Audre Lorde se definia uma vez que mulher, negra, lésbica e guerreira. Foi também bibliotecária, professora, mãe, editora. “Se eu mesma não me definisse, eu seria abocanhada e engolida viva pelas fantasias dos outros a meu reverência”, afirmou no tentativa “Aprendendo com os Anos 1960”.
Para contemplar as diversas faces de uma intelectual que reivindicava todos os aspectos de si, a pesquisadora Alexis Pauline Gumbs compôs uma biografia pouco convencional, com 58 capítulos curtos, dividida em dez partes.
“Sobreviver É uma Promessa” é a primeira biografia de Lorde publicada no Brasil, mas já há dois títulos importantes em inglês —”The Warrior Poet”, de Alexis Deveaux, que narra sua vida em ordem cronológica, e “The Wind Is the Spirit”, escrito pela pesquisadora e companheira de Lorde, Gloria Joseph.
Leitora das biografias anteriores, Gumbs mergulhou nos arquivos com o objetivo de apresentar Lorde a um público nascido depois que ela deixou leste mundo, em 1992. A biógrafa teve chegada aos diários, cartas, revistas e resenhas de suas obras guardadas por Lorde. Cotejou diferentes versões de poemas e de edições dos livros alterados pela autora em vida.
Além de se debruçar nos pontos de contato entre o pessoal e o político na vida da escritora, “Sobreviver É uma Promessa” se destaca por se estancar minuciosamente nos temas e eventos marcantes na vida da poeta e em uma vez que eles se reverberam na obra.
O luto, a amizade, o libido, o paixão, a ameaço de guerras nucleares, a maternidade, a amizade, a fé e a violência racial surgem de várias maneiras e em momentos distintos de sua produção poética.
A biografia inova ao explorar os poemas discorrendo sobre uma vez que os mares, ventos, minérios, vegetalidade e galáxias figuram nos versos numa lógica relacional, sem hierarquias entre humanos e a natureza. “A Terreno está nos dizendo alguma coisa sobre a nossa conduta de vida, muito uma vez que sobre uma vez que abusamos do pacto em que vivemos”, afirmou Lorde em uma missiva para a revista Aché.
A abordagem de Gumbs estimula a ler a autora para além do gênero e da raça, considerando a crise climática e um excesso de crédito na tecnologia uma vez que solução para as questões humanas.
Com o saboroso tom ensaístico de uma tradição de poetas feministas negras, “Sobreviver É uma Promessa” é recheado de referências a poemas de June Jordan, Pat Parker e Dionne Brand.
Gumbs observa uma vez que o capitalismo, com sua lógica de exploração incessante, trata as vidas negras, migrantes e LBGTQIA+ uma vez que recursos. Uma vez que a exposição a produtos químicos e radiação ao trabalhar numa fábrica podem ter contribuído para cancro que levou Lorde aos 58 anos?
Diante de uma personagem com vida breve e intensa, a biógrafa divide com seus leitores perguntas que seguem sem resposta. Mas, destaca os contrastes entre os relatos nos diários e as falas e textos públicos, rastreando os movimentos, exageros e contradições de uma mulher que construía uma imagem de autora, pensadora e ativista muito atenta a uma vez que suas identidades e sua orientação sexual interferiam na recepção de seu trabalho.
Lorde era leitora de Edna St. Vincent Millay antes de saber Langston Hughes e o Black Arts Movement. Sua visão complexa da negritude e suas leituras diversas distinguiam sua voz nos anos 1960. A procura por referências negras a levaram ao sul dos Estados Unidos, a Angola e a várias ilhas do Caribe, mormente St. Croix, onde viveu seus últimos dias.
No entanto, as convivências e trocas com outras mulheres negras nunca foram romantizadas ou isentas de conflitos. Suas comunidades eram formadas no ativismo, na vida acadêmica, nas aulas de escrita e na correspondência com suas contemporâneas.
Desde a juventude, Lorde pensava que geração de um legado daria sentido a sua vida. O diagnóstico do cancro levou a trabalhar com afinco na geração de sua “biomitografia”, concepção que abarca a imagem mítica da poeta-negra-lésbica-guerreira que perdura com suas palavras.
“Sobreviver É uma Promessa” detalha as escolhas de Lorde nessa empreitada de preservação da memória, sem deixar dúvidas de que ainda devemos ler e nos inspirar em suas posturas políticas em 2025.
