de pessoas no país falem espanhol. Hoje, falar espanhol também é ser americano.
Um artista americano, cantando sobre um debate historicamente americano, no palco mais americano provável, o Super Bowl.
Para muito ou para mal, isso só atesta a incrível versatilidade da indústria cultural americana em continuar pautando o debate cultural em nível mundial. A incrível capacidade, também, de transformar tudo em espetáculo.
O economista Joseph Schumpeter nos trouxe o concepção de “devastação criativa”, em que o ciclo de inovação inerente ao processo numulário substitui meios de produção antigos por outros mais sofisticados. É a vendinha da esquina que é engolida pela grande loja de departamentos.
O conflito é a unidade estrutural do roteiro hollywoodiano. Foi através do prisma do conflito que a indústria americana nos ensinou a perceber o mundo. Pois cá em Bad Bunny temos mais um notável conjunto de inovações desenvolvidas pela indústria cultural americana.
É uma inovação simbólica, sobre a identidade americana —o conflito é entre duas Américas. À imagem do poderio rico, sisudo e incessantemente em guerra, é confrontada a imagem de um povo jubiloso, lutador e hospitaleiro —que por eventualidade é latino. Um povo feliz por ter conquistado o sonho americano. É esta América, repaginada e mais palatável internacionalmente, que triunfa nos rankings musicais mundiais.
Os símbolos trazidos no Super Bowl, supra de tudo, mantêm os Estados Unidos no núcleo do palco. Schumpeter mostra que o ciclo de inovação leva à monopolização de mercados. Com a inovação do espetáculo americano, vence o monopólio de Washington sobre a América —o continente, não o país.
E por mais que Donald Trump tente escoriar essa lógica, seu procuração chegará ao termo em breve, já a indústria cultural americana permanecerá.
Do lado de cá da traço do Equador, nós brasileiros, historicamente avessos à integração cultural latino-americana, tentamos tirar uma casquinha de um espetáculo que não é nosso.
São alguns os exemplos de porquê o espetáculo reverberou na política institucional brasileira. “Lindo ver Bad Bunny fazendo história. O mundo inteiro vendo que o povo latino tem um orgulho danado de ser quem é”, postou o Ministério da Cultura em suas redes. A deputada Luciene Cavalcante (PSOL) pediu título de cidadão brasiliano para Bad Bunny.
Em generalidade, há uma tentativa de colocar cá um exposição de integração para além das fronteiras dos Estados Unidos, que soa porquê uma apropriação rasa e oportunista.
De qualquer forma, a repercussão do show de Bad Bunny deixa muito evidente porquê é mediano, para nós brasileiros, o olhar do norte-americano. Ainda nos importa muito que o Tio Sam queira saber a nossa batucada. Mas que bom que estamos na tendência.
