Bienal de são paulo reúne veteranos da África e da

Bienal de São Paulo reúne veteranos da África e da Ásia – 03/09/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Ao caminhar pelo pavilhão da 36ª Bienal de São Paulo, a sensação inicial é de novidade, uma vez que se muitos dos trabalhos estivessem sendo vistos pela primeira vez. A surpresa, no entanto, é constatar que boa segmento desses artistas já acumula décadas de curso fora do Brasil —e só agora chega ao público sítio.

É o caso de Frank Bowling, 91, e Théodore Diouf, 76. A lista inclui ainda Leiko Ikemura, Gōzō Yoshimasu, Madame Zo, Huguette Caland e Ernest Mancoba, todos ausentes até agora do rotação brasiliano, evidenciando tanto a proposta de revisão histórica da exposição, a principal mostra de artes do Brasil, quanto o detido das instituições locais em incorporar esses trajetos.

A curadoria, comandada pelo camaronês Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, ao lado de Alya Sebti, Anna Roberta Goetz e Thiago de Paula Souza, organiza-se em torno da teoria de repensar a humanidade uma vez que prática e de reposicionar vozes à margem das narrativas hegemônicas. Mais do que lançar jovens promessas, o evento questiona o próprio funcionamento das grandes sinais entre vitrines de tendências e espaços de revisão sátira da história da arte.

Esse tensionamento aparece na inconstância reunida. Do lirismo corporal de Huguette Caland aos trabalhos têxteis de Madame Zo, das abstrações de Bowling à verso performática de Yoshimasu, a bienal propõe um quadro em que a experiência acumulada desafia a associação entre contemporaneidade e juventude.

Bowling e Diouf talvez sejam os exemplos mais claros desse gesto. O primeiro construiu uma pintura abstrata celebrada internacionalmente desde os anos 1970. O segundo, um trabalho de cores intensas e simbologia entre sonho e cotidiano africano. Ambos, porém, permaneciam invisíveis no rotação latino-americano.

A mesma lógica se aplica à libanesa Huguette Caland, morta há seis anos, conhecida no Oeste por pinturas e roupas-escultura que exploram corpo e sensualidade, e ao sul-africano Ernest Mancoba, morto há três anos, pioneiro preto do modernismo europeu, cuja produção passou décadas à margem da narrativa solene.

Já Madame Zo, de Madagascar, que morreu em 2020, apresenta painéis têxteis feitos de tecido, cobre e papel, embaralhando fronteiras entre arte e artesanato. A nipo-suíça Leiko Ikemura, 74, cria seres híbridos entre mitos orientais e imaginários ocidentais. Gōzō Yoshimasu, 86, amplia o escopo ao fundir oralidade, gesto e escrita em sua verso experimental.

O gesto de resgate também inclui artistas brasileiros com produção longeva e que aparecem pela primeira vez em uma Bienal. A paraibana Marlene Almeida, 83, apresenta esculturas que dialogam com décadas de pesquisa em solos e pigmentos. O baiano Alberto Pitta, 64, insere no contexto internacional a força simbólica de suas bandeiras ligadas aos blocos afros de Salvador.

Outros nomes históricos reforçam essa revisão, uma vez que Maria Auxiliadora, morta em 1974, que retratou a religiosidade popular com cores vibrantes, e Heitor dos Prazeres, morto em 1966, sambista e pintor que registrou a vida afro-brasileira no Rio de Janeiro.

A presença desses artistas expõe uma vazio histórica: a dificuldade do Brasil em dialogar de maneira consistente com produções da África e da Ásia. “Não me surpreende que essa dificuldade de troca aconteça. Enquanto instituições europeias e americanas há anos exibem nomes uma vez que Bowling ou Mancoba, cá eles chegam uma vez que estreantes tardios”, afirma o crítico de arte Gabriel San Martin.

Outros museus brasileiros têm tentado enfrentar essa defasagem —uma vez que o Masp, o Museu de Arte de São Paulo, com seus ciclos sobre histórias feministas e afro-atlânticas; o IMS, Instituto Moreira Salles, ao revisitar legados fotográficos invisibilizados; ou o Sesc, com sinais de arte africana contemporânea. Mas a Bienal de São Paulo, pela graduação e centralidade, dá outra dimensão a esse movimento.

Nesse contexto, a apresentação de artistas de 90 anos uma vez que novos evidencia as lacunas históricas do sistema de legitimação, que por muito tempo privilegiou trajetórias ligadas a eixos hegemônicos. Ao reposicionar esses nomes, a bienal contribui para ampliar os parâmetros do que se entende por arte contemporânea no Brasil.

Folha

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