Bloco do Amor faz carnaval respeitoso e livre de preconceitos no DF

Brasil

Admitir as diferenças é um tanto revolucionário. Por ser um espaço em que as diferenças podem conviver, o carnaval carrega consigo esse potencial revolucionário que, em passos de formiga ou na velocidade da luz, pode trazer a silêncio que todos merecem. É com esse pensamento que, ao longo de 11 anos de história, o Conjunto do Paixão vem ganhando cada vez mais espaço na capital do país.

O conjunto, que ano pretérito chegou a ter um público de quase 70 milénio pessoas segundo os organizadores, juntou novamente o público neste sábado de carnaval nos periferia da Livraria e do Museu Pátrio.

Fundado em 2015, o Conjunto do Paixão nasceu com o propósito de ocupar o núcleo de Brasília com manifestos político-poéticos de saudação, heterogeneidade e afeto coletivo. Tudo com muita cor e glitter.

Trata-se, segundo os organizadores, de uma das celebrações mais emblemáticas e afetuosas do carnaval de Brasília, em uma mistura de nostalgia e celebração que espalhou um mar de luz no núcleo de Brasília.

Sonhar uma vez que ato de existência

Na edição de 2026, o conjunto veio com o lema Sonhar uma vez que Ato de Existência, proposta que enxerga o sonho e a alegria uma vez que ferramentas de resistência e de transformação social.

Com o público extremamente plural da comunidade LGBTQIAPN+, o conjunto se apresenta uma vez que um território livre de preconceitos, onde a folia está presente de forma respeitosa.

“A heterogeneidade está presente, inclusive, na variedade de ritmos que empurram os foliões, indo do axé retrô ao eletrônico, passando pela música pop, MPB e pelo forró”, explicou à Filial Brasil a coordenadora universal do Conjunto do Paixão, Letícia Helena.


Brasília (DF), 14/02/2026 –   A coordenadora do Bloco do Amor, Letícia Helena fala com Agência Brasil.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Brasília (DF), 14/02/2026 –   A coordenadora do Bloco do Amor, Letícia Helena fala com Agência Brasil.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Letícia Helena conta que a heterogeneidade está presente inclusive na variedade de ritmos do bloco- Valter Campanato/Filial Brasil

A edição 2026 integra a Plataforma Monumental, uma estrutura montada para comportar diversos eventos ao longo de quatro dias.

Paixão na cidade

Produtora cultural, cantora, figurinista e formada em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília (UnB), Letícia Helena explica que o Conjunto do Paixão surgiu da “premência de discutirmos o paixão nesta cidade; o que queremos e o que somos, de forma a trazer mais representatividade para os espaços”.

“Nascemos de um trabalho voluntário na Via S2 do Projecto Piloto, onde havia muitos profissionais que vendiam paixão. Foi ali a primeira edição do conjunto. Uma vez que cresceu muito, o espaço não comportava mais o público, mudando para a dimensão externa do Museu Pátrio de Brasília”, acrescentou.

Segundo ela, são 11 anos de folia curtida com saudação, usando da notícia para passar, ao público, mensagens sobre validação e bom convívio na heterogeneidade.

“Percebemos, ao longo desses anos, muitas coisas melhorando. Isso está nas estatísticas. Para você ter uma teoria, o número de casos de assédio eram muito grandes no início. Mas em 2024 conseguimos fazer uma sarau que, segundo a Secretaria de Segurança Pública, zerou a quantidadde de registros de violência e assédio contra mulheres”, comemora a coordenadora do conjunto

Segundo ela, muito disso se deve ao trabalho de preparação que é feito com a equipe de produção. “Temos até protocolos indicando uma vez que agir nas mais diversas situações”.

Conjunto do coração

A poucos metros do palco, onde diversos dançarinos expressavam, em seus movimentos, toda as sensações provocadas por um ritmo eletrônico muito dissemelhante daquelas músicas tradicionais do carnaval, Fernando Franq, 34, e Ana Flávia Garcia, 53, diziam que o Conjunto do Paixão era o conjunto dos corações do parelha.


Brasília (DF), 14/02/2026 – O casal Fernando Franque e Ana Flávia Garcia fala com Agência Brasil, durante apresentação do Bloco do Amor no museu da republica.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Brasília (DF), 14/02/2026 – O casal Fernando Franque e Ana Flávia Garcia fala com Agência Brasil, durante apresentação do Bloco do Amor no museu da republica.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Fernando Franq e Ana Flávia Garcia dizem que o Conjunto do Paixão é o conjunto do coração deles – Valter Campanato/Filial Brasil

“É um envolvente com o qual nos identificamos, de muita arte e com muitos artistas. Um lugar seguro para a comunidade LGBT, organizado por amigos que também estão em nossos corações”, disse Fernando.

Ana Flávia acrescenta que, além de muito músico, o Conjunto do Paixão é seguro e sem preconceitos. “É um envolvente reverberado por pessoas apropriadas do próprio corpo. Cá, todos são aceitos”.

Por esse motivo, ela reitera que, em sua origem, o carnaval é revolucionário, quando agrega saudação e validação ao pensamento coletivo.

“Note que temos uma juventude que já percebe a prestígio de um envolvente tranquilo por ser respeitoso, onde a nudez pode e deve ser respeitada, livre de assédios e preconceitos”, argumentou.


Brasília (DF), 14/02/2026 – A biologa Clarice Pontes fala com Agência Brasil, durante apresentação do Bloco do Amor no museu da republica.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Brasília (DF), 14/02/2026 – A biologa Clarice Pontes fala com Agência Brasil, durante apresentação do Bloco do Amor no museu da republica.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Clarice só quer paixão e curtição no primeiro carnaval que aproveita em Brasília – Valter Campanato/Filial Brasil

Primeiro carnaval

Uma dessas jovens mencionadas pela foliã é Clarisse Pontes, 22, recém formada em Biologia. “É a primeira vez que vou a um conjunto de carnaval”, confessa a bióloga que trabalha, também, uma vez que babá.

Ela diz que sempre ouviu muitas histórias relacionando carnaval a bebidas e dança, mas que o que espera ter é “muita silêncio e curtição”, neste conjunto tão associado a validação e saudação à heterogeneidade.

 

 

“Penso que, uma vez que disseram cá, os espaços de Brasília são de todos, com todos, para todos. Que a gente tenha um carnaval de muita heterogeneidade e saudação.

Com um currículo de quatro edições de Conjunto do Paixão, o estudante Alasca Ricarte, 23, explica que a fantasia dele mistura o mito heleno de Dionisus com a bandeira da bisexualidade.

Para Alasca, o carnaval é uma oportunidade para as pessoas se mostrarem de uma forma mais verdadeira. “O que mais agrada cá é isso: ser livre uma vez que quero, ser aceito e admitir a todos uma vez que todos são”, disse.


Brasília (DF), 14/02/2026 – O estudante Alasca Ricart fala com Agência Brasil, durante apresentação do Bloco do Amor no museu da republica.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Brasília (DF), 14/02/2026 – O estudante Alasca Ricart fala com Agência Brasil, durante apresentação do Bloco do Amor no museu da republica.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Alasca vê o carnaval uma vez que um momento de liberdade e aceitação- Valter Campanato/Filial Brasil

Na avaliação do estudante de design da UnB, o mundo tem conseguido proceder no sentido da validação das diferenças, “ainda que haja forças atuando sempre no sentido inverso”.

O estudante lamenta que Brasília ainda seja um lugar onde pessoas conservadoras e preconceituosas tentam desmanchar o carnaval e a liberdade que ele representa.

“A cidade é um verdadeiro palco de disputas por espaço, entre habitantes com ideais diferentes sobre o uso do espaço. Percebo que, quanto mais tenso o embate, mais difícil é o debate sobre validação. O que garante os avanços é exatamente a nossa resistência. As pessoas têm de entender que, mesmo sendo um quadrângulo pequeno, Brasília é para todos”, argumentou.

Saudação à liberdade

Foi também em procura de um carnaval onde homens e mulheres se respeitam que a estudante Ana Luíza, 25, optou pela folia no Conjunto do Paixão. “Ví muito, em outros blocos, mulheres sendo desrespeitadas por homens. A meu ver, carnaval, para ser bom, tem de ser curtido com saudação à liberdade”, disse

“Vim cá porque sabor desse envolvente de validação, e validação significa, também, segurança. Leste é um conjunto mais tranquilo, que tem uma vez que lema o paixão e o convívio entre pessoas que buscam a alegria do carnaval”, disse à Filial Brasil a estudante.


Brasília (DF), 14/02/2026 – A família Ricardo Mauricio com sua esposa e filha fala com Agência Brasil, durante apresentação do Bloco do Amor no museu da republica.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Brasília (DF), 14/02/2026 – A família Ricardo Mauricio com sua esposa e filha fala com Agência Brasil, durante apresentação do Bloco do Amor no museu da republica.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Ricardo Maurício quer que a filha compreenda a riqueza das diferenças- Valter Campanato/Filial Brasil

Escoltado da esposa e da filha de 7 anos, Ricardo Maurício, 41, diz que conversa muito com a filha sobre a questão da heterogeneidade. “Sempre trabalhei esse tema da heterogeneidade com a minha família, até porque temos uma família diversa”, disse.

“Respeitamos diferenças e vivemos na heterogeneidade de um mundo que é grande e diverso. Quero que minha filha saiba disso, e que compreenda a riqueza das diferenças. Ela está acostumada com isso, até porque convive com casais gays e trans. Para ela, a heterogeneidade já é um tanto trivial”, complementou.

Fonte EBC

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *