O Benfica e seu treinador, José Mourinho, tornaram-se mira de críticas por sua reação à querela de racismo feita pelo brasiliano Vinicius Junior, do Real Madrid, contra o prateado Giangluca Prestianni, do time português. O clube, em seus canais oficiais, e o técnico, em sua entrevista posteriormente a partida, colocaram-se ao lado de Prestianni no incidente.
Vinicius disse ter sido chamado de “mono”, “macaco” em espanhol, pelo contendedor pouco depois de ter marcado o gol da vitória por 1 a 0 do Real Madrid, na terça-feira (17), no Estádio da Luz, em Lisboa. O duelo, o jogo de ida do mata-mata que vale vaga nas oitavas de final da Champions League, chegou a ser interrompido pelo louvado francesismo François Letexier.
Mourinho sugeriu que a celebração do atacante, uma dança com o rosto próximo à bandeira do Benfica fincada na marca do escanteio, tenha provocado as reações negativas. “Quando se marca um gol daqueles, não vai mexer com o coração do estádio contendedor”, afirmou o técnico. Já o Benfica publicou que, “dada a intervalo, os jogadores do Real Madrid não podem ter ouvido o que andam a manifestar que ouviram”.
“José Mourinho ataca o caráter de Vinicius Junior para desacreditá-lo. Para mim, em termos de liderança, é um grande erro, é um tanto que não devemos concordar”, disse o técnico do Bayern de Munique, o belga Vincent Kompany, que repudiou ainda a menção a Eusébio, varão preto nascido em Moçambique que é o maior ídolo da história do Benfica.
“Ele cita o nome de Eusébio, maior ídolo da história do clube, para manifestar que o Benfica não é racista. Não sabe o que os jogadores negros tiveram que tolerar na dez de 1960. Muitos anos mais tarde, eu também sofri racismo na minha curso”, acrescentou Kompany, que foi capitão da seleção belga e do Manchester City na dez passada.
A sátira foi repetida por outros ex-jogadores, uma vez que o francesismo Lilian Thuram, e o brasiliano Luisão, que é um dos grandes nomes do Benfica neste século. O paulista, que foi capitão da equipe lisboeta, fez uma série de publicações nas redes sociais lamentando o comportamento adotado nos canais oficiais da formação vermelha.
“Também fui mira de ofensas, inclusive racistas, depois de me manifestar”, escreveu Luisão. “Isso dói, mas não me fará recuar. Posso ter ignorado provocações desportivas ao longo da curso, mas nunca me calarei diante da discriminação de uma minoria que não representa o clube que senhor.”
Estava marcada para esta sexta-feira (20) uma entrevista coletiva de Mourinho, mas ela foi cancelada. Em vez de realizar o encontro com os jornalistas, o Benfica publicou em seu site declarações do treinador sobre o momento do time e os próximos jogos. O nome de Prestianni só é citado para mostrar que ele será falcatrua, por suspensão, da partida contra o AVS, pelo Campeonato Português.
A Uefa (União das Associações Europeias de Futebol), organizadora da Champions, abriu uma investigação sobre o caso, porém ainda não apresentou nenhuma desfecho. A partida de volta no duelo entre Real Madrid e Benfica está agendada para a próxima quarta-feira (25), no Bernabéu, em Madri.
Enquanto não chega o dia do próximo encontro, circulam nas redes sociais imagens de torcedores da associação lisboeta fazendo gestos de macaco no confronto da última terça. Pressionada, a diretoria vermelha anunciou nesta sexta que fará uma investigação e desligará os sócios que tiverem participado de manifestações racistas posteriormente o gol de Vinicius.
“Manifestar que o comportamento de Vinicius Junior, ao dançar com a bandeira do Benfica, provocou uma ofensa racista é o mesmo que manifestar que uma rapariga que usa minissaia merece ser estuprada”, disse o jurisperito André Megale, perito em recta esportivo.
Megale foi diretor de compliance da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) de 2017 a 2021, idade em que implantou o código de moral da entidade. Ele acredita que as políticas antirracistas mais eficientes são aquelas implantadas dentro dos próprios clubes.
“Entidades uma vez que a CBF e a Uefa podem e devem dar as linhas gerais de compliance, mas são os clubes que mantêm uma relação próxima com os torcedores. Também são eles os responsáveis por educar os jogadores”, afirmou.
O site do Benfica não tem um documento específico sobre o tema, mas o clube criou no pretérito iniciativas pontuais, uma vez que o evento “Show racism the red card” (“Dê cartão vermelho para o racismo”), um dia de atividades educativas em 2020. O evento foi promovido pela Instalação Benfica, tal qual presidente, Carlos Moia, foi procurado pela reportagem. A equipe de notícia da entidade respondeu que ele não poderia conceder entrevista por estar “ausente do país”.
Para Luisão, a situação vivida no Estádio da Luz oferece uma chance ao Benfica.
“Que saiamos desse incidente melhores. Uma vez que clube, uma vez que adeptos, uma vez que sociedade. O futebol é paixão, é intensidade. Mas, antes de tudo, é humanidade. E humanidade não admite racismo.”
