Durante a pandemia, sem poder trabalhar no ateliê devido às restrições do período, Beatriz Milhazes fez fotos de algumas de suas pinturas inacabadas e levou para vivenda. As imagens foram o pavio para um novo jeito de fabricar —ela passou, pela primeira vez na curso, a riscar o que depois iria para o quadro, porquê um arquiteto a projetar um espaço.
Quando a pandemia abrandou e ela reabriu o ateliê, percebeu ser provável transpor os desenhos, com fidelidade, para as telas de grandes dimensões que está acostumada a fazer. “O traçado tem certa intimidade, é mais introspectivo. A pintura é muito viril, presente, física, mesmo que seja pequena”, ela afirma, ao comentar “O Giro das Águas I”, uma obra do ano pretérito criada a partir de um projeto.
Inédita, a pintura está exposta agora no Museu de Arte da Bahia, na primeira mostra da artista em Salvador, em edital até o final de abril. O curador Tiago Mesquita selecionou 22 trabalhos de 1993 até os dias de hoje para dar conta da curso da carioca, uma grande expoente da arte abstrata que vive um ótimo momento internacional —ela expôs no ano pretérito no museu Guggenheim, em Novidade York, depois de ter uma obra na Bienal de Veneza de 2024.
A mostra na capital da Bahia se debruça sobre pinturas, mas há também algumas colagens e uma instalação. Os trabalhos de Milhazes são porquê as imagens que surgem quando você fecha os olhos e os aperta com os ossinhos das dobras dos dedos —caleidoscópios de formas geométricas em cores saturadas, círculos que parecem se movimentar embora estejam estáticos, mandalas que se expandem e ocupam o espaço da tela.
São “formas trabalhadas individualmente, que têm uma luminosidade muito intensa”, diz o curador. A artista complementa, afirmando que suas obras, embora passem uma teoria de espontaneidade, são racionais.
Um olhar vigilante mostra a cuidadosa organização dos muitos elementos de cada elaboração, resultantes de um pensamento cartesiano e de uma maneira de pintar inventada por Milhazes, batizada por ela de “monotransfer”.
Primeiro, ela aplica a tinta sobre uma folha de plástico e espera secar, para em seguida grudar esta película sobre a tela da pintura, num jeito de pintar de maneira indireta. O resultado são cores lisas, chapadas, ou, porquê em muitas de suas obras, com pequenas imperfeições que acontecem na hora de transferir o pigmento de uma superfície para a outra. Tais imperfeições fazem secção dos trabalhos, não são falhas.
O envolvente expositivo no Museu da Bahia, uma sala no segundo andejar do palacete de 1918 que estava sem uso há qualquer tempo, cria um contraste bruto com as cores fortes dos quadros. Com seu piso truncado de cimento, o espaço não se parece com o tradicional cubo branco maninho onde geralmente vemos arte, e tanto as obras de Milhazes quanto o testemunha ganham com isso.
Valendo-se da arquitetura do lugar, a artista interveio nas janelas que dão para a rua, uma via bastante movimentada de carros, ônibus e pessoas em Salvador. Ela fez para o museu uma novidade versão de um trabalho apresentado originalmente na Pinacoteca de São Paulo, em 2008, colando vinis sobre os vidros, de modo que a luz do sol, ao incidir, projeta no soalho as cores dos adesivos —é um trabalho vivo, que muda de tonalidade de combinação com a hora do dia.
Com quase 40 anos de curso, sendo 30 deles expondo mundo afora, Milhazes lembra das dificuldades que enfrentou para elevar no cenário internacional a partir dos anos 1990. Ela relata não ter sido fácil, porquê mulher de país periférico querendo entrar na pintura —”que é muito masculina e que fez a história da arte”, diz— com suas telas abstratas carregadas de referências à arte popular e ao Carnaval.
“Pisei em ovos. Não queria parecer que eu estava trazendo um estereótipo. Imagina, uma mulher latina falando de Carnaval, vão descobrir que eu vou chegar de biquíni dançando”, ela afirma, acrescentando que seu objetivo era não omitir sua origem nem apreço pela tradicional sarau de fevereiro e, ao mesmo tempo, tratar disso de forma séria. “Estou falando da minha cultura, porque essa eu conheço.”
Ela relata ainda ter sido esnobada pela sátira da dezena de 1980, que sugeria a ela que tirasse das telas os pedaços de chitão, um tipo de tecido, e deixasse somente as formas geométricas. Mas o jogo mudou e a artista reconhece que, sozinha, não teria ido tão longe.
Milhazes menciona o esforço do galerista Marcantonio Vilaça em levar talentos brasileiros —dentre os quais ela estava inclusa— para as feiras de arte fora do Brasil e um texto de Roberta Smith, no jornal New York Times, sobre a sua primeira exposição em Novidade York, em 1996. “Esta sátira me abriu muitas portas.”
O jornalista viajou a invitação da galeria Fortes D’Aloia & Gabriel
