Em uma ensolarada tarde de sexta-feira (5), Tiago Guedes estava ultimando os preparativos para a lisura da Bienal de Dança de Lyon quando recebeu a Folha, no prédio histórico do Hôtel-Dieu, hospital do século 18 convertido em espaço turístico. O coreógrafo português de 47 anos é, desde 2022, o diretor da Bienal, ocasião neste sábado (6) com uma programação que homenageia o Brasil.
“Quando estava a encetar a preparar, eu disse: vamos fazer uma Bienal dedicada ao Brasil.” A teoria foi oportuna, pois coincidiu com a “temporada cruzada” Brasil-França, calendário solene de eventos que se encerra levante mês em solo galicismo e segue até o termo do ano no Brasil, marcando os 200 anos de relações diplomáticas entre os dois países.
“É um vestuário que em França conhece-se supra de tudo a Lia Rodrigues, o Grupo Corpo e não muito mais”, explica Guedes, que também dirige a Maison de la Danse de Lyon. “Portanto, achei que seria uma oportunidade interessante para atualizar, fazer uma mistura de gerações e [mostrar] uma flutuação de estéticas.”
Oriente ano o Grupo Corpo não está na Bienal —veio a Lyon em março—, mas Lia Rodrigues estará. A coreógrafa carioca, que possui o título de “artista associada” do evento, trouxe “Borda”, que completa uma trilogia composta por Fúria (2018) e Seduzido (2021). Depois de duas apresentações, no sábado e na segunda (8), Lia segue em turnê pela França, com os bailarinos da Favela da Maré, com quem trabalha há duas décadas.
“A Lia é uma das grandes coreógrafas mundiais da atualidade”, elogia Guedes, que a conhece dos tempos em que dirigia o Teatro Municipal do Porto, em Portugal. “Acompanhamos muito o seu trabalho. ‘Borda’ tem levante duplo significado: é a borda de um tanto que é o limite, mas também o zelo que nós temos ao bordar. O trabalho da Lia fala dos conflitos do mundo, mas também do zelo que é preciso termos uns com os outros.”
Cada visitante de Lia é um caso no mundo da dança galicismo —com recta, desta vez, a uma entrevista de página inteira no Le Monde. Para o jornal parisiense de referência, “essa artista discretamente engajada desdobra seu sensual movimento dançante e teatral em ficções espetaculares, onde a formosura do grupo se conjuga com vigor coletivo.”
Os artistas brasileiros na Bienal, além de Lia, foram reunidos sob o título de “Brasil Agora!”. Volmir Cordeiro, coreógrafo brasílio radicado na França, apresentou na tarde desta sexta “Rue”, na Place de la République, no coração de Lyon. Porquê o nome indica, o espaço público vira palco, misturando elementos do samba e da capoeira em uma coreografia intensa, acompanhada pelo percussionista Washington Timbó.
Alejandro Ahmed e o Grupo Cena 11 trazem “Eu não sou só eu em mim”, que faz referência às múltiplas identidades da população brasileira. Os piauienses da companhia Original Bomber Crew misturam break e capoeira em “Vapor: Ocupação Infiltrável”. Clarice Lima transforma o corpo humano em floresta multicolorida em “Brenha”, que esteve em São Paulo em junho, no Sesc Belenzinho.
A nudez ajuda a denunciar a violência racista e homofóbica em “Repertório N.2”, de Davi Pontes e Wallace Ferreira, e “O Samba do Crioulo Doido”, de Luiz de Abreu e Calixto Neto. A resistência também é o tema de “Corpo-Território”, de Diego Dantas, diretor artístico do Núcleo Coreográfico do Rio de Janeiro, espetáculo de fecho do festival.
Porquê indica a lista supra, muitas peças apresentadas na Bienal têm caráter político. “Os coreógrafos são artistas atentos ao mundo. Portanto, em uma Bienal em 2025, quando o mundo atravessa tantos problemas, é inevitável. Isso é bom no sentido de que a dança não é só para divertir e olvidar o mundo”, diz Tiago Guedes.
Mas a Bienal também diverte. Uma das marcas que Guedes imprimiu ao evento é a teoria de que o público também quer e pode dançar. Todas as noites haverá baladas ao final das apresentações, em diferentes pontos de Lyon, inclusive com DJs brasileiros.
“O Brasil tem uma prestígio simbólica para a Bienal”, explica Guedes, dando perenidade a tradições iniciadas por seus antecessores na direção do evento, Guy Darmet e Dominique Hervieu. Uma dessas tradições é um desfile de dançarinos amadores pelas ruas de Lyon, que lembra os carnavais brasileiros e levante ano reúne 3 milénio participantes e muro de 300 milénio espectadores no domingo (7).
O desfile foi criado na Bienal de 1996, que também foi dedicada ao Brasil – não por eventualidade, a primeira com a participação de Lia Rodrigues.
A Bienal não se limita, porém, ao Brasil. São ao todo 40 espetáculos, dos quais 24 criações inéditas, de quatorze países. Além do desfile e das apresentações, há ateliês, debates e exposições.
Para o visitante, é uma oportunidade de saber o que há de novo na produção francesa e mundial. O balé da Ópera de Lyon estreia a coreografia “Nuits transfigurées”, da dançarina belga Anne Teresa De Keersmaeker a partir da “Noite Transfigurada”, composta em 1899 pelo austríaco Arnold Schönberg para sexteto de cordas. O português Marco da Silva Ferreira lança “F*cking Future”, que subverte a coreografia militarista dos regimes autoritários para festejar a liberdade do corpo.
“A linguagem da dança é muito interessante, porque não tens de fazer tradução direta. É vivida e experienciada por cada um”, conclui Guedes. “Quando se fez uma peça de teatro, por exemplo, em polonês, tens de ter tradução. A dança não: é a linguagem do corpo. Podes perceber mais, podes perceber menos, mas passa sempre alguma coisa.”
O jornalista viajou a invitação da Bienal de Dança de Lyon e da Temporada Brasil-França
