Cinza, pluvial e insensível. As previsões indicam que nascente domingo não deve ser animador para a maioria dos britânicos. Para uma comitiva de artistas brasileiros que está em Londres, porém, o dia pode ter um desfecho mais luminoso caso seu filme seja premiado no Bafta, a principal evidência do cinema no Reino Unificado, que entrega seus troféus nesta noite.
“O Agente Secreto”, protagonizado por Wagner Moura, disputa em duas categorias —Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Roteiro. Outros dois brasileiros também concorrem: Adolpho Veloso, pela retrato de “Sonhos de Trem”, e Petra Costa, pelo documentário “Apocalipse nos Trópicos”, ambas produções da Netflix.
Mas, se os brasileiros voltarem de mãos vazias, não há motivo para preocupação em relação ao Oscar. Não são somente o clima e o sotaque, por fim, que diferenciam o júri da premiação realizada em Londres daquele que se reunirá em Los Angeles no dia 15 de março.
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que o Bafta está longe de ser um termômetro do Oscar —e décadas de histórico sustentam essa avaliação, inclusive em anos em que brasileiros estiveram na disputa.
Para inaugurar, a corrida americana é mais ampla: além de Melhor Filme Internacional, “O Agente Secreto” aparece nas categorias de Melhor Filme, Melhor Direção de Elenco e Melhor Ator, para Wagner Moura. Costa não está na disputa, mas Veloso concorre.
Filmes brasileiros já ganharam um e perderam o outro —e vice-versa
Ser indicado, premiado ou esnobado pelo Bafta diz pouco sobre as chances de um filme no Oscar, já que o corpo de votantes de cada premiação é dissemelhante.
Na temporada passada, “Ainda Estou Cá” —drama de Walter Salles protagonizado por Fernanda— deu ao Brasil seu primeiro Oscar, mas não teve o mesmo desempenho no Bafta.
A premiação britânica chegou a indicar o longa —sobre o deputado Rubens Paiva, morto pela ditadura militar—, mas deu o troféu de Melhor Filme em Língua Estrangeira a “Emilia Pérez“.
O inverso também já aconteceu. Em 1999, “Meão do Brasil”, outro título de Salles, nascente com Fernanda Montenegro, venceu o Bafta na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, mas não teve o mesmo direcção no Oscar, concorrendo na mesma categoria.
Em 2003, um pouco semelhante ocorreu com “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles e Kátia Lund: o filme ganhou o Bafta de Melhor Edição, pelo trabalho de Daniel Rezende, mas saiu sem estatuetas da cerimônia americana.
Nem fenômenos globais escapam das diferenças
A diferença entre as premiações pode ser observada até em fenômenos globais. A franquia “Harry Potter”, uma das mais bem-sucedidas da história do cinema, é um exemplo.
O quarto filme da série, “O Cálice de Queimação”, venceu o Bafta de Melhor Design de Produção, pelo trabalho de Stuart Craig, responsável por levar às telas o universo criado por J. K. Rowling. O capítulo último (“As Relíquias da Morte – Secção 2”), conquistou o troféu de Melhores Efeitos Visuais.
Mas no Oscar “Harry Potter” nunca foi premiado, apesar de ter conquistado uma série de indicações. Isso só mudaria com um derivado da franquia, “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, ambientado em Novidade York e protagonizado por bruxos americanos.
Embora o longa-metragem tenha seguido a tradição de ser filmado nos periferia de Londres, o cenário e os personagens americanos foram suficientes para a Liceu de Artes e Ciências Cinematográficas conceder à saga o seu primeiro Oscar —o de Melhor Figurino, para Colleen Atwood, também americana.
O viés identitário de cada liceu
O caso de “Harry Potter” não é solitário, e isso se deve à formação de cada liceu, cujas escolhas seguem critérios de raiz psicológica, afirma Nik Steffens, professor de psicologia da Universidade de Queensland, na Austrália, e responsável de um estudo sobre as diferenças entre as premiações a partir da identidade de seus votantes.
Junto a pesquisadores da Inglaterra e da Holanda, Steffens analisou murado de milénio indicações e prêmios de ambas as láureas na categoria de atuação e identificou alguns padrões.
O principal foi que atores americanos tinham mais do que o duplo de chances de lucrar o Oscar, ao passo que os britânicos apresentavam a mesma proporção de nepotismo no Bafta.
“Ambos os prêmios dizem comemorar a ‘melhor atuação’. Mas a psicologia nos mostra que ‘melhor’ nunca é um pouco percebido em um vácuo social. É moldado por grupos que fazem avaliações de combinação com seu tino de pertencimento ao mundo”, diz Steffens.
O grupo também conduziu uma pesquisa voltada a premiações esportivas, e os resultados foram semelhantes. “Quando compartilhamos a mesma identidade —formada por elementos uma vez que nacionalidade, cultura e profissão—, percebemos nuances no trabalho das pessoas e somos mais propensos a interpretar fatores uma vez que anfibologia uma vez que genialidade, em vez de um pouco estranho”, explica o professor.
Segundo o estudo, as diferenças identitárias são ainda mais relevantes na lanço de premiação do que na de indicação. Steffens acrescenta, no entanto, que essa influência é muitas vezes inconsciente e não significa que “os votantes sejam tendenciosos de forma regateira”.
“Nossa identidade molda o que valorizamos e o que consideramos fabuloso”, ele diz. “As premiações funcionam uma vez que atos de celebração coletiva de quem somos e de quem queremos ser.”
Quem pode votar em cada prêmio —e uma vez que isso muda o jogo
Para além dos fatores psicológicos, há diferenças estruturais entre as academias, afirma o jornalista brasílio e crítico de cinema Rodrigo Salem, que vive em Los Angeles e cobre as premiações há quase duas décadas.
Secção dessas distinções, aliás, contribui para a percepção generalizada de que o prêmio americano é mais relevante do que o britânico. “O Bafta, há alguns anos, não era muito representativo. Era exclusivamente inglês, entregue em seguida o Oscar, portanto ninguém nem dava muita globo. A mudança da data de entrega aumentou a visibilidade”, diz Salem.
O Oscar não tem inscrições abertas ao público para optar seus votantes. A ingresso é por invitação.
As regras variam de uma categoria para a outra —cada membro, por fim, pode votar somente em seu próprio ramo de atuação—, mas todas exigem experiência significativa no cinema, base de integrantes que já façam secção da liceu e, por término, a aprovação de um comitê executivo de cada espaço. A exceção são os vencedores da estatueta, que passam maquinalmente a ser considerados para ingresso.
Já a liceu do Bafta exige que o profissional atue na indústria do cinema, da TV ou dos jogos —sendo, portanto, mais oportunidade —e tenha cinco anos de experiência na espaço, independentemente da relevância de seus trabalhos. Há, porém, uma categoria mais simples, que não exige esse tempo mínimo, mas sim evidências de que o profissional está construindo uma curso com potencial.
Ambas as categorias, no entanto, permitem letreiro pública mediante o pagamento de uma taxa, que varia de £ 135 (R$ 942) a £ 606 (R$ 4.230) e pode variar de combinação com a residência do votante – quem mora em Londres ou nas proximidades da capital inglesa, por exemplo, paga menos.
“A intersecção entre os corpos votantes do Bafta e do Oscar é mínima. Fazer secção da liceu do Bafta não é um pouco muito restrito. Você paga a taxa, faz a letreiro pela internet e pronto”, diz o crítico de cinema. “Há quem vote nos dois, mas o rigor de Hollywood e do Oscar é maior.”
Salem diz confiar que o Oscar hoje seja mais receptivo a filmes estrangeiros, principalmente porque, na última dez, a liceu em Hollywood precisou furar suas portas para profissionais de fora dos Estados Unidos em seguida crises de credibilidade e audiência.
“O Oscar tem mais brasileiros entre seus votantes e uma identidade cultural mais diversa. Não é mais uma vez que antigamente, quando eram americanos com alguns poucos intrusos de fora. Apesar de ter maioria americana, o prêmio se abriu desde 2019, quando começaram as críticas de que a liceu era muito branca, masculina e americana”, ele afirma.
Ajuda nunca é demais
A visão de quem concorre ao Bafta não é muito dissemelhante. O paulistano Adolpho Veloso, na disputa de Melhor Retrato por “Sonhos de Trem”, diz não ver muitas chances na cerimônia deste domingo, mas afirma que, caso seja surpreendido, isso pode simbolizar um impulso em sua corrida rumo ao Oscar.
“É uma exposição, porque, a partir do momento em que você ganha o Bafta, mais pessoas que votam no Oscar e ainda não assistiram ao seu filme podem enfim dar uma chance.”
Veloso afirma que o reconhecimento pode ser relevante na campanha pelo prêmio americano porque, para produções independentes uma vez que “Sonhos de Trem” e “O Agente Secreto”, sem grandes estrelas internacionais diante ou detrás das câmeras, o maior duelo muitas vezes é fazer com que os votantes assistam ao filme —e não necessariamente que gostem dele. “Pode não ser um termômetro, mas é um empurrão para o Oscar.
