Quotidiano de um legendário, dia 1: disciplina militar e pouca comida
Em 2025, o g1 foi ao retiro secreto masculino que justificação debate nas redes sociais, e revelou os bastidores dos Legendários. Tudo começou com uma impressionante maratona física, ordens rigorosas e comida racionada.
Ao longo de dezembro, o g1 revisita as histórias mais malucas – e reais – publicadas em 2025. Veja o vídeo supra, leia o texto aquém e explore outras reportagens no planta ao final desta página.
A material original foi publicada em julho.
GIF retrospectiva – Os segredos e regras extremas dos Legendários, retiro que virou febre entre famosos
Editoria de arte do g1
A frase supra, dita para mim e mais 168 homens, resume o espírito do retiro masculino e cristão que ganhou glória nas redes sociais. Nomeada e mistério.
De um lado, celebridades uma vez que o ex-BBB Eliezer, Neymar pai, Thiago Nigro e Tirulipa exaltam a experiência uma vez que transformadora. Do outro, críticos apontam uma visão obsoleta da masculinidade.
Muita gente opina sem saber. Eu, varão cristão que cresceu em lar evangélico e tem interesse sobre o tópico, subi a serra. Agora posso responder: o que acontece, enfim, entre os Legendários?
Não levei gravador, câmera, nem celular, que eram banidos. Mas tomei notas. E o que relato cá é o que vi, ouvi e vivi durante o retiro em junho de 2025.
Já no primeiro dia, entendi que o esforço físico e a disciplina militar são tão marcantes quanto o vista religioso.
O g1 publicou nascente Quotidiano de um Legendário em quatro partes diárias, e 26 e 29 de julho.
DIA 2: as conversas sobre família que fazem homens chorarem na serra
DIA 3: retiro masculino vira ‘reality-show com suor, limo e teste final de coragem
DIA 4: na volta para lar, homens são orientados a virar ‘sacerdotes do lar’
Um boné, um número e nenhum via
Cheguei às 13h03 no sítio que havia sido anunciado todos os dias da última semana no grupo de Whatsapp “TOP#1071 – DESCOBRIMENTO BAHIA”.
O número do nosso Track Outdoor de Potencial (TOP), 1.071, é único em todo o mundo; sempre que um retiro uma vez que esse é organizado, a chancela do Legendários Global vem com a identificação numérica daquela edição.
Da mesma forma, quem completa as 72 horas de TOP recebe um número só seu. No domingo, recebi o boné de legendário 130.821, o que significa que, antes de mim, 130.819 homens se tornaram legendários pelo mundo.
Isso porque Jesus é considerado o “legendário nº 1” — apesar de o messias do mundo cristão não ter pretérito exatamente pela jornada em que eu estava prestes a embarcar.
Ali, cada participante recebia a identificação de sua “família”. Fui eleito à Família 2. Aqueles outros 12 homens seriam meus principais companheiros de jornada.
Logo entendi que não havia espaço para improviso. Uma informação repassada várias vezes pelo grupo de zap foi a lista de itens a serem levados, entre obrigatórios (uma vez que manta térmica, barraca, lanterna de cabeça) e opcionais (boné, agasalho impermeável, meias esportivas, etc).
Zero disso estava incluso no valor da letreiro, que nesse caso foi de R$ 1.850. O preço varia em cada TOP: os mais em conta custam por volta de R$ 450, mas há opções que chegam a dezenas de milhares de reais.
Vindo de SP, levei uma sacola com roupas extras, esperando deixá-la guardada na igreja (sítio de onde partimos para o retiro) até domingo. Ao pedir ajuda, a resposta dos organizadores foi sempre uma ou outra: “Fruição o caminho, senhor” ou “Siga a lista”.
Acabei entendendo a mensagem: seguir a lista que recebemos. Foi mal minha sacola virou peso extra na trilha, somada aos 16 kg que minha mochila já pesava.
Ainda no gramado dos fundos da igreja, conhecemos o “Voice”, o principal responsável por passar instruções e comandos — um varão eminente e potente, de voz firme. Qualquer erro de um é pago por toda a família com dez “sentadillas” (vocábulo em espanhol que significa “agachamentos”, feitos com os braços estendidos).
Qualquer erro mesmo pode gerar penalidade, desde deixar um pertence no soalho para buscar depois, até… não fazer a narração das sentadillas com ânimo suficiente, por exemplo. Se não há um responsável inicialmente, todas as famílias pagam, e a punição só se encerra depois que alguém se responsabiliza.
Os participantes eram chamados de senderistas, outra vocábulo vinda do espanhol. “Sendero” quer proferir caminho: estávamos no caminho para nos tornarmos legendários.
Também aprendemos o grito “AHU” — {sigla} para Paixão, Honra e Unidade — usado genericamente uma vez que um “Sim, senhor” ou em momentos de celebração, por exemplo. Era o início de uma submersão que mistura disciplina militar e espiritualidade cristã.
Cal para atender ao chamado da natureza
Detrás de mim, um dos meus “irmãos” da família 2 perguntou se eu já tinha trazido os 200 g de cal que constavam na lista de itens obrigatórios, porque ele acabou comprando um saco de 8 kg e levou para o caso de outros participantes precisarem.
No final, tanto minha sacola de roupa extra quanto essa pequena saca de cal tiveram que subir e descer a serra uma vez que peso extra — levados por nós mesmos, obviamente.
O cal, pelo menos, nossa família foi usando ao longo do caminho, jogando sobre o cocô em um buraco uma vez que medida de higiene toda vez que alguém precisava atender a esse chamado da natureza.
O hidróxido de cálcio age para expelir o odor e endurecer as fezes, minimizando o impacto na natureza.
Meio familiar, meio militar
Um dos exercícios iniciais foi dar as mãos em família, decorrer até os fundos do gramado e voltar pra formação inicial, todos com as mochilas nas costas.
Depois ordenaram que formássemos pequenos círculos por família e que conversássemos, reforçando que “família conhece família”.
Durante muro de 10 minutos, a cada 30 segundos ou 1 minuto qualquer legendário aparecia no grupo e fazia perguntas a um senderista, começando por “Você, qual é o nome dele?” até “Quantos filhos ele tem?” ou “Qual é o nome do bicho de estimação dele?”.
A cada erro, mais 10 sentadillas do grupo e o reforço de que precisaríamos nos saber muito muito nos próximos dias, uma vez que família. Ao final, ainda em círculo, um legendário nomeou o líder e o sub-líder do grupo, de forma aparentemente aleatória.
Celulares confiscados, conversa contida, sorte ignoto
Legendários passaram recolhendo todos os celulares e outros aparelhos dos participantes, incluindo relógios digitais e analógicos. A partir dali, por volta de 17h de quinta-feira, deixamos de ter muita noção das horas. Esses itens só seriam devolvidos três dias depois, quando retornamos a Salvador.
Antes de entrar num ônibus com sorte ignoto, recebemos um sanduíche e uma banana. As mochilas deveriam ir no pescoço, e as janelas tinham cortinas fechadas. Ninguém sabia onde ficava a tal serra a ser subida.
Diversas vezes durante a viagem, qualquer legendário se levantava e lia o Salmo 91 em voz subida. Esse salmo fala da proteção e da segurança divinas que cobrem aqueles que confiam em Deus.
Conversar era permitido, mas sem excesso. O clima era de expectativa e contenção. Quando, horas depois, descemos nos limites de uma cidadezinha do interno da Bahia, as placas de sinalização ao volta estavam cobertas por sacos pretos. O sigilo do sítio era necessário.
O retiro onde tudo começa no escuro
Era noite fechada quando o grupo começou a caminhar por uma trilha de terreno batida. O silêncio só não era pleno por conta do forró que se ouvia ao longe, vindo de qualquer sítio. Identifiquei um hit do Falamansa e uma versão forrozeada de Jorge Vercillo.
Chegamos a um sítio com um galeria de tochas acesas. Sob tendas montadas num terreno capinado, recebemos a ordem de perfurar as mochilas e mostrar tudo. O que não estivesse na lista solene era confiscado.
Mesmo assim, houve uma segunda chance: de olhos fechados, os homens foram encorajados a se denunciar e entregar qualquer item que tivesse pretérito pela primeira coleta. Pelo estrondo ao volta, foi o caso de muita gente.
Iguais na rafa, na dor e na fé
Um momento simbólico foi quando um legendário fez uma chamada pedindo que todos se identificassem por profissão ou intensidade familiar: médicos, profissionais da saúde, empresários, pais, filhos. A quantidade expressiva de empresários que se levantaram me chamou atenção. Ao final, todos estavam de pé. E a mensagem veio:
Recebemos, cada um, um saco laranja lacrado com a {sigla} MRE (“Meal Ready to Eat” em inglês, ou “Repasto Pronta para Manducar”). A orientação foi que cada um só teria o teor daquele saco pra se cevar durante os próximos três dias, e que cabia a nós administrarmos esse consumo.
No saco, tinha:
Zero mais do que isso para três dias. A rafa também fazia segmento do rolê.
Cruz, cova e silêncio
O que parecia ser a hora de dormir revelou-se o início da trilha. Ganhamos mais 5 litros de chuva por pessoa (leia-se: mais 5 kg de peso pra carregar) e seguimos a pé. Pouco depois, nos deparamos com duas covas cavadas no soalho, ladeadas por cruzes brancas e pretas. Tratava-se de um memorial aos “homens que morreram sem subir a serra”, explicou um legendário.
Em pelo menos duas cruzes havia um nome e datas de promanação e morte; a da direita dizia PH Nunes, e lembro que a data de morte era em 2021. Imaginei que fossem nomes e datas fictícios; mesmo assim, a cena foi marcante a ponto de me fazer lembrar desses detalhes muito depois.
Mato denso e homens com olhinhos de fora
A partir dali, a trilha seguiu com trechos maiores de mato denso. O indiferente aumentou. Frases uma vez que “Família não deixa brecha!” e “Família não abandona família!” eram repetidas para manter o grupo unificado.
À segmento dos 170 senderistas, eu havia exposto pouco mais de 100 legendários, de roupa laranja, que se dividiam no trabalho voluntário em diversas funções.
E na trilha eram legendários aparecendo o tempo todo, pedindo passagem ou surgindo parados no caminho, em silêncio, observando. Não respondiam a cumprimentos. Essa presença silenciosa, para mim, batia mais uma vez que opressiva do que reconfortante.
Quase todos sempre com um tecido cobrindo boa segmento do rosto, boné e lanterna na cabeça, só com os olhinhos de fora. No prelúdios até tentava bracear com a cabeça ou soltar um “Ôôa” de cumprimento, mas não recebia qualquer reação.
Em qualquer momento acabei preferindo só passar reto por eles dali em diante, fingindo que não estavam lá nessa reparo meio incômoda.
Entre barracas e notas num buraco de tatu
Equipe de arte do g1
Entre barracas e notas num buraco de tatu
Quando um dos participantes ameaçou desistir por dores, um irmão da família pegou a mochila dele, os galões de chuva e seguiu com tudo nos ombros e braços num esforço descomunal, e ainda mantendo a plenitude. Se a teoria do Legendários é “repor um herói por família”, talvez esse mano pudesse já ter voltado pra lar naquela mesma noite.
Depois de horas andando, chegamos a um descampado para dormir. As barracas deveriam ser montadas em volta da bandeira da família. A minha, complicada de armar, exigiu esforço coletivo e virou piada. Ficou meio capenga, chamei de meu “buraco de tatu”. Ainda assim, funcionou.
Deitei no saco de dormir e comecei a tomar notas num caderninho. Eu ainda não tinha entendido: por que estes homens estão cá? O que eles querem aprender e o que, enfim, é um “legendário”?
Estava na terceira página, havia-se pretérito só 30 ou 40 minutos desde que entrei na barraca, quando vieram os gritos de legendários do lado de fora:
*O g1 publicou nascente Quotidiano de um Legendário em quatro partes diárias, e 26 e 29 de julho.
DIA 2: as conversas sobre família que fazem homens chorarem na serra
DIA 3: retiro masculino vira ‘reality-show com suor, limo e teste final de coragem
DIA 4: na volta para lar, homens são orientados a virar ‘sacerdotes do lar’
Fonte G1
