Uma moradia enxurrada de sagas pessoais, planos mirabolantes e a eterna procura por um lugar ao sol —mesmo que nascente lugar seja um pequeno apartamento. É nesse cenário que a peça “Baixa Sociedade”, texto seminal de Juca de Oliveira, ganha novidade vida a partir de 10 de janeiro de 2026 no Teatro Renaissance, em São Paulo. Sob a direção de Pedro Neschling, o elenco liderado por Luiz Fernando Guimarães promete reacender o debate sobre desejo, moral e as aparências que definem uma certa teoria de Brasil —debate que, quase cinco décadas depois da estreia da obra, segue atual.
A trama, uma comédia de costumes de humor ácido, concentra-se no microcosmo familiar de Otávio. Vivendo em um “pardieiro” com o rebento Otavinho (Bruno Gissoni), ele é um arquiteto de falácias, um malandro de classe média baixa que acredita piamente que a subida social começa pela fraude muito executada. Seus planos se embaraçam com a chegada de duas mulheres —Ritinha (Bruna Trindade), que procura firmeza ao lado do rebento, e Ana Maria (Isabella Santoni), ex-namorada do qual retorno vira o jogo emocional da moradia. Em 80 minutos, a peça escancara o mistério entre o libido de grandeza e a precariedade do pavimento.
Para Juca de Oliveira, aos 91 anos, a longevidade da peça é um testemunho das permanências nacionais. “O mundo mudou muito em 50 anos, mas a origem do varão continua a mesma, logo os tropeços são os mesmos!!!”, diz o responsável. Ele vê na história uma dualidade eterna. “A peça retrata os dois lados que caracterizam os conflitos éticos na sociedade: de um lado o mundo do poder, da ganância e do glamour e a insensibilidade da classe dominante. Do outro, um varão simples com sua astúcia, perceptibilidade e aparente ingenuidade.”
Na berlinda dessa engrenagem moral está Luiz Fernando Guimarães, que celebra meio século de curso justamente com nascente papel. O ator, cuja trajetória deslanchou no humor anárquico do grupo “Asdrúbal Trouxe o Trombone”, nos anos 1970, vê uma traço direta entre aquela ousadia e a construção de Otávio. “Acredito que o ‘Asdrúbal’ tenha me oferecido toda a estrutura uma vez que ator e uma vez que comediante… o desaforo, o deboche, essas coisas todas que vêm me acompanhando”, reflete. “E acho que o Otávio de ‘Baixa Sociedade’ é um debochado, é um irônico, um rosto que, por muitas vezes, passa por cima das pessoas para obter aquilo que ele deseja.”
Guimarães, no entanto, evita uma caricatura. Encontra a humanidade do personagem em sua lógica distorcida. “Ele tem um rebento, ele quer arrumar o rebento com uma rapariga ou com outra. É um armador, digamos assim. E, ao mesmo tempo, ele inventa coisas que não servem absolutamente para zero, para que ele tenha a sensação de que ele é útil à sociedade”, analisa. Esse “armador” é, para ele, um tipo familiar. “É um personagem que não sou eu, mas é um personagem que conheço muitas pessoas que são assim.”
Coube ao diretor Pedro Neschling a tarefa de costurar esse protagonista de presença poderoso a um elenco jovem e de reapresentar um texto clássico a uma plateia de 2026. O saudação ao original foi a bússola. “Quando eu peguei o texto, a primeira coisa que eu fiz foi, evidentemente, respeitar o DNA do Juca, porque ele construiu muito muito essa peça. Ela é muito ligeiro, muito divertida, muito fluida”, explica Neschling. As mudanças foram pontuais, ajustando referências e piadas que soariam anacrônicas. “Evidentemente que uma vez que a peça tem mais de 30 anos, a forma de se expor certas coisas mudou.”
Neschling encontrou na cenografia do apartamento confinado uma metáfora visual poderosa. “A peça se passa toda no apartamento que é onde o personagem do Luiz, o Otávio, está enclausurado, refugiado. E a ação se passa toda através desses personagens periféricos, nesse entra e sai, que vão movimentando a trama”, afirma. É nesse espaço restringido que se desenrola a ilusão de grandeza do protagonista, um varão que “quer dominar o mundo”, mas mal consegue transpor de moradia.
Para Juca, a escolha de Guimarães foi procedente. “Luiz Fernando é um talento indiscutível, um comediante extraordinário! O sonho de qualquer responsável é recontar com ele uma vez que protagonista”, diz. O dramaturgo, que se inspira em Aristóteles para proteger o valor ético da comédia, acredita que o riso é uma forma de perceptibilidade. “A grande mágica do teatro é que, enquanto o drama provoca a emoção e nos leva às lágrimas, a comédia suscita o riso, excita o cérebro e a perceptibilidade.”
Aos 76 anos, Guimarães mantém o ímpeto físico que marca sua comicidade, mas sublinha um processo mais cerebral. “Eu palato muito de trabalhar com um diretor que marca, e antes de eu interpretar o personagem, eu procuro entendê-lo”, diz. O resultado, garante, é fruto de uma construção coletiva com Neschling. “A partir das marcações do diretor… que foram sensacionais, eu vou construindo o personagem.”
O reencontro do público com “Baixa Sociedade” em 2026 é um reexame. Em uma era obcecada por curadoria de vida e projeções de sucesso nas redes sociais, Otávio pode parecer um predecessor patético e genial do influencer fracassado. Sua moral maleável e sua fé no “jeitinho” soam uma vez que um repercussão amplificado de um traço cultural que teima em não mudar.
A montagem, portanto, faz mais do que comemorar um clássico. Ela promove um encontro geracional triplo —o olhar crítico e perene de Juca de Oliveira, a maestria cômica e a experiência de Luiz Fernando Guimarães, e a linguagem cênica contemporânea de Pedro Neschling. Juntos, eles confirmam que o palco continua sendo, uma vez que definiu o responsável, um espaço para que saiamos “um pouco mais leves, soltos e humanamente melhores” —mesmo quando o espelho que ele nos mostra é o de um Brasil ainda muito familiar.
