No Carnaval deste ano, quando o Brasil inteiro se divertia, a Bahia já sabia: “Resenha do Arrocha”, de J. Eskine, representava um jeito de fazer música muito popular. Estavam ali o escracho de duplo sentido, o pot-pourri, as faixas de longa duração, elementos tradicionais do cancioneiro brasílio que, no caso, surgiam juntos numa mistura à baiana —receita que ajudou a fazer da melodia um dos maiores sucessos do ano.
Na Bahia, essa forma de formação é conhecida porquê “bloquinho”. “A gente junta várias composições, umas cinco músicas, e quina segmento delas e o refrão —não é uma única música solta: é uma música com várias músicas em cima de um único suíngue, uma viola, uma percussão.” Quem explica é Oh Polêmico, cantor de pagodão e responsável de músicas porquê “Conjunto dos Amigos”.
A tira com muro de seis minutos e um punhado de trechos de outras canções é de 2022, mas 2025 é o ano em que a prática do bloquinho decolou. Segundo um levantamento feito pela reportagem, o Spotify tem muro de 700 faixas com o termo “bloquinho” ou derivados no título. Pouco menos da metade foi lançada em 2025, 52 somente no mês de agosto —os números dão um quadro atual do pagodão com artistas já de olho no Carnaval de 2026.
A técnica soa contraproducente à primeira escuta. Segundo a plataforma de estudo de dados de streaming Chartmetric, a média de duração das músicas no Spotify em 2024 foi de três minutos, uma tendência global. Ou por outra, o bloquinho quebra a estrutura tradicional da melodia que repete uma vez estrofe, pré-refrão e refrão. As mudanças de tempo e forma, mas, fazem sentido no pagode baiano.
Para Oh Polêmico, a popularidade dos bloquinhos vem de uma procura por visibilidade da novidade geração de cantores de pagodão: ao juntar várias músicas de sucesso em uma única melodia, as chances de desabar no palato do público aumentam. “E a galera do paredão curte bastante também, eles preferem mais bloquinhos a músicas soltas”, lembra o artista, referindo-se às festas de rua centradas em sistemas de som automotivo.
Há também uma questão de aproximação, já que há bloquinhos que reutilizam bases instrumentais feitas para esse termo —o “hitmado”, termo também usado porquê sinônimo para bloquinho. Nome em subida no momento, o cantor Rei dos Faixas se tornou publicado por conta de bloquinhos porquê “Hit dos Paredões”. “O pagodão não é feito exclusivamente com instrumentos eletrônicos, porquê o funk”, explica a DJ e dançarina Cris Masca. “Quando você encontra um beat pronto, é muito mais fácil de fazer uma música.”
Prolongamento moderno das várias manifestações do samba na Bahia, gestado entre festas de samba junino e práticas afro-brasileiras porquê samba chula e samba duro, o pagodão é há ao menos 20 anos a música popular por superioridade de cidades porquê Salvador. Nos últimos anos, o gênero se imbricou com letras do funk, de onde nasceu o pagofunk, e reduziu a presença das letras em obséquio de trechos percussivos que dão protagonismo à dança, dando origem ao naipe.
“O naipe construiu esse lugar de movimento, portanto houve essa febre de batalhas de naipe, duelos de dança com letras que não falavam zero de mais”, explica Joyce Melo, cofundadora da plataforma Pagode por Elas. “O bloquinho consegue unir essa fala sobre sexualidade do pagofunk e a galhofa que o naipe trouxe, ele une características dentro dessa cronologia do pagodão.”
A vaga dos bloquinhos também tem colaborado para a subida de novas cantoras de pagodão. Historicamente escravizado por vozes masculinas, porquê Igor Kannário e Edcity, o gênero tem algumas cantoras entre seus nomes fortes, caso de A Senhora e Rai Ferreira. Com os bloquinhos, porém, mais mulheres têm surgido nos microfones. Na música “Bloquinho 7 Pecados”, por exemplo, elas são sete.
“Todos os pagodes que estouraram ultimamente têm vozes femininas: em Salvador, em qualquer esquina hoje vai tocar um bloquinho cantado por uma mulher”, afirma Beatriz Almeida, também cofundadora da Pagode por Elas. “Estamos esperançosas com esse momento, mas também preocupadas, porque o pagode ainda não se reinventou: temos bandas que são comandadas por homens, empresários homens, enfim.”
O vista lítico também é preocupante para alguns. Há quem use letras e bases instrumentais de outros artistas ao fabricar um bloquinho. Apropriações desse tipo não são incomuns na música brasileira, enxurrada de versões e empréstimos sonoros, mas podem implicar embates sob leis de recta autoral. “Acho que muitos preferem resolver à medida em que as questões vão surgindo”, diz Almeida.
A DJ e dançarina Cris Masca adiciona uma questão de ordem financeira e subjetiva. “Existe uma falta de investimento no pagode e muitos empresários não entendem sobre identidade”, diz ela. “Acho que o artista precisa fabricar uma identidade. Artistas porquê O Kanalha, por exemplo, conseguiram crescer graças a isso: quando ele começa a tocar, já identificam quem é.”
Para Joyce Melo, do Pagode por Elas, o bloquinho é sinal de que o pagode baiano segue mais vivo do que nunca. “Esse é um gênero que movimenta, que faz Salvador vibrar, que faz o Carnaval pular”, diz ela. “Temos esse olhar de que é um processo, um tanto em transformação, que tem novas personalidades e uma novidade geração.”
Oh Polêmico rebate a teoria de que essa colcha de retalhos em forma de música refletiria uma falta de originalidade da leva atual de artistas do pagode. “Quando a gente lança um bloquinho com nossas músicas e essas músicas ganham o mundo, teve originalidade”, diz ele, que lançou em outubro uma parceria com J. Eskine —”É Blog”, uma mistura de arrocha e pagodão que, sabe-se lá, um dia pode virar bloquinho.
