“Não sabia que estava tentando me distanciar da minha negritude para que pudesse parecer um pouquinho mais dentro do padrão. Não percebia que era isso que eu estava fazendo, mas havia uma insatisfação com a minha figura”, relata o bailarino João Pedro Silva, 24, sobre o enfrentamento do racismo nos palcos do balé clássico.
Originário de Itabuna, no sul da Bahia, João começou a dançar aos 13 anos e hoje vive em Memphis, nos Estados Unidos, e se prepara para mudar para a Philadelphia para se juntar à companhia BalletX. Enamorado pelo balé desde a puerícia, ele sonha em se tornar uma referência para meninos negros que queiram seguir curso na dança.
Para ele é importante que pessoas negras possam sonhar e se sintam capazes de ocupar espaços diversos dentro da arte, o que é um repto em espaços onde as referências são escassas. Hoje, ele usa seu cabelo afro e diz estar aprendendo a amar seus traços e sua origem cada dia mais. No início de sua curso, porém, não foi assim.
João chegou aos EUA aos 18 anos, depois receber uma bolsa para estudar no Miami City Ballet, em Miami. Sozinho na cidade e com pouco conhecimento de inglês, o jovem diz ter se sentido deslocado por muito tempo e, na era, não sabia identificar que os desconfortos que vivia se deviam ao racismo.
Ao fazer audições ele ouviu repetidas vezes que não poderia interpretar personagens centrais. “Escutava as pessoas falando: ‘você não é o príncipe, pode ser o colega do príncipe, mas não se parece com um príncipe’.”
Durante qualquer tempo, ele tentou se adequar ao padrão majoritariamente branco que via nos palcos: comprava maquiagens mais claras do que o tom da sua pele, evitava a praia e o sol, para não se bronzear, e alisava o cabelo. “Eu era muito novo e estava passando por coisas que nem sabia que eram racismo.”
Se conectar com outros bailarinos negros foi necessário para que pudesse restaurar sua autoestima e também o aproximou de uma de suas principais referências, a bailarina e escritora Ingrid Silva. Hoje, além de já terem dançado juntos, os dois se tornaram amigos: “Ela veio me visitar esses dias e quando vou a Novidade York sempre a vejo.”
Em 2021, depois o período mais severo da pandemia, ele se mudou para Memphis para integrar o Collage Dance Collective, uma companhia de dança formada por bailarinos negros que trata questões raciais em seus espetáculos.
Entender um pouco mais sobre as questões raciais dos EUA fez com que ele refletisse também sobre suas origens na Bahia. “Muitos dos traumas que os pretos americanos passam são traumas que a gente tem no Brasil.”
João cresceu em uma favela da cidade de Itabuna, com a mãe, a avó e as seis irmãs. Quando muchacho, praticava capoeira, mas se interessava mesmo pelas aulas de balé que uma de suas irmãs frequentava, mas a modalidade, porém não era vista uma vez que “coisa de menino”. Sua família, portanto, o matriculou em aulas de hip-hop e sapateado.
A mudança veio quando seus pais assistiram a uma apresentação sua e, emocionados, deram permissão para fazer balé. Poucos meses depois, o pai de João morreu. “Ele nunca conseguiu me ver no palco, mas ter esse reconhecimento dele foi uma das minhas maiores vitórias.”
Dois anos depois de debutar as aulas, o jovem foi destaque em uma competição em Salvador que lhe rendeu uma bolsa para estudar no Rio de Janeiro temporariamente. Lá, recebeu uma oferta para continuar os estudos. Foi portanto que sua mãe, Claudia Barbara, 55, decidiu mudar-se com ele para a capital fluminense. Ela passou a trabalhar com faxina para custear a estadia dos dois na cidade, enquanto João se dedicava à escola pela manhã e ao balé durante a tarde.
O baiano participou de competições com cada vez mais visibilidade e, em 2018, representou o Brasil em um torneio nos EUA. Seu desempenho rendeu uma bolsa de estudos no Miami City Ballet.
Depois da mudança para Miami, sua mãe voltou para perto da família, na Bahia. O esteio de Claudia foi necessário, diz. Ele lembra que, depois fechar seu primeiro contrato nos EUA, a primeira coisa que fez foi custear a reforma da mansão da mãe, que alagava durante chuvas fortes. “O mínimo que eu posso fazer é tentar retribuir todo o esforço dela.”
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