Bofetada fictícia arde 75 anos após maracanazo 15/07/2025

Bofetada fictícia arde 75 anos após Maracanazo – 15/07/2025 – Esporte

Esporte

A roteiro do Brasil para o Uruguai no jogo decisivo da Despensa do Mundo de 1950, hoje conhecida porquê Maracanazo, foi chamada por Nelson Rodrigues de “nossa Hiroshima”. “Foi uma humilhação pátrio que zero, absolutamente zero, pode sanar”, escreveu o historiador, na Manchete Esportiva, oito anos depois da partida.

Zero, de vestimenta, curou. Nem cinco campeonatos mundiais. O supremo que ocorreu foi a substituição daquele 2 a 1 por um 7 a 1, que passou na dezena passada a ser o símbolo da “humilhação pátrio”, a ponto de fazer de “7 a 1” uma frase popular que denota fracasso retumbante.

Mas a roteiro por 7 a 1 para a Alemanha nas semifinais da Despensa de 2014, realizada no Brasil, tem um peso dissemelhante da roteiro por 2 a 1 para o Uruguai no duelo último do Mundial de 1950, realizado no Brasil. Há 75 anos, havia uma quase certeza do triunfo.

“Era uma Novidade Era que ia se transfixar para o futebol brasiliano. Todos a esperavam: ela tinha data marcada para debutar. 16 de julho de 50”, escreveu Mario Rebento no célebre “O Preto no Futebol Brasiliano”. “Que incerteza podia possuir? As fábricas de flâmulas trataram de fazer centenas de milhares de flâmulas: ‘Brasil, vencedor do mundo’.”

O Brasil não foi vencedor do mundo.

Bastava-lhe o empate com o Uruguai, depois goleadas sobre Suécia e Espanha no quadrangular final. A expectativa era de novidade goleada, mas a povaréu presente no Estádio Municipal do Rio de Janeiro –depois batizado em homenagem a Mario Rebento e espargido pelo nome do bairro carioca do Maracanã– viu uma viradela hedionda.

“Pois entramos por um canudo esplêndido, nas barbas de 200 milénio brasileiros. Foi uma tragédia pior do que a de Canudos”, escreveu Nelson Rodrigues –irmão de Mario–, que, com seu olhar de dramaturgo, visualizou uma cena de “suicídio pátrio”. “Éramos, todos nós, uma região que quase toma formicida”.

Mais do que os gols de Juan Schiaffino e Alcides Ghiggia, ecoa há sete décadas e meia o tapa de Obdulio Varela. Um tapa que, tudo indica, nunca aconteceu.

Ficou para a história que o capitão uruguaio agrediu o protector brasiliano Bigode. O responsável por relatar o incidente provavelmente suposto foi Mario Rebento, que fazia consideráveis concessões à imaginação e não tinha imagens para desmenti-lo.

Não há registro completo da partida em vídeo. Restaram os lances dos gols, mais uma ou outra jogada desimportante e cenas de alegria e tristeza naquele que era o maior estádio do mundo. A suposta agressão ficou mesmo no papel, nos textos de Mario, mas ganhou o imaginário popular e foi apontada porquê explicação para a zebra.

O Brasil tinha feito 7 a 1 na Suécia e 6 a 1 na Espanha, com o público enlouquecido cantando a música “Touradas em Madri”. O Uruguai havia sofrido para buscar um empate por 2 a 2 com a Espanha e derrotado a Suécia por 3 a 2. Era evidente o nepotismo dos donos da morada, e uma roteiro tão surpreendente teve justificativas que foram além de conceitos táticos e técnicos.

Em resumo, o tapa de Obdulio acovardou o Brasil e engrandeceu o Uruguai.

Pouco importa que o próprio Mario Rebento tenha revisto sua versão inicial. Na última edição de “O Preto no Futebol Brasiliano”, escreveu que Varela “agarrou Bigode pelo pescoço”. “Não lhe meteu a mão na faceta. Mas que o balançou em safanões, balançou.” De qualquer maneira, o cerne da questão não mudou.

O incidente ajudou Nelson Rodrigues a desenvolver o noção do “multíplice de vira-latas”, a “inferioridade em que o brasiliano se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. Segundo ele, “Obdulio nos tratou a pontapés, porquê se vira-latas fôssemos”.

Tratado a pontapés –ou a tapas, ou a safanões, a depender do relato–, Bigode foi indigitado porquê um dos culpados. Era um varão preto, porquê o goleiro Barbosa e o zagueiro Juvenal, também responsabilizados pelo fracasso. “Era o que dava, segundo os racistas que apareciam aos montes, botar mais mulatos e pretos do que brancos no escrete brasiliano”, escreveu Mario Rebento.

Ninguém sofreu tanto quanto Barbosa, que falhou no chuto trágico de Ghiggia. Em 2000, pouco antes de morrer, ele observou que sua punição talvez fosse excessiva. “Qual é a pena máxima no Brasil? A pena máxima por um delito no Brasil é de 30 anos. Eu pago por aquele gol há 50”, disse.

Barbosa é um ídolo histórico do Vasco, um arqueiro de qualidade fabuloso. É, no entanto, mais lembrado pela esfera que não pegou do que pelas muitas que agarrou. Sua trajetória –mormente sua dor– provocou e provoca atração, com múltiplas representações no campo das artes.

Uma delas é o livro “O Goleiro Fantasma”, de Raul Drewnick, singela obra infanto-juvenil que reabilita a figura do jogador. O trabalho é “devotado à memória e à honra de Barbosa, goleiro do Brasil na Despensa do Mundo de 1950 e vítima supremo do futebol brasiliano”.

“Sempre tive fascínio pela vítima, nunca pelo tirano. Barbosa foi, sim, a maior vítima da maior tragédia do futebol brasiliano, um drama heleno pretérito no Maracanã”, afirmou Drewnick à Folha.

“Todos se livraram jogando a culpa no Barbosa, esse foi o drama. Foi fácil emendar uma vítima tão evidente, o goleiro que tomou dois gols. Quem fala hoje de Flávio Costa?”, questionou o repórter, corinthiano, ainda irritado porque o ponta-direita Cláudio, maior bombeiro da história do Corinthians, não foi convocado.

Realmente, poucos se lembram de Flávio Costa. Lembram-se do erro de Barbosa. E se lembram da chapada de Obdulio, ainda que ela não tenha sucedido.

Folha

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