Berlim: Diversidade brasileira sugere cinema em retomada 22/02/2026

Berlim: Diversidade brasileira sugere cinema em retomada – 22/02/2026 – Ilustrada

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Muitas perguntas poderiam ser feitas a Beth de Araújo, diretora independente americana do potente “Josephine”, a história de uma moça de oito anos que testemunha um transgressão sexual. Em Berlim, no entanto, ter “metade da família brasileira”, uma vez que declarou em entrevista, fez a realizadora ser questionada sobre o cinema do país natal de seu pai.

“Acompanho os diretores brasileiros, assisto a todos os filmes”, disse Araújo, depois de malparar um “oi, tudo muito?” que poucos entenderam na sala de prensa da Berlinale, na sexta. Dias antes, curiosamente, ela passava quase despercebida na recepção organizada pela embaixada brasileira na capital alemã para Kleber Mendonça Fruto, diretor de “O Agente Secreto”, que concorre ao Oscar neste ano em quatro categorias.

O salão estava referto de brasileiros ligados à indústria de cinema, revérbero de quase uma dezena de inscrições do país nas sinais paralelas do Festival de Berlim. “Feito Pipa”, de Allan Deberton, ganhou o Urso de Cristal da mostra Generation Kplus e também o prêmio do júri internacional da mostra paralela.

O longa acompanha a vida de Gugu, um menino de 12 anos, vivido por Yuri Gomes, que mora com a avó ao lado de uma barragem e tem uma relação difícil com o pai, papel de Lázaro Ramos. “Ver nossas histórias alcançando o mundo e sendo celebradas internacionalmente mostra a potência criativa do nosso país”, disse Deberton.

“Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, primeiro longa de Janaína Marques, foi eleito pelos leitores do jornal berlinense Tagesspiegel, parceiro de mídia da Berlinale, uma vez que destaque da seção Fórum. “É muito emocionante ver um filme tão íntimo se conectar com o público em um festival tão próprio uma vez que o de Berlim”, disse Marques, em nota.

Também tiveram sessões concorridas “Nosso Sigilo”, de Grace Passô, “Isabel”, de Gabe Klinger, “A Fabulosa Máquina do Tempo”, documentário de Eliza Capai sobre o impacto do Bolsa Família sobre meninas de uma cidade do interno do Piauí, e “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, de André Novais Oliveira, com a escritora Conceição Evaristo uma vez que uma das protagonistas.

“Fazer um filme são tantas etapas e tanto tempo. O dia que você vê outras pessoas assistindo é uma loucura”, declarou Passô sobre levante que é seu primeiro longa na direção, adaptando as primeiras peças que escreveu. “Esse sistema tão industrial do cinema difere muito do teatro. Sobretudo essa relação com o mercado.”

“Nosso Sigilo” versa sobre o luto em uma família negra em Belo Horizonte. “São figuras quase arquetípicas de uma família com muitos filhos, com muitos irmãos no Brasil”, afirmou a diretora. “A teoria de um rebento mais velho que, na privação do pai, acaba ocupando o espaço dele na família. O matriarcado, onde a mãe é tão importante e mediano.”

“Não é generalidade a gente ver tantos rostos retintos em uma tela de cinema, apesar do Brasil ser o Brasil”, afirmou, rindo, a atriz Ju Colombo, que interpreta a personagem da mãe. “Mas é universal o que está sendo mostrado ali.”

Um Brasil muito dissemelhante é mostrado em “Isabel”. A cineasta Marina Person, que foi chamada para contribuir com o roteiro sobre a história de uma sommelier de vinhos naturais, uma especialidade sua, acabou assumindo o papel-título. “Isabel”, na verdade, é um grande passeio pela São Paulo afetiva de Gabe Klinger.

“A cidade retratada no filme tem muito a ver com esse olhar de uma pessoa que ficou fora e volta para o lugar de origem, mas que, de certa forma, também pertence a quase um pretérito”, afirmou Person, sobre o longo tempo que o diretor viveu expatriado e longe de uma São Paulo que está sumindo: casas de vila, ruas de paralelepípedo, vizinhos.

Klinger usou uma vez que locação sua própria vivenda, no bairro da Aclimação, zona mediano da cidade, com um tom propositalmente artesanal, inclusive na filmagem, em 16 mm. Regiões do núcleo paulistano e de Pinheiros também aparecem bastante. Ter a capital paulista uma vez que protagonista também se relaciona com “São Paulo Sociedade Anônima”, filme seminal de Luiz Sergio Person, pai de Marina. A obra de 1965, restaurada pela Martin Scorsese Foundation, foi relançada no ano pretérito. “Marina já é segmento da história do cinema brasiliano”, afirma Klinger.

“E isso não só pela conexão que ela tem com o cinema do pai e da mãe [Regina Jehá], que também é uma cineasta incrível”, disse Gabe Klinger. Marina também é realizadora de “Califórnia”, de 2015, estrelado pelo ator Caio Horowicz, também no elenco de “Isabel”.

“É um momento muito profícuo do cinema brasiliano, tenho muito orgulho de também estar cá em Berlim com tantos filmes maravilhosos. Sou muito fã da Grace, sou muito fã do André, são referências pra mim”, disse Horowicz.

Ao seu lado, Marina Person lembrou que “a identidade de um país é feita da sua produção cultural”. “A gente vê o cinema trazendo nossa língua, nossa música, nossos atores, atrizes, diretores, roteiristas. É tão incrível isso e é tão poderoso. Eu gostaria muito que a gente voltasse a ter uma produção realmente consistente.”

Mas a Berlinale, com produções tão variadas, e o país no Oscar pelo segundo ano seguido, não são sinais de retomada? “Não voltou ainda. O Fundo [Setorial do Audiovisual] precisa voltar a funcionar uma vez que antes de 2016, para que a gente possa ter novos ‘Ainda Estou Cá’, novos ‘O Agente Secreto’. Para ser justo, esses filmes só existem porque foram 20 anos de consistência e formação de profissionais”, afirmou Person, usando uma vez que exemplos Adolpho Veloso, que concorre ao Oscar de retrato por “Sonhos de Trem” neste ano, e o diretor de arte Thales Junqueira.

Em Berlim, o trabalho de Veloso foi notado pela sátira internacional em “Queen at Sea”, filme de Lance Hammer que levou o Urso de Prata uma vez que prêmio do júri.

“A equipe de ‘O Agente Secreto’ foi formada nos anos em que a Ancine estava funcionando muito, naquele ciclo virtuoso que culminou com ‘Bacurau’, ‘A Vida Invisível’”, disse Person, citando filmes de Mendonça Fruto e Karim Aïnouz.

Dias antes, o diretor de “Rosebush Pruning”, que disputou a competição solene desta Berlinale, também defendeu o financiamento público para o cinema vernáculo. “Amigos brincam comigo que filmes brasileiros começam com aquele monte de logotipos, e eu respondo ‘é isso mesmo’. Só quem vem de um país onde o cinema não existe sem financiamento público sabe o que é isso.”

Folha

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