Bienal de arquitetura quer conectar ser humano à natureza

Bienal de Arquitetura quer conectar ser humano à natureza – 18/09/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

À primeira vista, as três estruturas em formato sextavado parecem somente piscinas incrustadas às margens do mar das ilhas Canárias. No entanto, um observador mais vigilante notará que elas são mais do que isso. Além de oferecer lazer, esses espaços protegem comunidades contra o progressão das marés e, de quebra, oferecem um habitat para espécies marinhas.

Embora ainda não tenha saído do papel, o projeto poderá ser visto a partir desta quinta-feira (18) na Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, em edital na Oca, no parque Ibirapuera. Intitulado “LIFE COSTadapta”, a obra sintetiza o mote de uma exposição voltada à geração de estratégias arquitetônicas para um planeta às voltas com as mudanças climáticas.

Não à toa, a edição deste ano foi batizada de “Extremos: Arquitetura para um Mundo Quente.” É uma proposta que se soma a outras iniciativas que jogam luz sobre a questão ambiental. No mesmo parque Ibirapuera, a Bienal de São Paulo, por exemplo, tensiona a relação muitas vezes predatória que o ser humano estabelece com a natureza. Proposta parecida pode ser vista no Masp, onde está em edital a exposição “Histórias da Ecologia”.

Apesar desse contexto pouco animador, a Bienal de Arquitetura não se entregou ao pessimismo. Por esse motivo, os 179 projetos presentes na mostra se debruçam não somente sobre os problemas, mas também sobre as soluções.

“A gente aponta um caminho de esperança, evidenciando que podemos promover mudanças por meio do trabalho nas cidades, nas comunidades e nos ecossistemas não urbanos”, diz Renato Anelli, um dos seis curadores da mostra.

“É uma primeira resposta dos arquitetos, urbanistas e paisagistas sobre o que pode ser feito para enfrentar os impactos das mudanças climáticas.”

O tom propositivo da exposição pode ser sentido em uma obra de Shigeru Ban, arquiteto nipónico ganhador do prêmio Pritzker, a láurea máxima da arquitetura mundial. Usando tubos de papel, Ban projetou uma mansão de quatro metros quadrados para homiziar de forma temporária pessoas desalojadas por desastres ambientais.

Esse, porém, não é o único trabalho que nasceu a partir de eventos extremos. Em 2024, escolas do Rio Grande do Sul perderam móveis em razão das enchentes que devastaram o estado. Uma das unidades afetadas foi o escola Ana Neri.

Pensando nisso, o escritório Sauermartins criou uma grande carteira escolar feita com madeira de eucalipto. A solução emergencial agradou os alunos e foi integrada de forma definitiva na rotina dos jovens.

Embora boa segmento dos trabalhos busque mitigar a crise ambiental, o modo porquê fazem isso não é consensual. “A Bienal é uma redondel em que há contradições, conflitos e também aspectos complementares”, diz Anelli. “Existem muitas formas de pensar uma solução para o mesmo problema.”

A urgência de tornar a construção social mais sustentável é um desses desafios que geram múltiplas respostas. Há quem aposte na substituição do concreto pelo cânhamo, nome popular da vegetal Cannabis ruderalis. É o caso do escritório EcoSapiens, que levou à bienal tijolos de cânhamo. Essa estratégia já é uma verdade na construção social de países porquê a Espanha.

Por outro lado, existem trabalhos que se voltam às comunidades tradicionais para encontrar alternativas sustentáveis. No Pará, por exemplo, a palmeira miriti é usada na confecção de brinquedos, prática que se tornou patrimônio incorpóreo do estado. Aos poucos, porém, essa vegetal passa a lucrar outros usos.

Um dos participantes da bienal, o artesão Joel Silva começou a trabalhar com esse material em Abaetetuba, sobre 100 km de Belém. Primeiro, ele se dedicou à confecção de embalagens. Depois, passou a desenvolver chapas de compensado. “A partir daí, as possibilidades se ampliaram. Quando entendi que esse material é multifacetado, passei a procurar parceiros na arquitetura para fazer outros projetos.”

Encontrou essa parceria no escritório Guá Arquitetura, dos arquitetos Luis Andre Guedes e Pablo do Vale. O resultado do trabalho pode ser visto na bienal, onde o trio expõe um lounge construído com ripas de miriti.

“A primeira vantagem desse material é que nenhuma árvore é cortada. Unicamente os galhos são utilizados”, diz Do Vale. “Ou por outra, é um substituto das madeiras tradicionais e ainda é uma forma importante de fazer projetos alinhados ao conhecimento avoengo. Para a gente, a arquitetura do porvir está no pretérito.”

A julgar pelos projetos da bienal, esse porvir está também na interação com a natureza. O escritório chinês Open Architecture levou essa premissa a novos extremos em 2018. À estação, eles inauguraram um museu enterrado sob as dunas de Beidaihe, na China. Um dos destaques da exposição, o projeto faz lembrar uma cidade subterrânea, à maneira dos povoados de filmes distópicos.

“É um trabalho bastante integrado à natureza e que tem muito a nos ensinar”, afirma Anelli, o curador da mostra. “As obras desse escritório são inovadoras do ponto de vista formal e apontam caminhos para os quais nós não estamos acostumados.”

O arquiteto chinês Kongjian Yu também assina obras que exploram a relação entre arquitetura e o meio envolvente. Além de dar uma palestra na fenda da bienal, Yu exibe projetos baseados em seu concepção de cidades-esponja, ou seja, metrópoles em que o planejamento urbano é pensado para reter e reutilizar a chuva, evitando inundações.

São trabalhos distantes da teoria de progresso que ganhou força a partir da revolução industrial. Nesse período, o objetivo era fazer a natureza se desnivelar diante dos desígnios humanos, mesmo que o resultado disso fosse a degradação ambiental. A partir dos anos 1970, no entanto, estudos acadêmicos passaram a mostrar que esse tipo de desenvolvimento não levaria a humanidade ao progresso, mas sim à catástrofe ambiental.

“A visão de que nós não fazemos segmento da natureza e, portanto, podemos explorá-la à vontade é a mudança que precisa ser feita. Caso contrário, não haverá quesito de sobrevivência”, diz Anelli.

Outro curador da bienal, Clevio Rabelo acrescenta que arquitetos podem ser aliados importantes dessa mudança de perspectiva. “A arquitetura sempre foi uma mediação, funcionando porquê gavinha entre as coisas. Ela pode desempenhar exatamente o papel de reconectar o varão à natureza, atuando porquê uma interface entre as pessoas e o meio envolvente.”

Folha

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *